O surto de hantavírus registrado a bordo do navio de cruzeiro MV Hondius, que mobilizou autoridades sanitárias internacionais após mortes e casos confirmados entre passageiros de diferentes países, reacendeu o debate sobre doenças emergentes e vigilância epidemiológica. Apesar da repercussão mundial, especialistas e autoridades de saúde afirmam que não há risco de epidemia ou pandemia no Brasil neste momento.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou casos relacionados à cepa Andes do hantavírus, variante rara identificada principalmente na Argentina e no Chile, conhecida pela possibilidade, ainda considerada incomum, de transmissão entre pessoas. O episódio levou países europeus a monitorarem passageiros e contatos próximos após a chegada do navio ao Atlântico Norte.
No Brasil, porém, o cenário é diferente. Segundo o Ministério da Saúde, a cepa Andes não circula no território nacional, e os casos brasileiros continuam associados à transmissão por roedores silvestres infectados, sem evidências de contágio entre humanos.
De acordo com levantamento divulgado neste mês, o Brasil registrou ao menos oito casos de hantavírus em 2026, distribuídos entre Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Minas Gerais confirmou recentemente a primeira morte pela doença neste ano, em um caso relacionado ao contato com roedores em área rural.
Para O Convergente, o pesquisador em Saúde Pública do Fiocruz Amazônia, Pritesh Lalwani, afirmou que o atual episódio internacional exige atenção, mas não deve gerar alarmismo.
“O hantavírus representa atualmente um risco que exige vigilância constante, mas não existe risco de epidemia ou pandemia a partir dos casos registrados no navio”, explicou o pesquisador.
Segundo Lalwani, a transmissão da doença ocorre principalmente pela inalação de partículas virais presentes na urina, fezes e saliva de roedores infectados. A transmissão entre pessoas é considerada extremamente rara e foi documentada sobretudo na variante Andes, identificada no surto internacional.
“O hantavírus não é uma doença transmitida normalmente de pessoa para pessoa. O que está acontecendo nesse caso específico é considerado atípico”, afirmou.
Mudanças climáticas e desmatamento elevam preocupação
O pesquisador alerta que fatores ambientais podem favorecer a aproximação entre roedores silvestres e populações humanas, aumentando o risco de doenças zoonóticas — aquelas transmitidas entre animais e humanos.
“Desmatamento, queimadas, expansão agrícola desordenada e mudanças climáticas alteram a dinâmica dos roedores e podem aumentar o contato deles com as pessoas”, destacou.
Segundo ele, esse cenário reforça a necessidade de ampliar o monitoramento epidemiológico especialmente em regiões de fronteira ambiental, como a Amazônia.
Lalwani coordena estudos ligados à vigilância de doenças transmitidas por roedores em áreas impactadas pelo avanço do desmatamento, incluindo municípios do sul do Amazonas e o entorno da BR-319.
Os projetos desenvolvidos pela Fiocruz Amazônia monitoram a circulação de hantavírus em comunidades humanas e em populações de roedores silvestres nos municípios de Manicoré, Lábrea e Humaitá.
“O objetivo é fortalecer a capacidade de detecção e melhorar a vigilância epidemiológica para preparar melhor a saúde pública diante das doenças emergentes”, explicou.
Combate à desinformação
Após a pandemia de Covid-19, especialistas observam aumento da ansiedade da população diante de notícias sobre surtos e doenças emergentes. Para Lalwani, a principal ferramenta para evitar pânico é a comunicação clara e baseada em fontes oficiais.
“Comparar automaticamente qualquer surto com uma pandemia gera medo desnecessário. É importante buscar informações em fontes confiáveis, como Ministério da Saúde, OPAS e OMS”, afirmou.
O pesquisador ressalta que combater desinformação não significa minimizar riscos, mas contextualizar corretamente as formas de transmissão e o nível real de ameaça.
“O hantavírus precisa de atenção e monitoramento, mas atualmente não existe evidência de risco de pandemia no Brasil”, concluiu.
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