As campanhas eleitorais de 2026 no Amazonas já movimentam dezenas de milhões de reais, entre recursos públicos distribuídos pelos partidos, doações de pessoas físicas e dinheiro dos próprios candidatos. No recorte analisado, que reúne 19 candidaturas aos cargos de governador, senador, deputado federal e deputado estadual, foram registrados R$ 30,78 milhões em recursos recebidos e R$ 3,9 milhões em despesas declaradas.
Os números ainda são parciais e podem mudar à medida que novas receitas e despesas sejam registradas. Pela regra eleitoral, partidos e candidatos devem informar à Justiça Eleitoral os recursos financeiros recebidos em até 72 horas. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) disponibiliza essas informações por meio do sistema de prestação de contas das eleições.
Em todo o país, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) para 2026 soma R$ 4,96 bilhões. O dinheiro é público e distribuído aos partidos segundo critérios estabelecidos pela legislação eleitoral. Todos os dados mostrados nesta matéria são públicos, podendo ser consultados no site Divulgacand.
Governo concentra as maiores arrecadações
Entre os candidatos ao Governo do Amazonas, Omar Aziz (PSD) aparece com a maior arrecadação no levantamento, com R$ 6,12 milhões recebidos. Desse montante, R$ 6 milhões foram registrados como recursos do Fundo Partidário e R$ 120 mil vieram de pessoas físicas.
A segunda maior arrecadação é a de Maria do Carmo (PL), com R$ 4,53 milhões, seguida por Roberto Cidade (União Brasil), com R$ 3 milhões, e David Almeida (Avante), com R$ 2 milhões.
Apesar de ter recebido menos que Omar e Maria, Roberto Cidade não apresentava despesas declaradas no recorte analisado. O mesmo ocorre com David Almeida.
| Candidato | Cargo | Recursos recebidos | Despesas declaradas |
| Omar Aziz | Governo | R$ 6,12 mi | R$ 600,88 mil* |
| Maria do Carmo | Governo | R$ 4,53 mi | R$ 2,16 mi |
| Roberto Cidade | Governo | R$ 3,01 mi | R$ 0 |
| David Almeida | Governo | R$ 2,00 mi | R$ 0 |
| Eduardo Braga | Senado | R$ 2,58 mi | R$ 76 mil |
| Wilson Lima | Senado | R$ 1,76 mi | R$ 0 |
| Alfredo Nascimento | Câmara | R$ 3,02 mi | R$ 0 |
| Sargento Salazar | Câmara | R$ 3,00 mi | R$ 0 |
| Joana Darc | Câmara | R$ 1,93 mi | R$ 0 |
| Fausto Jr. | Câmara | R$ 1,11 mi | R$ 618,06 mil |
| Outros candidatos analisados | — | R$ 2,80 mi | R$ 511,16 mil |
Maria lidera os gastos já declarados
Quando o critério passa da arrecadação para os gastos efetivamente declarados, Maria do Carmo aparece na liderança, com R$ 2,16 milhões em despesas.
A maior parcela foi registrada como serviços prestados por terceiros, com R$ 945,2 mil. A campanha também declarou R$ 415 mil em pesquisas ou testes eleitorais, R$ 400 mil para produção de programas de rádio, televisão ou vídeo, R$ 250 mil em serviços advocatícios e quase R$ 119 mil em impulsionamento de conteúdos.
Somados, esses cinco grupos representam cerca de R$ 2,13 milhões, praticamente todo o volume de despesas informado pela candidata.
Na sequência aparecem Fausto Jr. (R$ 618,06 mil) e Omar Aziz (R$ 600,88 mil). Entre os demais candidatos, Amon Mandel declarou R$ 269,2 mil em despesas, sendo R$ 200,7 mil apenas em publicidade com material impresso.
O retrato, portanto, ainda é de campanhas em diferentes estágios. Vários candidatos receberam milhões de reais, mas ainda não registraram despesas no levantamento, o que não significa necessariamente que os recursos permanecerão sem utilização. Parte dos valores pode ter sido recebida recentemente ou ainda estar aguardando o registro das despesas.
Internet, produtoras e material gráfico
Os dados mostram que a campanha não está concentrada em uma única frente de comunicação.
No ambiente digital, as campanhas analisadas declararam aproximadamente R$ 365 mil em impulsionamento de conteúdos. Maria do Carmo responde por R$ 119 mil desse total; Eduardo Braga, por R$ 76 mil; Plínio Valério, por R$ 70 mil; Débora Menezes, por R$ 50 mil; além de gastos menores registrados por Coronel Menezes, Fausto Jr. e Eurico Tavares.
O valor não representa necessariamente todo o investimento das candidaturas na internet, já que outros serviços digitais podem aparecer em categorias diferentes da prestação de contas.
A produção audiovisual, por sua vez, soma R$ 800 mil no levantamento, divididos entre Maria do Carmo e Omar Aziz, com R$ 400 mil declarados por cada campanha para produção de programas de rádio, televisão ou vídeo.
Já o material impresso representa pelo menos R$ 704,2 mil, puxado pelos R$ 503,5 mil declarados por Fausto Jr. e pelos R$ 200,7 mil registrados por Amon Mandel.
As pesquisas eleitorais aparecem com R$ 415 mil, integralmente registrados pela campanha de Maria do Carmo no recorte apresentado.
Em eventos, foram declarados R$ 232,6 mil, considerando os R$ 150 mil de Omar Aziz, R$ 57,6 mil de Fausto Jr. e R$ 25 mil de Débora Menezes.
| Tipo de gasto | Valor declarado |
| Serviços prestados por terceiros | R$ 1,13 milhão |
| Material impresso | R$ 704,2 mil |
| Produção de rádio, TV e vídeo | R$ 800 mil |
| Pesquisas eleitorais | R$ 415 mil |
| Impulsionamento de conteúdos | R$ 365 mil |
| Serviços advocatícios | R$ 250 mil |
| Eventos/comícios | R$ 232,6 mil |
| Serviços contábeis | R$ 180 mil |
| Despesas com pessoal | R$ 16 mil |
Os valores acima são a soma das categorias discriminadas nos dados fornecidos e, por isso, não devem ser tratados como uma fotografia completa de todas as despesas das campanhas.
Campanha é investimento?
No Amazonas, algumas candidaturas já receberam milhões de reais para financiar a corrida eleitoral. Para o professor e cientista político Helso Ribeiro, analisa esse cenário e acredito que o volume de dinheiro disponível pode fazer diferença na capacidade de um candidato se tornar competitivo.
Helso explica que cada candidatura possui um teto de gasto estipulado, como os candidatos a presidente da República, por exemplo, que no primeiro turno podem gastar em torno de R$ 90 milhões, no segundo turno quase R$ 40 milhões.

“Candidatos ao governado do Amazonas, por exemplo, no primeiro turno qualquer candidato pode gastar até 7 milhões, no segundo turno 3 milhões e meio. Eu custo a crer que se 90%, 95% dos trabalhadores do Amazonas dispõe de 10 milhões e meio para gastar na eleição”, explica o especialista, destacando que os gastos por candidato numa eleição são estratosféricos.
“Então é evidente que numa eleição muito dinheiro vai ajudar. Eu diria que a democracia brasileira se aproxima muito, muitíssimo de uma plutocracia”, diz Helso, explicando que o termo “plutocracia” vem da ideia de que governa aquele que possui mais dinheiro.
Mas o dinheiro não é distribuído igualmente entre os candidatos. Os próprios dados da campanha mostram diferenças de milhões de reais nos repasses feitos pelos partidos. Na avaliação de Helso Ribeiro, essa concentração atende principalmente à estratégia das legendas.
“Ele coloca dinheiro em quem o dono do partido, vou botar aspas aí nesse dono, acha que tem condições de dar um retorno melhor”, diz o cientista.
Enquanto algumas candidaturas recebem maior investimento, outras acabam compondo as chapas proporcionais sem necessariamente contar com a mesma estrutura financeira para disputar uma vaga.
“A grande cacicagem política sabe em quem vai investir e os outros vão servir de degraus da escada para que os seus apadrinhados cheguem ao poder”. Conclui.
O professor explica ainda que, no atual cenário em que televisão e internet convivem no mesmo ambiente para o eleitor, boa parte desse dinheiro é utilizado para ampliar a presença dos candidatos em diferentes plataformas. Televisão e redes sociais, segundo o especialista, funcionam de maneira cada vez mais integrada.
“Esse recorte da televisão vai servir para a rede social também. Um vai impulsionar o outro. Então o dinheiro vai servir por dois lados.”
Ainda assim, uma campanha milionária não é garantia de vitória. O investimento pode aumentar a exposição e a estrutura da candidatura, mas não necessariamente se transforma em votos.
“Esse investimento alto em campanha não garante que você vá ser eleito, agora, ele garante sim uma competitividade.”
Mulheres: os recursos estão acompanhando a regra de 30%?
Entre as 19 candidaturas analisadas, quatro são mulheres: Maria do Carmo, Joana Darc, Micka Sevalho e Débora Menezes. Juntas, elas receberam R$ 7,03 milhões, equivalente a aproximadamente 22,9% dos R$ 30,78 milhões arrecadados pelo conjunto analisado.
O percentual, isoladamente, fica abaixo dos 30% mínimos de recursos públicos destinados às candidaturas femininas.
Mas o dado não permite concluir que os partidos descumpriram a cota.
Isso ocorre porque a regra não é calculada simplesmente comparando o dinheiro recebido por um grupo selecionado de candidatas com o total arrecadado por todos os candidatos de uma amostra. O TSE calcula os percentuais considerando o conjunto de candidaturas de cada partido, e os recursos públicos precisam observar as cotas correspondentes. Para 2026, o TSE reafirmou a garantia mínima de 30% dos recursos do FEFC e do Fundo Partidário para candidaturas de mulheres.
Além disso, o levantamento reúne apenas algumas candidaturas e não todas as mulheres que concorrem pelos partidos mencionados. Portanto, seria necessário cruzar todos os candidatos e candidatas de cada legenda, os valores efetivamente recebidos pelos partidos e a distribuição posterior dos recursos para verificar eventual cumprimento ou descumprimento.
A distribuição dos recursos entre homens e mulheres também é alvo de preocupação. A legislação estabelece um percentual mínimo de financiamento para candidaturas femininas, mas Helso avalia que a regra, sozinha, não é suficiente para equilibrar a disputa.
“Esses 30% destinado às mulheres é muito pouco. E o Brasil segue na retaguarda de países que têm mulheres no parlamento.” Diz o especialista.
Dinheiro público domina as campanhas
Outro aspecto que aparece com clareza no levantamento é o peso dos recursos partidários. Entre os principais candidatos, a maior parte do dinheiro declarado vem dos próprios partidos, e não de doadores individuais.
Omar Aziz, por exemplo, recebeu R$ 6 milhões classificados como Fundo Partidário. Alfredo Nascimento recebeu R$ 3 milhões nessa modalidade, enquanto Sargento Salazar recebeu outros R$ 3 milhões. Roberto Cidade recebeu R$ 2,85 milhões da direção nacional do União Brasil, e Wilson Lima, R$ 1,66 milhão.
Entre os candidatos analisados, as doações de pessoas físicas e os recursos próprios aparecem em volume bem menor.
Isso reforça uma característica das eleições brasileiras: embora doações privadas continuem permitidas dentro das regras eleitorais, os fundos públicos representam parcela significativa do financiamento das campanhas, sobretudo entre candidaturas competitivas e de maior estrutura partidária.
O próprio TSE informa que o FEFC de 2026 é composto por recursos públicos e que sua distribuição aos partidos segue critérios definidos na legislação e na representação das legendas no Congresso.
O eleitor sabe quando vale uma campanha eleitoral?
Ao contrário do que se imaginar popularmente, ter acesso aos valores recebidos e gastos de cada político durante uma campanha é muito simples. Sites como o Divulgacand e outras ferramentas podem deixar o eleitor ciente do quanto o seu candidato recebeu e quanto vem gastando em suas campanhas, e até mesmo em que esse dinheiro vem sendo investido.
A analista Daniele Seixas, 49 anos, não sabe quanto cada candidato já ganhou e gastou, mas ela acredita que; “A utilização de dinheiro público deveria ajudar candidatos que tenham boas propostas para o desenvolvimento da comunidade”. Ela também defende uma redução nos repasses de verbas para campanhas.
Daniele também observa os valores recebidos e o quanto eles podem impactar no fator confiabilidade do eleitor.
“Um único candidato receber milhões com certeza ganha minha desconfiança, fica aquela indagação:”Xi, recebeu esse montante prometendo benefícios pessoais por debaixo dos panos ao longo de um possível mandato”. Logo, está mais interessado em benefícios e alianças pensando em si do que no povo” reflete.
O músico Lincoln Almeida, 34 anos, se posiciona contra o fundo partidário. Segundo ele; “Dinheiro público deve ser usado para saúde , educação, segurança. Acho muito errado o dinheiro público ser usado para campanha de candidatos”, diz o eleitor.
O jornalista Ivanildo Pereira, 46 anos, chamma o Fundo Eleitoral no Brasil de “situação obscena”, e destaca que a cada eleição esse valor só cresce; “Políticos envolvidos com grandes somas é algo que sempre deveria ligar sinal de alerta na população”, observa.
Um retrato ainda parcial da corrida eleitoral
O levantamento mostra, portanto, uma eleição em que milhões de reais já chegaram às contas de campanha, mas uma parcela considerável ainda não aparece como gasto. Entre os 19 candidatos analisados, mais de R$ 26,8 milhões recebidos ainda não aparecem como despesas declaradas, considerando os números informados.
Isso não significa que o dinheiro esteja parado: recursos podem ter sido recebidos antes da contratação de serviços ou ainda não terem sido lançados como despesas no momento do recorte.
A prestação de contas também continuará sendo atualizada durante a campanha. O TSE prevê uma prestação parcial, com informações sobre movimentação financeira e estimável em dinheiro, entre 2 e 13 de setembro, referente à movimentação ocorrida até 8 de setembro.
Assim, a fotografia atual é apenas um ponto de partida. À medida que as campanhas avançarem, será possível saber se os milhões recebidos vão se transformar principalmente em propaganda digital, televisão, material impresso, eventos, mobilização de rua ou estrutura de campanha, e também se a distribuição dos recursos públicos entre homens e mulheres seguirá os percentuais exigidos pela legislação eleitoral.


