Manaus voltou a amanhecer encoberta por fumaça nesta quarta-feira (9), em meio às temperaturas elevadas e à ocorrência de incêndios em diferentes municípios do Amazonas. A combinação entre calor intenso, estiagem, baixa umidade e poluição atmosférica aumenta os riscos à saúde, principalmente para pessoas com asma, bronquite, doenças cardíacas e outros problemas crônicos.
O Ministério da Saúde alerta que o principal risco da fumaça está no material particulado fino, conhecido como MP2,5. Essas partículas têm até 2,5 micrômetros de diâmetro e conseguem penetrar profundamente no sistema respiratório, alcançando os alvéolos pulmonares. A exposição prolongada pode agravar doenças respiratórias e cardiovasculares e provocar aumento de atendimentos e internações.
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) também aponta que as micropartículas presentes na fumaça das queimadas podem permanecer depositadas nas cavidades pulmonares, piorando quadros respiratórios. Estudos divulgados pela instituição associaram a exposição à fumaça, em municípios da Amazônia, a um aumento de 24% nas internações por síndromes respiratórias durante o período analisado. Esse percentual é resultado de pesquisa científica anterior e não representa, isoladamente, o número atual de casos no Amazonas.
Manacapuru registra incêndios em sequência
Manacapuru, distante cerca de 68 quilômetros de Manaus, enfrentou pelo menos duas ocorrências graves nas últimas semanas.
A primeira começou no dia 29 de agosto, no lixão municipal. As chamas ultrapassaram a área de descarte de resíduos, atingiram vegetação nativa e uma plantação de bananas, além de se aproximarem da comunidade ribeirinha de Santa Luzia. A fumaça comprometeu a visibilidade e a qualidade do ar em diferentes pontos do município.
Outro incêndio avançou, entre os dias 5 e 7 de setembro, sobre uma área de vegetação no quilômetro 17 da rodovia AM-352, nas proximidades do Ramal da Família e das comunidades Monte Sinai 2 e Nova Conquista. As chamas chegaram a cerca de 100 metros de algumas residências e ameaçaram casas, plantações e animais.
Equipes do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas e da Defesa Civil do Amazonas foram mobilizadas para o combate. Conforme a atualização recebida pela reportagem, o avanço principal das chamas foi contido. Entretanto, o trabalho de rescaldo e o monitoramento de novos focos continuam necessários, pois o fogo pode permanecer ativo no subsolo e voltar a se espalhar com o vento e o ressecamento da vegetação.
Na manhã de segunda-feira (7), antes da confirmação da contenção, a concentração de partículas registrada em Manacapuru chegou a 192 microgramas por metro cúbico, condição classificada como muito ruim. Em Novo Airão, o índice informado foi de 65,8 microgramas por metro cúbico.
Outros municípios também enfrentam queimadas
O cenário não se restringe a Manacapuru. No início de setembro, também foram relatados incêndios em áreas de descarte de resíduos ou de vegetação em outros municípios:
- Lábrea: moradores enfrentaram fumaça proveniente de um incêndio no lixão municipal, localizado a aproximadamente um quilômetro da área urbana. O fogo apresentava recorrência mesmo após ações de resfriamento;
- Iranduba: um incêndio no lixão atingiu uma área estimada em 40 mil metros quadrados. Segundo informações divulgadas sobre a atuação do Corpo de Bombeiros, foram utilizados aproximadamente 230 mil litros de água. O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) aplicou multa de R$ 2,5 milhões à prefeitura por poluição decorrente da queima de resíduos, e o Ministério Público do Estado do Amazonas (MP-AM) abriu procedimento para apurar o caso;
- Caapiranga: um incêndio atingiu vegetação na Estrada do Membeca, aproximando-se de propriedades rurais e provocando mortes de animais silvestres;
- Novo Airão: focos de calor também foram identificados no corredor entre o município e Manacapuru.
Os casos ocorreram em momentos e áreas diferentes. Portanto, não é possível atribuir toda a fumaça que cobre Manaus a um único incêndio sem uma análise oficial da direção dos ventos, das imagens de satélite e da dispersão dos poluentes. O Banco de Dados de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) é atualizado em intervalos próximos ao tempo real e permite acompanhar a distribuição dos focos.
Calor amplia riscos à saúde
Além da fumaça, as temperaturas elevadas representam outro fator de risco. O Ministério da Saúde informa que o calor extremo pode provocar desidratação, exaustão térmica e golpe de calor, além de agravar doenças cardíacas, renais, respiratórias e circulatórias.
Entre os principais sinais de alerta estão:
- transpiração excessiva;
- fraqueza e tontura;
- náuseas e vômitos;
- dor de cabeça intensa;
- cãibras;
- falta de ar;
- confusão mental;
- desmaio;
- convulsões;
- dor no peito.
Confusão mental, perda de consciência ou convulsão podem indicar golpe de calor, considerado uma emergência médica. Crianças, idosos, gestantes, trabalhadores expostos ao sol e pessoas com doenças crônicas precisam de atenção especial.
Como se proteger da fumaça e do calor
O Ministério da Saúde recomenda:
- beber água regularmente, mesmo sem sentir sede;
- evitar exercícios e trabalhos intensos ao ar livre enquanto houver fumaça;
- reduzir a exposição entre os horários de maior calor;
- manter portas e janelas fechadas nos momentos de maior concentração de fumaça;
- permanecer, quando possível, em ambientes internos e protegidos;
- usar roupas leves, claras e que facilitem a transpiração;
- evitar bebidas alcoólicas e excesso de cafeína;
- lavar olhos e nariz com soro fisiológico em caso de irritação;
- utilizar máscara PFF2, N95 ou P100, bem ajustada ao rosto, quando for indispensável sair;
- manter os medicamentos de uso contínuo e os tratamentos para asma ou outras doenças conforme orientação médica;
- não alterar doses de medicamentos, inclusive diuréticos e remédios para pressão, sem avaliação profissional.
Máscaras de tecido e máscaras cirúrgicas oferecem proteção limitada contra o MP2,5. A PFF2 ou N95 é mais adequada para reduzir a inalação dessas partículas, embora também não elimine completamente o risco.
Quando procurar atendimento
A população deve buscar uma Unidade Básica de Saúde, pronto atendimento ou emergência se apresentar falta de ar, chiado intenso, dor ou aperto no peito, desmaio, confusão mental, febre persistente, vômitos repetidos, piora súbita de doença respiratória ou sinais de desidratação.
Em situações graves, o atendimento pode ser acionado pelo Samu, no número 192. Incêndios devem ser comunicados ao Corpo de Bombeiros, pelo 193.
Até a conclusão desta matéria, não havia sido localizado um boletim consolidado da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) ou da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) que relacionasse diretamente o número de atendimentos respiratórios de setembro de 2026 à atual camada de fumaça. Essa relação exige análise epidemiológica e não deve ser estabelecida apenas pela coincidência entre o aumento da poluição e a procura pelas unidades de saúde.


