Por Erica Lima Barbosa Aguiar
A eleição presidencial de 2026 ainda não começou oficialmente, mas o Brasil já vive uma pré-campanha intensa, marcada por polarização, rejeição alta e disputa ideológica. Levantamentos nacionais publicados desde janeiro mostram um cenário dividido: Lula aparece competitivo e lidera parte dos cenários de primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro cresce como principal nome da direita bolsonarista e já aparece numericamente à frente do presidente em algumas simulações de segundo turno.
A fotografia de maio revela uma disputa menos racional e mais emocional. O eleitor brasileiro parece entrar novamente em uma eleição movida por identidade, medo, memória, rejeição e pertencimento político. Não se trata apenas de escolher um programa de governo. Trata-se de escolher um lado.
O que dizem as pesquisas nacionais
Entre os principais institutos que divulgaram levantamentos nacionais desde 1º de janeiro de 2026 estão Quaest, Datafolha, AtlasIntel, Real Time Big Data, Meio/Ideia, Futura/Apex, CNT/MDA, Nexus/BTG e Paraná Pesquisas. Os dados variam conforme metodologia, amostra, cenário testado e nomes incluídos, mas apontam uma tendência comum: Lula e Flávio Bolsonaro concentram a disputa mais provável, enquanto nomes como Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Tarcísio de Freitas, Ciro Gomes, Michelle Bolsonaro, Fernando Haddad e Renan Santos aparecem como alternativas ou personagens estratégicos em cenários específicos.
Na pesquisa Real Time Big Data, realizada de 2 a 4 de maio de 2026, Lula aparece à frente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, com 40% contra 34% em um cenário; em outro, Lula marca 38% e Flávio 33%. No segundo turno, o levantamento mostra empate técnico, com Flávio numericamente à frente: 44% contra 43%. A pesquisa ouviu 2 mil pessoas, tem margem de erro de 2 pontos percentuais e registro no TSE sob o código BR-03627/2026.
Já a pesquisa Futura/Apex, divulgada em 11 de maio, mostra um dado politicamente forte: Flávio Bolsonaro aparece com 46,9% em um eventual segundo turno contra Lula, que registra 44,4%. O levantamento, realizado de 4 a 8 de maio com 2 mil entrevistados, tem margem de erro de 2,2 pontos percentuais e registro no TSE sob o código BR-03678/2026.
A mesma pesquisa Futura/Apex informa que Lula aparece numericamente à frente nos cenários de primeiro turno testados, mas com diferença pequena em relação a Flávio. Ou seja: Lula ainda conserva força de largada, mas a direita bolsonarista mostra competitividade real no segundo turno.
Rejeição: o maior obstáculo dos favoritos
O maior problema dos dois nomes mais fortes é a rejeição. A eleição de 2026 pode ser decidida não apenas por quem o eleitor deseja eleger, mas por quem ele deseja impedir.
Na Futura/Apex, Lula aparece com 47,4% de rejeição, enquanto Flávio Bolsonaro tem 43,8%. Fernando Haddad surge como o terceiro mais rejeitado, com 31,9%.
A pesquisa Meio/Ideia, realizada de 1º a 5 de maio, também mostra Lula liderando a rejeição: 44,8% dos eleitores disseram que não votariam nele de jeito nenhum. Flávio aparece com 38%. O levantamento ouviu 1.500 pessoas, tem margem de erro de 2,5 pontos percentuais e foi registrado no TSE sob o número BR-05356/2026.
Esse dado é central. Lula e Flávio não são apenas os nomes mais competitivos: são também os que mais mobilizam resistência. Isso cria uma campanha com alto potencial de radicalização emocional, em que o voto pode ser definido mais pela rejeição ao adversário do que pela adesão plena a um projeto.
Quem estaria na frente se a eleição fosse hoje?
Com base no conjunto das pesquisas publicadas até maio, não há um vencedor seguro hoje. O cenário mais honesto é dizer que Lula e Flávio Bolsonaro estão em disputa direta, com vantagem variável conforme o instituto e o modelo de pergunta.
No primeiro turno, Lula tende a aparecer melhor posicionado, principalmente por ser presidente, ter recall nacional, controlar a máquina federal e conservar base consolidada no campo progressista. No segundo turno, porém, Flávio Bolsonaro aparece empatado tecnicamente ou numericamente à frente em parte dos levantamentos mais recentes.
A leitura jornalística dos dados é esta: Lula ainda é o nome mais forte da esquerda e entra como personagem central da eleição; Flávio Bolsonaro consolidou-se como o principal herdeiro eleitoral do bolsonarismo; e o segundo turno, se fosse hoje, estaria aberto.
O peso da eleição de 2022
A eleição de 2022 ajuda a entender por que 2026 começa tão acirrada. No segundo turno, Lula venceu Jair Bolsonaro por uma diferença pequena: com 98,91% das urnas apuradas, o TSE informou que Lula tinha 59.563.912 votos, ou 50,83% dos votos válidos, contra 57.675.427 votos, ou 49,17%, de Bolsonaro. A abstenção chegou a 20,90%.
Foi uma eleição decidida por margem estreita em um país dividido quase ao meio. Esse dado explica por que a disputa de 2026 não começa do zero. Ela começa sobre uma ferida política ainda aberta.
O ex-presidente Jair Bolsonaro, porém, não aparece como candidato viável juridicamente neste momento. Em junho de 2023, o TSE declarou Bolsonaro inelegível por oito anos, contados a partir das eleições de 2022, por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação em reunião com embaixadores. A decisão foi por 5 votos a 2.
Com Bolsonaro fora da urna, o bolsonarismo passou a buscar um herdeiro. Flávio Bolsonaro, senador pelo PL, surge como o nome mais diretamente associado ao espólio político do pai. Michelle Bolsonaro preserva força simbólica junto ao eleitorado conservador e religioso. Tarcísio de Freitas aparece como alternativa mais administrativa e menos familiar. Romeu Zema e Ronaldo Caiado tentam ocupar o espaço da direita liberal, conservadora e antipetista, mas ainda enfrentam menor nacionalização.
Quem são os principais nomes
Nome Partido Campo político O que representa
Lula PT esquerda / centro-esquerda Estado forte, programas sociais, defesa da democracia, sindicalismo histórico, política externa Sul-Sul
Flávio Bolsonaro PL direita bolsonarista conservadorismo, segurança pública, antipetismo, defesa do legado de Jair Bolsonaro
Michelle Bolsonaro PL direita conservadora religiosa pauta de valores, evangélicos, família, bolsonarismo com apelo feminino
Tarcísio de Freitas Republicanos direita pragmática / liberal-conservadora gestão, infraestrutura, segurança, perfil técnico e empresarial
Romeu Zema Novo direita liberal Estado menor, privatizações, ajuste fiscal, discurso antipolítica tradicional
Ronaldo Caiado PSD direita conservadora agronegócio, segurança pública, experiência administrativa
Ciro Gomes PSDB centro / centro-esquerda nacional-desenvolvimentista crítica ao lulismo e ao bolsonarismo, projeto econômico nacional
Fernando Haddad PT esquerda / centro-esquerda continuidade técnica do governo Lula, política fiscal, educação e gestão
Renan Santos Missão direita liberal / antipetista renovação liberal, crítica ao sistema político tradicional
As principais divergências
A disputa de 2026 tende a se organizar em torno de cinco grandes eixos.
O primeiro é a economia. Lula deve defender crescimento com programas sociais, valorização do salário mínimo, investimento público e combate à fome. A direita tende a explorar inflação, custo de vida, impostos, déficit fiscal e eficiência do Estado.
O segundo é a segurança pública. Flávio, Tarcísio, Caiado e setores do bolsonarismo devem apostar em discurso de endurecimento penal, combate ao crime organizado e fortalecimento das polícias. Lula tenta responder com políticas nacionais de segurança, mas enfrenta um tema no qual a direita costuma ter maior apelo emocional.
O terceiro é a pauta de costumes. Michelle e Flávio tendem a mobilizar família, religião, aborto, drogas, educação e liberdade religiosa. Lula tentará evitar que a campanha seja capturada apenas por costumes e deve buscar o debate sobre renda, emprego e democracia.
O quarto é a democracia e as instituições. A esquerda deve lembrar os ataques ao sistema eleitoral, os atos golpistas e a inelegibilidade de Bolsonaro. A direita deve falar em perseguição judicial, liberdade de expressão e equilíbrio entre os Poderes.
O quinto é a memória emocional de 2022. Para uma parte do eleitorado, Lula representa a volta da estabilidade democrática. Para outra, representa o retorno do PT e de tudo que rejeitam. Para uma parte do eleitorado, Flávio representa continuidade do bolsonarismo. Para outra, representa risco de repetição da tensão institucional.
A campanha como narrativa: Maquiavel, Napoleão e o eleitor emocional
Maquiavel ensinou, em O Príncipe, que o poder não se sustenta apenas pela virtude moral, mas pela capacidade de compreender a realidade, administrar percepções e agir conforme a conjuntura. Em uma eleição polarizada, isso significa que não basta ter proposta: é preciso controlar a narrativa.
Napoleão Bonaparte compreendia o poder simbólico da imagem. Ele sabia que batalhas são vencidas também no imaginário. Na política contemporânea, a campanha não ocorre apenas no palanque: ela acontece no celular, no corte de vídeo, no meme, na frase de impacto, na indignação organizada e no medo compartilhado.
O filósofo Zygmunt Bauman descreveu a modernidade líquida como um tempo de insegurança, vínculos frágeis e medo difuso. Esse medo é combustível eleitoral. O eleitor não vota apenas no que deseja; muitas vezes vota contra aquilo que teme.
Byung-Chul Han ajuda a entender outro ponto: a política virou disputa de atenção. Em uma sociedade exausta, acelerada e digital, quem captura emoção captura poder. Não vence apenas quem apresenta o plano mais técnico, mas quem consegue transformar sua mensagem em sensação de urgência.
Hannah Arendt, ao refletir sobre verdade e política, lembra que a manipulação dos fatos corrói o espaço público. Esse é o perigo central de 2026: quando o eleitor deixa de discutir realidade e passa a defender apenas identidade, a democracia vira torcida.
O que muda em relação a 2022?
A primeira mudança é que Jair Bolsonaro não está, hoje, na mesma posição jurídica de 2022. Ele segue influente, mas não é o candidato natural na urna. Isso obriga a direita a transferir votos, afeto e autoridade para outro nome.
A segunda mudança é que Lula agora não é oposição; é governo. Em 2022, ele disputava contra a gestão Bolsonaro. Em 2026, ele terá de defender o próprio governo, responder sobre economia, segurança, saúde, educação, inflação e desgaste do poder.
A terceira mudança é que o eleitor está ainda mais digitalizado. Redes sociais, influenciadores, inteligência artificial, cortes de vídeo, fake news e campanhas segmentadas devem ter peso decisivo. A eleição será nacional, mas a comunicação será personalizada.
A quarta mudança é que o centro político está mais espremido. Nomes moderados podem até ser decisivos em alianças, mas a disputa emocional tende a favorecer quem representa polos claros.
Retrato final
Se a eleição fosse hoje, Lula provavelmente largaria melhor no primeiro turno, mas não teria vitória garantida no segundo. Flávio Bolsonaro aparece como o adversário mais competitivo dentro do campo bolsonarista neste momento, especialmente por herdar a identidade política do pai e por já aparecer empatado ou numericamente à frente em pesquisas recentes.
A eleição de 2026 será mais do que uma disputa entre candidatos. Será uma batalha entre memórias, medos, ideologias e narrativas. O eleitor brasileiro será chamado a decidir se vota pela continuidade, pela mudança, pela rejeição, pela esperança ou pela raiva.
E a pergunta que fica é incômoda: em 2026, o Brasil vai escolher um projeto de país ou apenas confirmar de que lado da trincheira emocional decidiu ficar?


