Por Prof. Doutorando Francisco de Assis Mourão Junior
Os dados divulgados pelo IBGE em 2026 acenderam um alerta importante sobre a realidade econômica do Amazonas.
Mesmo possuindo um dos maiores polos industriais da América Latina, o estado continua entre os menores rendimentos domiciliares per capita do país.
Segundo o levantamento do IBGE:
- o rendimento domiciliar per capita médio do Amazonas ficou abaixo da média nacional;
- estados da Região Norte continuam concentrando alguns dos menores níveis de renda do Brasil;
- o cenário evidencia que crescimento econômico ainda não está sendo convertido, na mesma intensidade, em melhoria de renda da população.
E aqui surge uma das maiores contradições econômicas do país.
Enquanto a renda da população permanece pressionada, o Polo Industrial de Manaus continua movimentando cifras bilionárias.
Dados recentes da SUFRAMA mostram que o Polo Industrial de Manaus ultrapassou os R$ 200 bilhões em faturamento em 2025, consolidando um dos maiores desempenhos industriais da história recente da Zona Franca de Manaus.
Além disso:
- o faturamento do PIM em dólar superou US$ 26 bilhões;
- o modelo industrial manteve mais de 129 mil empregos diretos;
- setores como Duas Rodas, Eletroeletrônico e Bens de Informática lideraram o crescimento industrial.
Ou seja:
a economia cresce.
A indústria produz.
O faturamento aumenta.
Mas a pergunta continua ecoando:
por que parte significativa da população ainda sente dificuldade financeira no cotidiano?
A contradição econômica amazonense
O Amazonas possui uma economia estratégica para o Brasil.
O Polo Industrial de Manaus movimenta bilhões em produção, arrecadação e exportações, sendo responsável por uma parcela extremamente relevante da atividade econômica da Região Norte.
Entre os subsetores com maior participação no faturamento do PIM estão:
- Bens de Informática;
- Duas Rodas;
- Eletroeletrônico;
- Químico;
- Metalúrgico;
- Termoplástico.
A produção de motocicletas, por exemplo, ultrapassou 1,4 milhão de unidades, registrando crescimento significativo em relação ao ano anterior.
Mas existe um ponto crítico:
crescimento industrial não significa automaticamente distribuição eficiente de renda.
E o dado do IBGE mostra exatamente isso.
O dinheiro gira — mas não chega com a mesma força na população
O Amazonas produz riqueza.
Mas ainda enfrenta dificuldade histórica em transformar crescimento econômico em renda média elevada para a população.
Isso acontece porque desenvolvimento econômico depende de vários fatores:
- qualificação profissional;
- produtividade;
- infraestrutura;
- educação;
- inovação;
- ambiente de negócios;
- eficiência pública.
Não basta apenas existir faturamento industrial.
A população precisa sentir melhora real:
- no poder de compra;
- na renda familiar;
- na qualidade dos serviços públicos;
- no acesso à saúde;
- na mobilidade urbana;
- na qualidade de vida.
Economia forte sem distribuição cria exatamente o cenário atual:
crescimento nos indicadores…
e pressão no bolso da população.
Manaus cresce — e os desafios urbanos crescem junto
Manaus continua registrando crescimento populacional e expansão urbana acelerada. O próprio comportamento recente da cidade já demonstra aumento da pressão sobre infraestrutura, mobilidade, saneamento e serviços públicos.
E isso possui impacto direto na renda da população.
Porque quando:
- aluguel sobe;
- transporte encarece;
- energia pesa;
- alimentação aumenta;
- serviços ficam mais caros;
o salário perde força rapidamente.
O problema deixa de ser apenas renda nominal.
Passa a ser poder de compra real.
O Amazonas precisa diversificar sua economia
Vou direto ao ponto:
a Zona Franca de Manaus é essencial para o Amazonas.
Defender o modelo é defender emprego, arrecadação e desenvolvimento regional.
Mas o estado não pode depender exclusivamente da indústria incentivada.
O Amazonas precisa ampliar:
- bioeconomia;
- turismo sustentável;
- tecnologia;
- inovação;
- economia digital;
- cadeias produtivas regionais;
- capacitação profissional.
Porque nenhum estado sustenta crescimento de longo prazo dependendo de apenas um motor econômico.
Diversificação econômica virou questão estratégica.
Conclusão — o Amazonas precisa transformar produção em prosperidade regional
O dado do IBGE precisa ser encarado com seriedade.
Porque ele revela uma verdade econômica importante:
crescimento industrial, sozinho, não garante distribuição de renda.
O Amazonas possui uma economia estratégica.
Possui um dos maiores modelos industriais do país.
Possui arrecadação relevante.
Possui capacidade produtiva gigantesca através da SUFRAMA e do Polo Industrial de Manaus.
Mas ainda enfrenta o desafio de transformar essa força econômica em prosperidade mais ampla para sua população.
E aqui está o centro da discussão:
uma parcela significativa da riqueza produzida no Polo Industrial não permanece integralmente no estado.
O que efetivamente circula de forma mais direta no Amazonas acaba sendo:
- impostos;
- empregos;
- salários;
- parte dos serviços locais.
Enquanto isso, grande parte do lucro econômico retorna para matrizes empresariais, grupos nacionais e operações fora da região.
Isso não diminui a importância da Zona Franca.
Muito pelo contrário.
A ZFM continua sendo essencial para a economia amazonense, para a preservação da floresta e para a soberania econômica da Amazônia.
Mas o modelo econômico do Amazonas precisa entrar em uma nova fase:
- maior verticalização industrial;
- fortalecimento de fornecedores regionais;
- avanço tecnológico;
- bioeconomia;
- inovação;
- retenção de riqueza dentro da própria Amazônia.
Porque desenvolvimento verdadeiro acontece quando a riqueza produzida consegue permanecer, circular e gerar oportunidades dentro da região.
No fim…
o desafio do Amazonas não é apenas crescer.
É fazer o crescimento chegar na vida real da população.
Prof. Doutorando Francisco de Assis Mourão Junior
Economista – CORECON/AM-RR 2204
Coordenador do Curso de Ciências Econômicas – Universidade Nilton Lins
Colunista do Portal Convergente
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