Especialistas apontam “xenofobia linguística” após deboche de influenciadores com nomes amazônicos

Comentários sobre tacacá e tucupi durante evento do PL geram acusação de preconceito cultural

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O vídeo publicado por influenciadores ligados ao PL Jovem durante passagem por Manaus provocou reação entre internautas amazonenses e abriu debate sobre respeito à cultura regional, identidade amazônica e xenofobia linguística. O influenciador Wess Guimarães e a vereadora de Praia Grande, Eduarda Campopiano, foram criticados após ironizarem nomes de pratos típicos da culinária amazônica, como tacacá, tucupi e tambaqui, durante um jantar realizado na capital amazonense.

Nas imagens, os convidados fazem comentários sobre a sonoridade das palavras utilizadas na gastronomia regional. Em um dos trechos, Wess afirma que o “amazonense tem preguiça de botar nome nas comidas”. Já Eduarda comenta, em tom de deboche, que os nomes parecem resultado de alguém “batendo a cabeça no teclado”.

A repercussão negativa nas redes sociais deslocou o foco político do encontro, organizado para aproximar jovens conservadores do Amazonas. Em vez do debate partidário, o episódio passou a ser interpretado por muitos amazonenses como desrespeito à cultura local, especialmente por atingir símbolos ligados à identidade regional.

Mais do que alimentos tradicionais, termos como tacacá e tucupi carregam referências históricas e linguísticas associadas aos povos indígenas da Amazônia. O tacacá, por exemplo, possui origem ligada ao nheengatu, língua geral de base tupi historicamente falada na região. Já o tucupi, extraído da mandioca brava, representa conhecimentos tradicionais indígenas sobre preparo alimentar e segurança no consumo da mandioca.

Desvalorização simbólica da cultura amazônica

Para o doutor em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista em Análise de Discurso, Sérgio Freire, o episódio ultrapassa a ideia de “brincadeira”.

“Os nomes tacacá, tucupi, tambaqui não foram inventados à toa. São palavras de origem tupi, a língua dos povos que vivem nesta região há séculos. Nomear um alimento, em qualquer cultura, é um ato carregado de história”, afirmou.

Segundo ele, transformar essas palavras em motivo de piada produz um efeito simbólico de desvalorização cultural.

“Quando o influenciador transforma ‘tacacá’ em ‘tacataca’ como piada, não está só achando graça do som. Está dizendo, mesmo sem perceber, que aquela palavra não tem valor. Que ela soa estranha porque não faz parte do mundo dele e, portanto, não merece ser levada a sério”, analisou.

Freire também chamou atenção para o impacto político da situação, especialmente pelo contexto em que ocorreu. O vídeo foi gravado durante agenda política do PL Jovem em Manaus, evento que contou com lideranças partidárias.

“O partido veio a Manaus buscar apoio e, no mesmo fim de semana, dois dos convidados aparecem rindo da comida local. Isso cria uma contradição que qualquer eleitor percebe: você vem pedir meu voto e ri da minha mesa?”, observou.

Até o momento, os envolvidos não haviam se pronunciado publicamente sobre as críticas. Para o especialista, o silêncio pode ampliar o desgaste político. “As redes sociais interpretam a ausência de resposta como confirmação. O dano não é só para os influenciadores. Qualquer político que esteve no evento e ficou quieto também sai arranhado”, disse.

Reforço de estereótipos históricos sobre a Amazônia

A pesquisadora do Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) e articulista do O Convergente, Kátia Lima, avalia que episódios como esse representam desrespeito direto à cultura amazônica e reforçam preconceitos históricos contra a região.

Segundo Katia, a gastronomia é uma expressão viva da identidade cultural dos povos amazônicos e os nomes dos pratos típicos carregam heranças indígenas e conhecimentos ancestrais.

“Quando figuras públicas ridicularizam elementos da culinária regional, especialmente através de vídeos que circulam nas redes sociais, isso se configura em total desrespeito à cultura local. Os nomes dos pratos amazônicos carregam um profundo significado cultural que deve ser valorizado e respeitado”, afirmou.

Para ela, o deboche acaba funcionando como uma forma de menosprezo cultural, principalmente em uma região historicamente marginalizada nas narrativas nacionais. “Quando alguém ri dos nomes sem reconhecer sua origem ou importância, está implicitamente comunicando que aquela cultura é estranha, inferior ou digna de ridicularização”, destacou.

A pesquisadora também apontou que o episódio possui impactos políticos relevantes, sobretudo porque envolve figuras públicas em agenda partidária.

“Espera-se que pessoas públicas que visitam uma região tenham responsabilidade institucional de demonstrar respeito. Quando isso não acontece, a sociedade reage e condena publicamente os responsáveis”, analisou.

Katia Lima afirmou ainda que situações desse tipo reforçam estereótipos antigos sobre a Amazônia, frequentemente retratada de maneira “exótica” no imaginário nacional.

“O episódio valida a ideia de que a Amazônia é estranha, digna de curiosidade superficial, mas não de respeito genuíno. Isso reforça uma hierarquia simbólica em que o Norte aparece como periférico e folclórico”, explicou.

Apesar da repercussão negativa, ela considera que o caso pode abrir espaço para um debate mais amplo sobre valorização cultural e respeito às identidades amazônicas.

“Paradoxalmente, episódios negativos como esse podem servir para fomentar discussões importantes sobre preconceito cultural, responsabilidade pública e valorização da Amazônia”, concluiu.

O que diz o PL-AM?

Com a repercussão do episódio, O Convergente entrou em contato com o Partido Liberal no Amazonas, para buscar um posicionamento do diretório estadual sobre o ocorrido. Até a publicação desta matéria, não houve retorno das partes.

Leia mais: PL prepara evento para lançar pré-candidaturas de Maria do Carmo e Alberto Neto

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