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sexta-feira, julho 12, 2024

“O cenário ainda está em formação”, diz especialista sobre estiagem severa no Amazonas

O Governo do Amazonas já estuda decretar estado de emergência devido à estiagem dos rios

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Desde o início do ano, o Governo do Amazonas tem alertado a sociedade sobre uma estiagem severa que deve atingir a bacia hidrográfica do Estado em 2024. Nesta quinta-feira (20), o governador Wilson Lima anunciou as ações que o governo adotará em resposta à seca, incluindo a possibilidade de decretar estado de emergência nas próximas semanas.

Como noticiado por O Convergente, o Governo do Amazonas afirmou que os impactos da estiagem já começarão a ser sentidos pela população a partir de julho. De acordo com dados dos sistemas de monitoramento, em 2024 o período de estiagem deve começar 30 dias antes do previsto.

Em coletiva de imprensa, o governador Wilson Lima afirmou que um decreto de estado de emergência deve entrar em vigor em 10 dias. “Como já baixou muito, o Solimões inclusive, está bem abaixo do mesmo período do ano passado, a gente já considera, a partir de julho, decretar essa situação de emergência para que possamos agilizar as ações. E da mesma forma, isso se repete nas calhas do Juruá e também do Purus”, explicou o governador.

Seca 2024

Para entender melhor o cenário da estiagem no Amazonas, O Convergente conversou com o especialista em bacia hidrográfica, professor Naziano Pantoja Filizola Jr., do Departamento de Geociências da UFAM. Ele afirmou que realizar uma previsão para a estiagem em 2024 ainda é “prematuro”, pois o cenário ainda está se formando.

“Afirmar que, por conta da cheia de 2024 ser fraca, a seca será forte, é um raciocínio inadequado. Não há lógica nisso. Se olharmos nos registros históricos dos níveis do Rio Negro em Manaus, veremos que em 1926 tivemos uma cheia muito fraca. Tão fraca que foi inferior à seca de 1975, por exemplo. Em 1926 também houve uma seca forte, mas não foi superior à de 1915, por exemplo, e nem foi indicativo de uma seca forte no ano seguinte”, explicou.

De acordo com o especialista, o sistema fluvial é complexo e a previsão não depende de condicionantes diretas. “Ele tem variáveis externas (clima, tectônica, atividades humanas e mudanças no nível de base, por exemplo) e internas (geologia, topografia, uso e conservação do solo, cobertura vegetal, etc.). Controlar todas essas variáveis é muito difícil”, disse.

Apesar disso, ele destacou que o monitoramento é importante no primeiro momento. O monitoramento ocorre no contexto de dois subsistemas: vertente e planície fluvial.

“O último é o mais significativo na grande planície amazônica, e o primeiro é mais importante no âmbito andino. Para direcionar o funcionamento desses dois subsistemas, as variáveis indicativas são a vazão dos rios e o transporte de sedimentos. Prevê-las é possível, mas não garante uma resposta 100% segura, especialmente para prever eventos extremos”, comentou.

Sinais Climáticos

O especialista em bacias hidrográficas ainda destacou que o atual cenário de estiagem é distinto do que ocorreu em 2023, por exemplo. Conforme explicou a O Convergente, as variáveis extremas, como os sinais climáticos, já estão funcionando de forma diferente do que no ano passado, quando foi registrada uma seca histórica.

“Além disso, os rios da margem direita do Rio Amazonas, incluindo seus formadores no Peru (que fluem do sul para o norte), têm manifestado uma tendência a uma seca extrema. E essa já se iniciou, uma vez que o pico de cheia desses rios já passou e normalmente ocorre entre fevereiro e abril. Aí já temos um cenário de seca forte configurado”, apontou.

Ao comentar sobre os rios da margem esquerda, o professor afirmou que eles ainda estão em fase de subida e ainda não atingiram sua cota máxima, como o Rio Negro, por exemplo.

“Neste caso, o cenário ainda está em formação. O nível do Rio Negro em Manaus, por exemplo, reflete o fluxo do Rio Solimões. Este último, por sua vez, ainda tem importantes contribuições a receber dos rios Napo (Peru e Equador), Içá e Japurá”, disse.

Essas contribuições podem ajudar a manter o fluxo do grande rio “dentro das condições que ocorrem em ao menos 50% do tempo de sua série histórica de dados”. De acordo com ele, as condições podem ajudar a manter um quantitativo de água relativamente seguro na calha principal, porém, o professor comentou que talvez “não seja o suficiente para os tributários da margem direita”, sendo ideal começar a se precaver.

Cenário em Formação

Ainda de acordo com o professor Naziano Pantoja Filizola, apesar do cenário já configurado, o Amazonas terá uma resposta mais clara sobre a estiagem em julho.

“Para o trecho de Manaus até a foz, temos que os rios Negro e Madeira contribuem, em média, cada um com cerca de 14% da vazão do Rio Amazonas. Com a redução dos fluxos do Madeira podendo chegar a menos de 5% de contribuição para o Amazonas neste ano”, disse.

O professor afirmou que, com isso, pode haver impacto em algumas atividades, como a navegação de grande porte. Entretanto, o especialista aponta que ainda pode haver uma reversão no cenário da estiagem no Amazonas.

“Ainda é possível haver uma reversão neste cenário a depender dos rios Negro, Nhamundá e Trombetas que seguem subindo e que juntos podem suprir parte da ausência das contribuições do Madeira. Como disse, no final de julho o cenário será mais claro”, afirmou.

Sendo assim, o especialista comentou a O Convergente que, para este ano, a realidade é esperar como os rios vão se comportar e, com isso, a sociedade pode compreender os eventos hidrológicos extremos na Amazônia e como eles têm funcionado em relação a respostas dos eventos climáticos.

“Há que se fazer algo de mais concreto e numa perspectiva de longo prazo. Esse é um trabalho que estamos realizando junto com parceiros nacionais (locais) e internacionais para que possamos trabalhar não só com uma única ferramenta (e.g. modelagem, ou análise estatística), mas com várias e numa perspectiva holística, inclusive contando com apoio dos ribeirinhos em várias calhas”, comentou.

O professor ainda reforçou que acredita que, deste modo, a sociedade será capaz de ‘sentir’ os rios da Amazônia. “O sistema fluvial é complexo, uma pequena parte se consegue ver e sentir com alguma facilidade, mas a maior parte não”, apontou.

Ações do Governo

O governador Wilson Lima vem se reunindo com ministros de Estado, como os dos ministérios de Portos e Aeroportos, de Integração e Desenvolvimento Regional, e de Meio Ambiente e Mudança do Clima, solicitando apoio na antecipação de ações, além de encontros com o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin.

Nesta semana, o Governo Federal atendeu ao pleito do governador do Amazonas e assinou a publicação de editais para a contratação das dragagens de trechos dos rios Amazonas e Solimões.

Serão investidos R$ 505 milhões em obras para recuperar a capacidade de navegação dos rios, essencial no transporte de pessoas e no escoamento de mercadorias. O edital prevê a contratação das dragagens em quatro trechos: Manaus-Itacoatiara; Coari-Codajás; Benjamin Constant-Tabatinga; Benjamin Constant-São Paulo de Olivença.

Leia mais: Estiagem: Governo do AM alerta que impactos da seca serão sentidos a partir de julho

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Por Camila Duarte

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