FAKE NEWS TAMBÉM ADOECEM: desinformação ameaça vacinação e abre caminho para doenças que o Brasil já havia controlado

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Mentiras sobre segurança das vacinas aumentam a desconfiança de famílias e podem deixar crianças vulneráveis. Sarampo voltou a provocar surto em 2026, enquanto poliomielite permanece sob risco de reintrodução.

Uma mensagem falsa compartilhada no celular pode parecer inofensiva. Quando o assunto é vacinação infantil, porém, a desinformação pode terminar com crianças desprotegidas e doenças que o Brasil levou décadas para controlar novamente circulando.

O Ministério da Saúde mantém uma estratégia específica de enfrentamento à desinformação em saúde e vem desmentindo conteúdos que relacionam, sem evidência científica, vacinas infantis a autismo, mortes e outras condições. Em 2026, a plataforma oficial Saúde com Ciência continuou publicando alertas contra informações falsas envolvendo imunizantes.

A preocupação não é apenas digital. A queda da vacinação tem consequências epidemiológicas reais.

O próprio Ministério da Saúde reconhece que períodos de baixa cobertura contribuíram para criar condições para a reintrodução do sarampo em 2018 e mantêm elevado o risco de reintrodução da poliomielite. Para a maior parte das vacinas, a referência de cobertura utilizada pelo programa é de 95%.

Sarampo: uma doença eliminada que voltou a encontrar pessoas desprotegidas

O caso do sarampo mostra o tamanho do risco.

O Brasil havia recebido, em 2016, a certificação de eliminação da circulação do vírus. Em 2018, porém, a doença voltou a circular em um cenário associado ao fluxo migratório e à redução das coberturas vacinais. Entre 2018 e 2022, mais de 39 mil casos de sarampo foram registrados no país.

O país recuperou, em novembro de 2024, a certificação de eliminação da circulação endêmica. Isso, entretanto, não significa que o vírus deixou de representar ameaça.

Em 2025, foram confirmados 38 casos. Um surto no Tocantins respondeu por 25 deles. Segundo o Ministério da Saúde, 22 dos 25 casos ocorreram em uma comunidade com baixa cobertura vacinal e essas pessoas não possuíam registro de vacinação contra o sarampo.

E o alerta chegou a 2026.

Dados divulgados pelo Ministério da Saúde em julho apontavam 14 casos confirmados de sarampo no Brasil, incluindo um surto ativo com 11 registros em São Paulo e São Bernardo do Campo. A cobertura nacional de 2025 havia alcançado 92,9% na primeira dose da tríplice viral, mas apenas 78,3% na segunda dose. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Coqueluche: mais de 7 mil casos em um ano

Outra doença imunoprevenível voltou a chamar atenção.

Em 2024, o Brasil registrou 7.440 casos confirmados de coqueluche, o maior número em uma década. O Ministério da Saúde aponta, entre os fatores relacionados ao aumento, a característica cíclica da doença, a retomada das interações sociais após a pandemia e a diminuição das coberturas vacinais observada entre 2016 e 2021.

A doença é particularmente perigosa para bebês. A maior letalidade ocorre entre crianças menores de um ano, principalmente abaixo dos seis meses de idade.

Poliomielite: o Brasil não pode permitir que a paralisia infantil volte

A poliomielite é outro exemplo de doença que desapareceu da rotina de milhões de brasileiros graças à vacinação.

Mas desaparecer da memória coletiva pode gerar uma falsa sensação de segurança.

Segundo o Ministério da Saúde, a cobertura contra a poliomielite apresentou resultados abaixo da meta de 95% desde 2016. A doença pode provocar sequelas motoras e paralisia, sem tratamento capaz de reverter as lesões provocadas pelo poliovírus. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Por isso, o desafio não é esperar a doença voltar para então correr em busca da vacina. É manter crianças protegidas enquanto o vírus não circula.

O paradoxo da vacina

Existe um paradoxo importante na imunização: quanto mais bem-sucedida uma vacina é, menos a população vê a doença que ela combate.

As novas gerações não convivem com enfermarias cheias de crianças com poliomielite nem testemunham com frequência as complicações do sarampo. Isso pode fazer com que o risco da doença pareça distante, enquanto conteúdos falsos sobre supostos efeitos da vacina ganham força nas redes sociais.

O Ministério da Saúde lembra que doenças evitáveis por vacinação, como sarampo, caxumba e rubéola, podem provocar complicações graves, incluindo pneumonia, encefalite, cegueira e até morte. Crianças não vacinadas permanecem desnecessariamente vulneráveis. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Brasil reage e vacinação infantil volta a crescer

Apesar do alerta, há uma mudança positiva em curso.

Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Unicef e apresentados pelo Ministério da Saúde mostram que o Brasil reduziu de 360 mil, em 2023, para 50 mil, em 2025, o número estimado de crianças “zero dose”, aquelas que não receberam sequer a primeira dose da vacina com componente DTP.

A redução foi de quase 90% em dois anos e retirou o Brasil da lista dos 20 países com maior número de crianças nessa situação.

O avanço, porém, não permite relaxamento. No mundo, 13,5 milhões de crianças permaneceram sem a primeira dose contendo DTP em 2025 e outros 7,3 milhões começaram, mas não completaram o esquema recomendado. No mesmo período, 57 países registraram grandes surtos de sarampo.

Pais precisam olhar a caderneta, não as correntes das redes sociais

O Calendário Nacional de Vacinação protege as crianças desde o nascimento.

Entre as vacinas previstas estão BCG e hepatite B ao nascer; pentavalente, poliomielite, pneumocócica e rotavírus nos primeiros meses de vida, além dos demais imunizantes previstos para cada faixa etária. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

O Ministério da Saúde orienta que, quando houver doses atrasadas, pais ou responsáveis procurem uma unidade de saúde para atualização da vacinação. Os imunizantes do Programa Nacional de Imunizações são disponibilizados gratuitamente pelo SUS.

Manaus estabelece meta de 95%

Na capital amazonense, a vacinação infantil também permanece como prioridade de saúde pública.

A Programação Anual de Saúde de Manaus para 2026 estabelece, por exemplo, a meta de atingir 95% de cobertura para a vacinação pneumocócica em crianças menores de um ano. Entre as estratégias previstas estão abastecimento das salas de vacina, ações específicas para imunizantes com estoque restrito e ampliação da vacinação para unidades de saúde sem sala própria, conforme cronograma dos Distritos de Saúde.

A recomendação para as famílias é simples: verificar a caderneta da criança e procurar uma Unidade Básica de Saúde sempre que houver dúvida ou vacina atrasada.

O calendário atualizado pode ser consultado no portal oficial de vacinação do Ministério da Saúde⁠.

O Brasil venceu doenças com ciência e vacinação. Agora enfrenta outro inimigo: a mentira que faz famílias terem medo justamente daquilo que protege seus filhos.

Uma criança não vacinada não representa apenas uma estatística individual. Quando muitas crianças ficam suscetíveis, surgem bolsões capazes de sustentar cadeias de transmissão e permitir que doenças controladas encontrem novamente espaço para circular.
Antes de compartilhar, verifique. Antes de adiar, vacine.

Pais e responsáveis devem desconfiar de conteúdos alarmistas recebidos por WhatsApp, Instagram, TikTok ou outras redes sociais, principalmente quando não apresentam fonte científica ou atribuem às vacinas consequências extraordinárias sem evidências.

Informação falsa também pode produzir consequências reais.

Confira a caderneta, procure o SUS e, diante de uma informação duvidosa sobre imunização, consulte fontes oficiais.

Vacina protege. Informação correta também.

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