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sábado, novembro 29, 2025

MPF intensifica vigilância no Vale do Javari, região marcada por conflitos e crimes ambientais

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O Ministério Público Federal (MPF) no Amazonas instaurou um procedimento administrativo para fiscalizar as ações de segurança territorial e proteção dos povos indígenas e comunidades tradicionais que vivem na área abrangida pela Coordenação Regional do Vale do Javari da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

A medida foi formalizada por meio da Portaria nº 89/2025 e publicada nesta terça-feira, 14, no Diário Eletrônico do MPF. O documento foi assinado pelo procurador da República Eduardo Jesus Sanches.

Segundo a portaria, a iniciativa tem como objetivo garantir uma atuação mais integrada e eficiente entre os órgãos de comando e controle, diante da falta de estrutura e da complexidade logística da região amazônica, onde o deslocamento é predominantemente fluvial e as distâncias entre comunidades são extensas.

O MPF destacou que o Amazonas abriga 164 terras indígenas já demarcadas, somando mais de 45,8 milhões de hectares, e quase 200 procedimentos demarcatórios ainda em andamento na Funai. O estado concentra quase um terço de toda a população indígena do Brasil, além de diversas comunidades tradicionais — como ribeirinhos, extrativistas e quilombolas.

“Além da quantidade e tamanho dos territórios, há o problema da dificuldade de deslocamento (em regra os deslocamento são por rio) e a pouca estrutura dos órgãos e instituições de comando e controle”, diz trecho do documento.

De acordo com o procurador, a fragmentação de investigações em múltiplos processos sobre o mesmo tema tem dificultado a cobrança coordenada de providências e o monitoramento das ações do Estado.

Por isso, o MPF decidiu adotar uma estratégia regionalizada, acompanhando de forma conjunta as medidas voltadas à prevenção e repressão de ilícitos recorrentes, como tráfico de drogas, pesca e mineração ilegais e desmatamento.

Mapeamento

A portaria também determina que a assessoria do MPF elabore um mapeamento detalhado dos territórios indígenas e comunidades tradicionais do Vale do Javari, com informações sobre os povos que os habitam, denúncias já registradas e os órgãos responsáveis pela fiscalização — entre eles, Funai, Ibama, Polícia Federal, ICMBio, Força Nacional e Polícia Militar Ambiental.

O procedimento será acompanhado pelo 3º Ofício da Procuradoria da República no Amazonas, especializado em conflitos socioambientais e segurança territorial voltada à proteção de povos indígenas e comunidades tradicionais.

Vale do Javari

O Vale do Javari, localizado no extremo oeste do Amazonas, é uma das regiões mais sensíveis e isoladas do país, abrigando a maior concentração de povos indígenas em isolamento voluntário do mundo.

Leia mais: MPF investiga falta de água potável e saneamento em escolas indígenas do Vale do Javari

Com área superior a 8,5 milhões de hectares e fronteira com o Peru, o território enfrenta constantes ameaças de invasões, garimpo, pesca e caça ilegais, além de dificuldades logísticas para fiscalização, devido ao acesso predominantemente fluvial e à escassez de estrutura dos órgãos de controle.

A região ganhou destaque internacional após o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, em 2022, episódio que expôs as fragilidades da presença estatal na proteção dos povos e territórios indígenas.

Outro lado

O Convergente entrou em contato com a Fundação Nacional dos Indígenas (Funai) e o Ibama solicitou um posicionamento sobre a medida. Até a publicação, sem retorno.

Veja a nota da Funai na íntegra:

“A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) atua junto à comunidade indígena do Vale do Javari através de duas de suas unidades descentralizadas: a Coordenação Regional (CR) Vale do Javari e a Frente de Proteção Etnoambiental (FPE) Vale do Javari. A CR coordena e monitora a implementação de ações e a FPE executa políticas de localização e proteção de indígenas isolados e de recente contato.
Visto que a região tem a maior concentração confirmada de grupos indígenas em isolamento voluntário do mundo, o trabalho da frente de proteção faz-se de extrema importância na segurança dessas populações. Medidas como o processo seletivo simplificado para a FPE Vale do Javari visam justamente contornar dificuldades da instituição com a capacidade reduzida de pessoal nas frentes de proteção.
No mais, a Funai também pode, através de seu poder de polícia, acionar as forças de segurança quando necessário, bem como realizar articulações interinstitucionais para garantir a segurança pública na região.
A Funai reafirma seu compromisso com a proteção e a promoção dos direitos dos povos indígenas e continuará articulando esforços com suas instâncias internas, bem como com outras instituições para garantir a segurança e a proteção territorial na região do Vale do Javari.”

Confira o documento:

DIARIO MPF Vale do Javari

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