A coligação do candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad (PT) pediu nesta quinta-feira (13) que o Ministério Público Eleitoral (MPE) investigue a atuação de policiais militares que teriam acompanhado de forma ostensiva o carro usado pelo petista e, posteriormente, seguido seu motorista por cerca de 40 minutos na capital paulista.
O episódio ocorreu na noite de terça-feira (11), dois dias depois do primeiro debate televisionado entre Haddad e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), realizado pela Band no domingo (9). Não há, até o momento, evidências de que a ação policial tenha sido determinada pelo governador ou tenha relação com o confronto eleitoral.
A sucessão dos acontecimentos, no entanto, levou a campanha de Haddad a pedir uma investigação sobre eventual abuso de poder político e de autoridade. A coligação quer saber quem eram os policiais envolvidos, qual era a missão da equipe e se houve alguma determinação superior para que a viatura permanecesse na região.
Motorista relata acompanhamento por cerca de 40 minutos
Segundo Haddad, o episódio começou por volta das 22h30, quando ele retornava de uma aula magna na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e chegava à residência, no Planalto Paulista, zona sul da capital.
O candidato afirmou que percebeu uma viatura da Polícia Militar nas proximidades. De acordo com seu relato, os policiais direcionaram uma luz para dentro do veículo no momento em que ele desembarcava, mas não solicitaram documentos nem realizaram uma abordagem formal.
Haddad disse inicialmente ter considerado que se tratava apenas de uma ronda policial. A situação ganhou outra dimensão quando, na manhã seguinte, seu motorista relatou que havia sido seguido após deixar o candidato em casa.
Segundo a campanha, a viatura teria alternado momentos em que emparelhava com o veículo e outros em que se aproximava do para-choque traseiro. O acompanhamento teria durado aproximadamente 40 minutos.
O motorista decidiu parar em um hotel próximo à avenida 23 de Maio, na Vila Mariana, para tentar entender o motivo da movimentação. Conforme relato do advogado da campanha, Hélio Silveira, o funcionário teria procurado os policiais e ouvido apenas: “Vaza daqui”. Depois disso, a viatura seguiu outro caminho.
Haddad afirmou ainda que o motorista ficou abalado e relatou ter visto policiais com fuzis dentro da viatura.
Imagens mostram viatura na rua de Haddad
Imagens de uma câmera de segurança obtidas pelo UOL mostram uma viatura da Polícia Militar passando pela rua onde Haddad mora momentos antes da chegada do veículo que transportava o candidato.
Na gravação, o automóvel de Haddad estaciona e o petista desembarca. O motorista também aparece fora do veículo.
As imagens, porém, não comprovam por si só todo o acompanhamento de aproximadamente 40 minutos relatado pelo motorista. Essa parte do episódio permanece baseada nos relatos apresentados por Haddad e por integrantes de sua campanha e deverá ser esclarecida na investigação.
Coligação leva caso ao Ministério Público Eleitoral
Nesta quinta-feira, os partidos da coligação de Haddad encaminharam manifestação à Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo e solicitaram a abertura de um procedimento preparatório.
A campanha afirma que é necessário verificar se houve tentativa de constranger um candidato de oposição por meio da utilização de agentes e recursos públicos.
Entre as providências solicitadas estão a identificação da viatura e dos policiais envolvidos, a verificação das ordens de serviço daquela noite e a apuração de eventual determinação para monitoramento no local. A coligação também quer saber quem teria determinado a diligência e qual seria sua finalidade institucional.
O grupo ainda pediu medidas para garantir a segurança de Haddad durante o período eleitoral.
Caso uma investigação encontre elementos de ilícito eleitoral, o procedimento pode dar origem posteriormente a uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE). Eventuais consequências eleitorais dependeriam, contudo, da comprovação de irregularidades e de decisões da Justiça Eleitoral.
Governo Tarcísio determina investigação
O governo de São Paulo informou que determinou a identificação das equipes da Polícia Militar que estavam ou passaram pela região no período relatado.
Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), o secretário Osvaldo Nico Gonçalves entrou em contato com Haddad, a pedido de Tarcísio, para obter informações sobre o trajeto e as circunstâncias do episódio.
A pasta afirmou que qualquer eventual desvio de conduta será investigado.
Uma versão preliminar obtida pelo UOL com fontes da Segurança Pública indica que policiais participavam de uma operação no bairro naquela noite e teriam desconfiado de um veículo parado em frente a uma residência. Segundo essas fontes, a atuação não teria relação com o fato de o imóvel pertencer a Haddad.
Essa versão ainda deverá ser confrontada com os registros das viaturas e com os relatos apresentados pela campanha.
Episódio ocorre dias após embate entre Haddad e Tarcísio
A ocorrência ganhou repercussão política também por acontecer dois dias após Haddad e Tarcísio protagonizarem o primeiro debate televisionado da disputa pelo governo de São Paulo, promovido pela Band no domingo.
O encontro teve fortes embates sobre segurança pública, educação, privatizações, saúde e temas nacionais. Haddad criticou aspectos da gestão estadual, enquanto Tarcísio rebateu com críticas ao governo federal e defendeu resultados de sua administração.
A proximidade temporal entre os dois episódios, contudo, não permite estabelecer relação entre o debate e a atuação dos policiais.
O próprio Haddad adotou cautela ao comentar o caso. O candidato afirmou que espera que a situação tenha sido resultado de uma confusão, mas defendeu que a conduta seja esclarecida justamente por considerar que não houve uma abordagem policial convencional.
Agora, além da apuração determinada pela Secretaria da Segurança Pública, o caso entra também no campo eleitoral, com a coligação de Haddad cobrando do Ministério Público esclarecimentos sobre a origem e a finalidade da atuação policial.


