Suspensão de exportação do diesel russo vai elevar preço para importador brasileiro

Empresas devem se voltar para combustível americano, que é mais caro. Petrobras tende a ampliar suprimento doméstico para garantir suprimento

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Com o anúncio da Rússia de que vai suspender a exportação de diesel até o fim deste mês, os importadores brasileiros terão de se voltar para os Estados Unidos para atender a demanda, o que deve pressionar o preço do combustível no Brasil. Por outro lado, a Petrobras tende a ampliar sua fatia no abastecimento doméstico, para assegurar o suprimento.

Na última quarta-feira o governo russo informou que vetaria as vendas externas de diesel, após ataques da Ucrânia a refinarias essenciais para a produção do combustível. O Brasil é um dos maiores importadores do diesel produzido na Rússia.

De acordo com projeções da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a participação do diesel americano nas importações brasileiras pode saltar de cerca de 30% para quase 70%, preenchendo parte do espaço deixado pelo combustível russo.

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A Petrobras também deve ampliar sua participação no abastecimento do mercado. A estatal responde por cerca de 70% da demanda de diesel no país por meio da produção em suas refinarias, enquanto os 30% restantes são supridos por importações. Segundo estimativas do mercado, a companhia deverá responder por cerca de um terço das compras de diesel, sobretudo dos EUA, ao longo de julho .

Uma das consequências de se recorrer aos EUA para comprar combustível é que o diesel é mais caro. Os preços do diesel americano oscilam de acordo com a cotação do petróleo no mercado internacional. Como os EUA acabaram com o cessar-fogo no Irã, a tendência é que o valor do barril suba. Logo após o fim da trégua, a cotação chegou a saltar 8%. Hoje, voltou a subir.

Desconto para driblar sanções

Desde o início da guerra na Ucrânia, a Rússia ampliou sua participação no mercado brasileiro ao oferecer diesel com desconto em relação ao combustível produzido nos Estados Unidos, estratégia adotada para contornar as sanções internacionais e conquistar novos compradores.

Segundo o presidente da Abicom, Sérgio Araújo, o aumento da demanda interna na Rússia e a redução da capacidade de refino, após ataques da Ucrânia a refinarias russas, dificultaram a oferta de diesel do país no mercado internacional. Com isso, a expectativa da entidade é que o diesel russo represente menos de 20% das importações brasileiras já no mês de julho.

— O preço do diesel da Rússia é menor que o do Golfo dos Estados Unidos. Então, com essa descontinuidade da importação russa, vamos pagar mais caro pelo diesel importado. Isso vai se refletir no preço do produto, sem dúvida. Pelos navios já nomeados, julho está com o abastecimento garantido. Ainda é cedo para falar sobre agosto, mas não acredito que haverá risco de desabastecimento agora em julho, porque a Petrobras está importando muito — disse Araújo.

Diesel importado mais caro pode aumentar a pressão para um reajuste nos preços praticados pela Petrobras. O último aumento promovido pela estatal ocorreu em março, seguido por uma redução no início deste mês, quando os preços do petróleo estavam mais comportados, diante da expectativa do fim da guerra, o que acabou não se concretizando.

Defasagem de 50% no diesel da Petrobras

Dados da Abicom mostram que o preço do diesel vendido pela Petrobras está cerca de 50% abaixo da paridade de importação, referência que considera os custos de trazer o combustível do mercado internacional para o Brasil.

Pedro Rodrigues, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), também avalia que não há risco de desabastecimento.

— O Brasil consegue substituir o diesel russo por importações de outras origens. O impacto será principalmente sobre os preços, e não sobre o abastecimento — afirmou Rodrigues.

A Petrobras, que não importa diesel da Rússia, também reforçou suas compras no mercado internacional, principalmente de fornecedores americanos, segundo fontes do setor.

Aproveitando a recente queda dos preços do petróleo e o pagamento das subvenções do governo federal para mitigar os efeitos da guerra do Irã, a estatal voltou a comprar diesel no exterior pela primeira vez desde fevereiro.

Segundo estimativas do mercado, a empresa programou a importação de cerca de 400 mil metros cúbicos de diesel ao longo de julho, volume que deve representar pouco mais de 30% de todo o diesel importado pelo Brasil no mês.

Procurada, a Petrobras disse que define suas estratégias de importação a partir de um planejamento integrado que leva em conta questões como produção, refino e mercado nacional. A suspensão das exportações de diesel na Rússia por si só não altera o planejamento, diz a estatal.

Turquia e Brasil são principais compradores do diesel russo

Segundo Isaac Levi, líder da equipe de análise de política e energia Europa-Rússia do Centro de Pesquisa Energia e Ar Limpo (CREA, na sigla em inglês), a Rússia é o segundo maior exportador mundial de diesel. Entre as exportações russas do combustível, a Turquia é o principal destino, concentrando 39% das compras, seguida pelo Brasil, com 23%. Na sequência aparecem Marrocos, com 7%, e a Tunísia, com 3,8%.

De acordo com Levi, a Rússia se consolidou como uma importante fornecedora de diesel para o Brasil, respondendo por cerca de metade das importações brasileiras de diesel transportado por via marítima nos últimos 18 meses. Além da Rússia, os principais fornecedores do país incluem Estados Unidos, Índia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.

O especialista afirma que os impactos de uma eventual suspensão das exportações russas dependerão da duração das restrições. Se a medida for de curto prazo, os efeitos sobre o Brasil e o mercado global tendem a ser limitados, embora possam ocorrer desafios logísticos temporários e maior volatilidade nos preços.

Por outro lado, se as restrições se prolongarem, a reorganização das cadeias globais de suprimento exigirá mais tempo e poderá elevar os custos. Nesse cenário, segundo Levi, o aumento da concorrência pelo diesel de origem não russa pode apertar os mercados internacionais e fazer com que os custos de frete pressionem os preços do combustível, mesmo que não haja uma escassez física do produto.

Fonte: O Globo

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