Amazonas supera média nacional de inadimplência e avanço das dívidas preocupa especialistas

Mais de 1,8 milhão de amazonenses estão inadimplentes; economista, Serasa e Procon-AM alertam para crescimento do superendividamento no estado

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O Amazonas enfrenta um cenário preocupante de inadimplência em 2026. Dados da Serasa apontam que 1,8 milhão de consumidores no estado possuem dívidas em atraso. Em Manaus, o número já chega a 1,2 milhão de inadimplentes.

Com isso, o Amazonas aparece entre os estados com maior percentual de endividados do país. Atualmente, 60,5% da população amazonense possui algum tipo de restrição financeira, índice superior à média nacional, estimada em 50,81%.

Especialistas afirmam que o avanço do endividamento reflete uma combinação de fatores econômicos, sociais e estruturais. Inflação elevada, juros altos, aumento do custo de vida e uso excessivo do crédito têm pressionado principalmente famílias de baixa renda.

Além disso, órgãos de defesa do consumidor alertam para o crescimento dos casos de superendividamento em Manaus.

Crédito passou a sustentar despesas do dia a dia

A economista e professora da Universidade Federal do Amazonas, Dra. Michele Aracaty, explica que muitas famílias passaram a utilizar o cartão de crédito para cobrir gastos essenciais.

Dra. Michele Aracaty – Economista, Pós-doutora em Desenvolvimento Regional, Docente do Departamento de Economia da UFAM

Segundo ela, o fenômeno revela uma deterioração da capacidade financeira da população.

“O cartão de crédito é visto como uma extensão da renda, mas isso cria uma falsa sensação de estabilidade financeira. O consumidor entra em modalidades com juros extremamente elevados”, afirmou.

Entre os fatores que mais impactam o orçamento das famílias amazonenses estão inflação, renda média baixa, aumento no preço dos alimentos, despesas básicas elevadas e o chamado “custo amazônico”, relacionado às dificuldades logísticas da região.

A especialista também cita o crescimento das apostas online como um elemento que vem agravando situações de vulnerabilidade financeira.

Bancos e cartões concentram maior parte das dívidas

Segundo levantamento da Serasa, as dívidas com bancos e cartões de crédito representam 25,13% dos débitos registrados no Amazonas.

Na sequência aparecem dívidas do varejo, empréstimos financeiros e contas básicas, como água, energia elétrica e internet.

Para a especialista em educação financeira da Serasa, Aline Vieira, a inadimplência deve ser analisada dentro de um contexto macroeconômico.

Aline Vieira – Especialista em educação financeira da Serasa

“Juros altos, inflação, aumento do custo de vida e falta de educação financeira contribuem diretamente para esse cenário”, destacou.

O Procon-AM também aponta preocupação com o crescimento das modalidades de crédito rotativo, especialmente cartão de crédito, cheque especial e empréstimo pessoal.

Segundo o órgão, essas linhas possuem taxas elevadas e aceleram o comprometimento da renda das famílias.

Manaus registra crescimento do superendividamento

O Procon-AM afirma que Manaus está entre as capitais brasileiras com maiores índices de superendividamento.

Desde 2021, o órgão ampliou o acompanhamento de consumidores endividados por meio do Núcleo de Apoio aos Superendividados (NAS).

Segundo o instituto, muitos consumidores chegam ao órgão já sem condições de manter despesas básicas como alimentação, moradia e saúde.

“O comprometimento excessivo da renda afeta diretamente a subsistência do cidadão”, informou o Procon-AM.

O órgão também alerta para práticas consideradas abusivas durante renegociações de dívidas, como juros acima da média de mercado e inclusão de seguros sem autorização clara do consumidor.

Mulheres lideram entre inadimplentes

Os dados mostram ainda um perfil predominante entre os consumidores negativados no Amazonas.

Segundo Michele Aracaty, mulheres jovens, chefes de família e trabalhadoras informais estão entre os grupos mais afetados pelo endividamento.

A Serasa confirma que as mulheres representam 52,1% dos inadimplentes no estado.

No Amazonas, as mulheres representam a maior fatia entre os inadimplentes, registrando 52,1% do total do estado

Já a faixa etária entre 41 e 60 anos concentra o maior percentual de negativados, com 35,5%.

Especialistas apontam que o aumento das responsabilidades financeiras dentro das famílias e a instabilidade de renda ajudam a explicar o cenário.

Consumidor desconhece direitos

Outro fator que preocupa especialistas é a falta de informação sobre direitos relacionados ao superendividamento.

De acordo com o Procon-AM, muitos consumidores aceitam renegociações desvantajosas por desconhecerem mecanismos previstos na Lei do Superendividamento.

Segundo o órgão, isso contribui para prolongar as dívidas e agravar problemas emocionais como ansiedade, estresse e depressão.

Antes de fechar qualquer acordo, o Procon-AM orienta que consumidores solicitem cópia do contrato original e planilhas detalhadas da evolução da dívida.

A medida permite identificar juros abusivos, encargos, taxas administrativas e cobranças indevidas.

Busca por renegociação cresce

O aumento da inadimplência também impulsionou a procura por renegociação financeira.

Dados da Serasa mostram que os acordos fechados pelo programa Serasa Limpa Nome cresceram 9,87% entre abril de 2025 e abril de 2026.

No período, o número de negociações saltou de 3,69 milhões para mais de 4,06 milhões em todo o país.

Especialistas alertam, porém, que renegociar sem reorganização financeira pode apenas adiar o problema.

Educação financeira é apontada como caminho

Entre as principais orientações para evitar o superendividamento estão controle de gastos, planejamento financeiro e uso consciente do crédito.

Especialistas recomendam que consumidores organizem despesas, evitem parcelamentos incompatíveis com a renda e mantenham acompanhamento constante do orçamento familiar.

O Procon-AM também defende a ampliação de ações de educação financeira nas escolas e campanhas permanentes de orientação à população.

Segundo o órgão, enfrentar o superendividamento exige não apenas renegociar dívidas, mas recuperar a estabilidade financeira e a dignidade do consumidor.

Cenário exige políticas públicas e planejamento

O avanço da inadimplência no Amazonas reflete um ambiente econômico desafiador e reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à educação financeira e proteção do consumidor.

Enquanto o custo de vida continua pressionando o orçamento das famílias, especialistas alertam que o uso descontrolado do crédito pode aprofundar ainda mais os índices de superendividamento no estado.

*Com informações do Portal Manaós

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