Do Império às urnas: como os governadores moldaram o Amazonas – e concentraram poder por 176 anos

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O 5 de setembro criou mais que uma província: inaugurou a disputa pelo comando político de um território estratégico, rico e distante do centro do poder nacional. De Tenreiro Aranha aos atuais grupos políticos, cada governo deixou obras, marcas e contradições.

Neste 5 de setembro de 2026, o Amazonas completa 176 anos de elevação à categoria de província. A data não representa apenas o nascimento administrativo do território: marca o início da construção do poder político amazonense.

Sancionada por Dom Pedro II, a Lei Imperial nº 582, de 5 de setembro de 1850, separou a Comarca do Alto Amazonas da Província do Grão-Pará. A nova unidade passou a se chamar Província do Amazonas, com capital na Vila da Barra do Rio Negro, direito a um senador, um deputado-geral e uma Assembleia Provincial com 20 integrantes. (legis.senado.leg.br⁠)

O Amazonas conquistava governo próprio, orçamento, representação parlamentar e capacidade administrativa. Ao mesmo tempo, começava uma disputa que atravessaria o Império, a República, a ditadura e a redemocratização: quem controlaria o governo e quais regiões receberiam os investimentos públicos?

A emancipação foi uma decisão política e estratégica

A elevação do Amazonas não foi uma simples concessão de Dom Pedro II. O projeto precisou ser debatido e aprovado no Parlamento.

Documentos do Arquivo do Senado revelam que os defensores da emancipação denunciavam a distância entre Belém e o Alto Amazonas, a lentidão das comunicações e o abandono administrativo. Também havia preocupação com a proteção das fronteiras e com interesses estrangeiros sobre o território e a navegação amazônica. (www12.senado.leg.br⁠)

Havia, porém, resistência. Parlamentares argumentavam que a região possuía pouca população e arrecadação insuficiente para sustentar uma estrutura administrativa própria. Os discursos também revelavam preconceitos contra os povos indígenas e os habitantes do interior.

A emancipação, portanto, nasceu no centro de uma disputa entre autonomia, controle territorial, arrecadação e representação política.

LINHA CRONOLÓGICA DO PODER NO AMAZONAS

A história registra dezenas de presidentes provinciais, interventores e governadores. Esta cronologia destaca os períodos e personagens que produziram mudanças políticas ou estruturais mais profundas.

1850 — Nasce a Província do Amazonas

A Lei nº 582 elevou a Comarca do Alto Amazonas à categoria de província e estabeleceu a Vila da Barra do Rio Negro como capital.

A legislação também autorizou a criação das repartições fiscais necessárias para administrar e arrecadar as receitas públicas. A mudança significava que parte das decisões antes concentradas em Belém passaria a ser tomada no próprio Amazonas. (legis.senado.leg.br⁠)

1852 — Tenreiro Aranha instala o primeiro governo

Embora criada em 1850, a Província do Amazonas foi efetivamente instalada em 1º de janeiro de 1852, com a posse de João Baptista de Figueiredo Tenreiro Aranha, primeiro presidente provincial — função correspondente à de governador. (tede.ufam.edu.br⁠)

Tenreiro Aranha assumiu um território com pouca estrutura pública, grandes distâncias, baixa arrecadação e presença estatal limitada. Seu governo representou o começo da organização administrativa, fiscal e política da nova província.

Uma curiosidade histórica é que o município de Presidente Figueiredo homenageia Tenreiro Aranha, e não o ex-presidente da República João Baptista Figueiredo, como muitos acreditam. (cmpfg.am.gov.br⁠)

1856 — A capital ganha o nome de Manaus

Em 4 de setembro de 1856, a Cidade da Barra do Rio Negro passou a se chamar Cidade de Manaus, nome associado ao povo indígena Manaó. (manaus.am.gov.br⁠)

A mudança reforçou a construção de uma identidade política própria. Manaus deixava de ser apenas uma sede administrativa distante e começava a se consolidar como centro do poder amazonense.

1889 — A Província transforma-se em Estado

Com a Proclamação da República, as províncias foram transformadas em estados. O cargo de presidente provincial deu lugar ao de governador.

A mudança, entretanto, não garantiu imediatamente estabilidade democrática. Os primeiros anos da República foram marcados por nomeações, disputas entre grupos locais, deposições e governos de curta duração.

1890 a 1896 — Eduardo Ribeiro transforma Manaus

O governador Eduardo Gonçalves Ribeiro comandou o Amazonas em diferentes períodos entre 1890 e 1896. Seu governo coincidiu com o crescimento da economia da borracha e promoveu um amplo projeto de modernização da capital.

A partir de 1892, sua administração adotou um plano para ordenar o crescimento urbano. Manaus recebeu obras viárias, serviços públicos e prédios institucionais. Eduardo Ribeiro também retomou e impulsionou a construção do Teatro Amazonas e criou, em 1892, a Imprensa Oficial do Estado. (gov.br⁠, imprensaoficial.am.gov.br⁠, brasilianafotografica.bn.gov.br⁠)

Politicamente, o período consolidou Manaus como centro econômico e administrativo. Mas também deixou uma contradição estrutural que permanece atual: enquanto a capital era modernizada com a riqueza da borracha, grande parte do interior continuava distante dos serviços públicos.

1896 a 1912 — O apogeu da borracha e a política das elites

Governos como os de Fileto Pires Ferreira, Silvério Nery e Antônio Constantino Nery administraram o Amazonas durante o período de maior circulação da riqueza produzida pela borracha.

O Teatro Amazonas foi inaugurado em 1896 e o Porto de Manaus em 1909, símbolos de uma cidade integrada ao comércio internacional. (imprensaoficial.am.gov.br⁠)

Por trás da chamada Belle Époque, porém, existia uma sociedade profundamente desigual. A economia dependia do extrativismo, do trabalho nos seringais e de uma estrutura de poder dominada por comerciantes, exportadores e grupos políticos locais.

Quando a borracha amazônica perdeu espaço para a produção asiática, o Estado mergulhou em uma prolongada crise econômica.

1924 — Ribeiro Júnior toma o governo

Em 1924, o movimento tenentista chegou ao Amazonas. O tenente Ribeiro Júnior tomou o poder estadual e permaneceu no governo por 36 dias.

O episódio mostrou que a política amazonense estava inserida na crise nacional da Primeira República, marcada por revoltas militares, questionamentos às oligarquias e disputas pelo controle do Estado. (manaus.am.gov.br⁠)

1930 a 1945 — A Era Vargas e os interventores

Após a Revolução de 1930, a autonomia estadual foi reduzida. O governo federal passou a nomear interventores, enfraquecendo as eleições e ampliando o controle de Getúlio Vargas sobre os estados.

No Amazonas, essa fase reforçou a dependência política em relação ao governo central. As grandes decisões econômicas continuavam sendo tomadas fora da região.

1959 a 1963 — Gilberto Mestrinho inicia uma nova liderança

Eleito governador, Gilberto Mestrinho iniciou em 1959 o primeiro de seus três mandatos. Ele voltaria ao governo em 1983 e em 1991. Também foi prefeito de Manaus, deputado federal e senador. (www25.senado.leg.br⁠, www12.senado.leg.br⁠)

Mestrinho tornou-se uma das principais lideranças políticas do Amazonas no século XX. Sua trajetória marcou a consolidação de um modelo político baseado em lideranças fortes, alianças municipais e grande influência sobre a sucessão estadual.

Em 1964, posicionou-se em defesa da legalidade e do governo de João Goulart. Com o avanço do regime militar, permaneceu afastado do centro do poder estadual até a redemocratização. (www12.senado.leg.br⁠, www25.senado.leg.br⁠)

1964 a 1982 — Governadores escolhidos sob influência da ditadura

Durante o regime militar, o Amazonas passou por administrações como as de Arthur Cézar Ferreira Reis, Danilo Areosa, João Walter de Andrade, Henoch Reis e José Lindoso.

Nesse período, o poder estadual esteve diretamente condicionado às decisões do governo federal. A principal transformação estrutural foi a implantação do modelo da Zona Franca de Manaus, reformulado pelo Decreto-Lei nº 288, de 1967.

A Zona Franca criou um novo eixo econômico baseado na indústria, no comércio e nos incentivos fiscais. A implantação do modelo, em 1967, alterou profundamente a economia, acelerou a migração para Manaus e reforçou a concentração populacional e de investimentos na capital. (gov.br⁠, imprensaoficial.am.gov.br⁠)

A transformação econômica foi profunda, mas também aumentou a dependência do Amazonas das decisões tributárias tomadas em Brasília.

1983 — O voto direto devolve Gilberto Mestrinho ao governo

Com a abertura política, Gilberto Mestrinho retornou ao governo em 1983, eleito pelo voto popular.

A eleição marcou o fim de duas décadas de governadores escolhidos direta ou indiretamente sob a influência do regime militar. Também abriu uma nova fase de domínio das grandes lideranças regionais.

1987 a 2002 — A era Amazonino e Mestrinho

Amazonino Mendes assumiu o governo em 1987 e, ao longo de sua trajetória, governou o Amazonas quatro vezes. Também foi prefeito de Manaus em três ocasiões e senador. (www12.senado.leg.br⁠)

Entre 1983 e 2002, Gilberto Mestrinho e Amazonino Mendes se alternaram no comando estadual. A política amazonense passou a girar em torno desses dois grupos, suas alianças, rompimentos e sucessões.

Amazonino governou de 1987 a 1990 e retornou em 1995, sendo reeleito em 1998. Entre seus marcos estruturais está a criação da Universidade do Estado do Amazonas, em 2001, que ampliou a presença do ensino superior público na capital e no interior. (pdi.uea.edu.br⁠, pdi.uea.edu.br⁠)

A criação da UEA representou uma mudança duradoura na formação de professores, profissionais de saúde, pesquisadores e servidores nos municípios amazonenses.

2003 a 2010 — Eduardo Braga e a reorganização urbana

A eleição de Eduardo Braga em 2002 rompeu a alternância direta entre Amazonino e Mestrinho. Braga governou de 2003 a 2010, quando deixou o cargo para disputar o Senado. (www25.senado.leg.br⁠, www12.senado.leg.br⁠)

Durante seu governo, o Estado implantou o Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus, o Prosamim, com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Executado a partir de 2006, o programa promoveu intervenções em habitação, saneamento, drenagem, urbanização e recuperação ambiental em áreas de igarapés. (iadb.org⁠, publications.iadb.org⁠)

Politicamente, Braga estruturou um novo grupo de poder, do qual também emergiram Omar Aziz e José Melo.

2010 a 2014 — Omar Aziz assume e consolida a sucessão

Vice-governador de Eduardo Braga, Omar Aziz assumiu o governo em março de 2010 e foi eleito para permanecer no cargo.

Sua gestão deu continuidade a projetos estruturais, entre eles novas fases do Prosamim. O período também ficou marcado pela Ponte Rio Negro, que ampliou a ligação terrestre de Manaus com Iranduba, Manacapuru e Novo Airão. A estrutura alterou a mobilidade e a dinâmica econômica da Região Metropolitana. (ssp.am.gov.br⁠, agenciaamazonas.am.gov.br⁠)

Em 2014, Omar deixou o governo para concorrer ao Senado, transferindo o cargo ao vice José Melo.

2014 a 2017 — José Melo e a ruptura provocada pela Justiça Eleitoral

José Melo assumiu o governo em 2014 e venceu a eleição daquele ano. Seu mandato, contudo, terminou antes do previsto após decisão da Justiça Eleitoral, que determinou a cassação da chapa e a realização de eleição suplementar.

A crise expôs a fragilidade institucional provocada quando disputas eleitorais e decisões judiciais interrompem um mandato legitimado inicialmente pelas urnas.

Com a saída de Melo, o então presidente da Assembleia Legislativa, David Almeida, assumiu interinamente o governo até a posse do vencedor da eleição suplementar. (www12.senado.leg.br⁠, bibliotecadigital.tse.jus.br⁠)

2017 a 2019 — Amazonino retorna pela quarta vez

Amazonino Mendes venceu a eleição suplementar de 2017 e voltou ao governo para concluir o mandato.

Seu retorno mostrou a força eleitoral dos antigos caciques políticos, mesmo diante do desgaste das estruturas tradicionais. Em 2018, porém, Amazonino foi derrotado por Wilson Lima, então conhecido principalmente por sua atuação na televisão.

2019 a 2026 — Wilson Lima e a ascensão de uma liderança fora dos grupos tradicionais

Wilson Lima assumiu o governo em 2019 e foi reeleito em 2022. Sua vitória representou, inicialmente, uma ruptura com as lideranças que controlaram o Estado desde a redemocratização.

O primeiro mandato foi profundamente marcado pela pandemia de Covid-19 e pelo colapso do sistema de saúde, episódio que expôs problemas históricos de planejamento, infraestrutura e dependência logística.

No campo estrutural, sua administração deu continuidade aos programas de urbanização e saneamento, ampliando as intervenções para municípios do interior por meio do Prosamin+. O programa financiado pelo BID contempla Manaus, Coari, Iranduba, Itacoatiara e Parintins, com ações de saneamento, habitação, urbanização e fortalecimento institucional. (iadb.org⁠)

A gestão também passou a adotar políticas de habitação e regularização fundiária, como o Amazonas Meu Lar, além de ampliar a classificação e a pavimentação de rodovias estaduais. (agenciaamazonas.am.gov.br⁠, agenciaamazonas.am.gov.br⁠)

Entretanto, Wilson Lima não concluiu o segundo mandato. Em 4 de abril de 2026, ele e o vice-governador Tadeu de Souza renunciaram aos cargos. A saída ocorreu no limite do prazo de desincompatibilização eleitoral e permitiu que Wilson Lima disputasse uma vaga no Senado nas eleições de 2026. (cartacapital.com.br⁠, www1.folha.uol.com.br⁠)

A renúncia simultânea do governador e do vice abriu uma situação excepcional na política amazonense: o Estado ficou sem os dois integrantes da chapa escolhida diretamente pelos eleitores em 2022.

Abril de 2026 — Roberto Cidade assume interinamente

Na condição de presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas, Roberto Cidade assumiu interinamente o governo após as renúncias.

A passagem direta da presidência da Aleam para o comando do Executivo reforçou a centralidade política que Cidade já havia conquistado no Legislativo estadual e o colocou na posição de administrar a máquina pública durante o ano eleitoral.

Como a vacância dos cargos ocorreu na segunda metade do mandato, a escolha definitiva não foi submetida ao voto direto da população. Coube à Assembleia Legislativa realizar uma eleição indireta para definir quem completaria o período governamental.

Maio de 2026 — Roberto Cidade é eleito governador-tampão

Em 4 de maio de 2026, os deputados estaduais elegeram indiretamente Roberto Cidade como governador e Serafim Corrêa como vice-governador. O Diário Oficial Legislativo registra a chapa formada por Cidade, filiado ao União Brasil, e Serafim, do PSB. (aleam.gov.br⁠)

Roberto Cidade deixou, então, a condição de governador interino e passou a exercer oficialmente o chamado mandato-tampão, com duração até janeiro de 2027. O portal oficial do Governo do Amazonas confirma Roberto Maia Cidade Filho como atual governador do Estado. (amazonas.am.gov.br⁠, agenciaamazonas.am.gov.br⁠)

Serafim Corrêa, ex-prefeito de Manaus e ex-deputado estadual, assumiu a Vice-Governadoria. A composição reuniu a força política construída por Cidade na Assembleia à experiência administrativa e eleitoral de Serafim. (agenciaamazonas.am.gov.br⁠, agenciaamazonas.am.gov.br⁠)

Uma transição com forte impacto eleitoral

A renúncia de Wilson Lima e a eleição indireta de Roberto Cidade produziram uma das mudanças políticas mais significativas da história recente do Amazonas.

Embora prevista pelas regras constitucionais, a escolha de um governador pelos 24 deputados estaduais — e não diretamente pelos milhões de eleitores amazonenses — reacende o debate sobre representação popular, influência do Legislativo e uso político de um mandato-tampão em pleno ano eleitoral.

Roberto Cidade passou a ocupar simultaneamente dois espaços decisivos: tornou-se chefe do Executivo estadual e candidato ao próprio governo nas eleições gerais de 2026. A máquina administrativa, a visibilidade institucional e as alianças construídas durante sua passagem pela presidência da Aleam passaram a integrar o novo cenário da disputa.

A sucessão também demonstrou que a vitória de Wilson Lima em 2018 não encerrou a política dos grupos. Ao longo de seus mandatos, ele formou uma nova estrutura de poder e ajudou a projetar Roberto Cidade como seu sucessor.

A história revela um poder concentrado em poucos grupos

A cronologia dos governos mostra que o Amazonas passou por quatro grandes transformações:

* a conquista da autonomia administrativa em 1850;
* a modernização financiada pela borracha no final do século XIX;
* a industrialização promovida pela Zona Franca a partir de 1967;
* a retomada das eleições diretas e a formação de grandes grupos políticos após 1982.

Também revela permanências. O poder econômico, administrativo e populacional continua fortemente concentrado em Manaus. O interior, apesar dos avanços, ainda enfrenta dificuldades de transporte, saúde, educação, conectividade e presença permanente do Estado.

Outra característica é a personalização da política. Durante décadas, o debate público foi organizado ao redor de nomes como Gilberto Mestrinho, Amazonino Mendes, Eduardo Braga, Omar Aziz e Wilson Lima. Partidos e alianças mudaram, mas muitas estruturas de poder permaneceram.

Essa é uma interpretação histórica sustentada pela sucessão dos mandatos: no Amazonas, líderes frequentemente criaram grupos próprios, escolheram sucessores e, posteriormente, romperam com os mesmos aliados que ajudaram a construir.

5 de setembro: celebrar também é fiscalizar

A elevação do Amazonas à categoria de província deu ao território o direito de administrar seus recursos e escolher seus caminhos. Passados 176 anos, a pergunta central continua atual:

A autonomia conquistada em 1850 foi transformada em desenvolvimento equilibrado para os 62 municípios ou o poder e os investimentos continuam concentrados na capital e nas mãos de poucos grupos?

A data tornou-se feriado estadual por meio da Lei nº 25, de 1977. Mais do que um descanso, o 5 de setembro deve servir para recordar a conquista da autonomia e cobrar dos governantes responsabilidade sobre o futuro do maior estado brasileiro em extensão territorial. (legisla.imprensaoficial.am.gov.br⁠)

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