Disputa presidencial de 2026 amplia articulações políticas e econômicas no Amazonas

Zona Franca, BR-319, segurança nas fronteiras e pauta ambiental colocam o estado no centro das discussões nacionais às vésperas da eleição

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A poucos meses das eleições presidenciais de 2026, o cenário político do Amazonas já começa a sentir de forma mais intensa os reflexos da disputa nacional. Com pré-candidaturas oficialmente lançadas tanto para o Governo do Amazonas quanto para o Senado Federal, partidos e lideranças locais ampliam articulações de olho no impacto que a corrida ao Palácio do Planalto pode provocar no estado.

Além das alianças partidárias e da formação de palanques regionais, temas como Zona Franca de Manaus (ZFM), BR-319, segurança pública, preservação ambiental e desenvolvimento econômico devem ocupar espaço estratégico durante a campanha eleitoral.

Na avaliação do cientista político Ludolf Waldmann Junior, a eleição presidencial influencia diretamente a organização política dos estados, especialmente na definição das alianças e dos grupos que irão caminhar juntos durante a disputa.

“As eleições presidenciais, que envolvem o principal cargo eletivo em disputa no país, têm um impacto muito importante na própria organização dos pleitos em nível estadual. A definição das alianças partidárias e a formação de coligações em nível nacional afetam diretamente o mesmo processo no âmbito estadual”, explicou.

Segundo ele, a formação dos palanques presidenciais no Amazonas tende a provocar aproximações estratégicas entre lideranças locais, principalmente diante da possibilidade de apoios cruzados em um eventual segundo turno.

“Os candidatos à presidência terão seus palanques no Amazonas e haverá sinalizações, de ambos os lados, de possíveis apoios em um eventual segundo turno, tanto em nível nacional quanto estadual”, afirmou.

Economia e Zona Franca entram novamente no radar eleitoral

Historicamente dependente das decisões do governo federal, o Amazonas deve ter a economia como uma das principais pautas da disputa presidencial, sobretudo em razão da importância da Zona Franca de Manaus para a geração de empregos e arrecadação no estado.

Para a economista Michele Aracaty, o resultado da eleição presidencial pode impactar diretamente o modelo econômico amazonense.

“O resultado da eleição presidencial pode trazer impactos significativos para a economia do Amazonas, especialmente considerando o modelo da Zona Franca de Manaus, que é o principal motor de crescimento da região e depende diretamente de políticas federais”, destacou.

Ela afirma que decisões ligadas à política fiscal, investimentos públicos e incentivos econômicos possuem reflexo direto sobre o desempenho da economia local.

“Além da Zona Franca, haverá reflexos em investimentos em infraestrutura, assim como na busca por um equilíbrio entre a proteção ambiental e a exploração sustentável dos recursos naturais”, acrescentou.

Apesar disso, Ludolf Waldmann avalia que a Zona Franca tende a ser tratada com cautela pelos candidatos à Presidência, principalmente por conta da disputa fiscal envolvendo outros estados.

“A Zona Franca pode ganhar algum destaque caso candidatos queiram enfatizar propostas econômicas mais liberais, voltadas à redução de benefícios fiscais. Ainda assim, não acredito que seja um tema que ganhará centralidade no debate”, afirmou.

Segundo ele, qualquer posicionamento mais radical sobre o modelo econômico amazonense pode gerar desgaste eleitoral.

“Defender medidas que enfraqueçam a Zona Franca inevitavelmente afetará a posição dos candidatos no estado e de seus aliados locais. Por outro lado, uma defesa muito enfática também pode gerar resistência em outros estados ou junto ao eleitorado mais liberal”, pontuou.

BR-319 reaparece como símbolo do embate entre desenvolvimento e preservação

Outro tema que volta ao centro do debate eleitoral é a BR-319, rodovia que liga Manaus a Porto Velho e que, há anos, divide opiniões entre defensores do desenvolvimento regional e ambientalistas.

Para Michele Aracaty, a estrada representa um dos maiores dilemas econômicos do Amazonas.

“A BR-319 é um dos assuntos mais importantes para a economia regional, já que sua implementação tem o potencial de impulsionar ou estagnar o desenvolvimento econômico do Amazonas”, afirmou.

A economista destaca que a obra poderia reduzir o isolamento logístico de Manaus, mas alerta para os possíveis impactos ambientais da pavimentação.

“A construção resolveria o problema do isolamento terrestre de Manaus, contudo, também traz à tona preocupações ambientais que podem ocasionar prejuízos bilionários”, disse.

Waldmann acredita que a rodovia deve aparecer mais fortemente no discurso regional dos candidatos do que no debate nacional.

“Fora da região, as visões sobre a obra tendem a ser mais controversas, especialmente quando se consideram os possíveis impactos ambientais”, explicou.

Ainda assim, ele avalia que o tema possui forte apelo eleitoral dentro do Amazonas.

“Os candidatos não deverão concentrar tanta atenção no tema em âmbito nacional, mas certamente irão abordá-lo durante agendas e campanhas no estado”, afirmou.

Segurança nas fronteiras ganha força no Amazonas

Além da economia e infraestrutura, a segurança pública deve ocupar papel importante na campanha eleitoral no Amazonas, principalmente devido à posição estratégica do estado nas rotas internacionais do tráfico de drogas.

Segundo Waldmann, o Amazonas possui relevância geopolítica dentro da chamada rota amazônica do narcotráfico.

“Atualmente, o Amazonas é um ponto importante na rota amazônica do tráfico internacional de drogas, funcionando como local de escoamento e trânsito de produtos oriundos da Colômbia e do Peru, com participação significativa das maiores facções criminosas do Brasil”, destacou.

Na avaliação do cientista político, pautas relacionadas ao controle das fronteiras e combate ao crime organizado podem ganhar espaço principalmente em discursos mais conservadores durante a disputa presidencial.

Amazônia segue estratégica, mas perde força eleitoral

Embora a pauta ambiental continue associada ao Amazonas perante o Brasil e a comunidade internacional, especialistas avaliam que o tema não deve mobilizar o eleitorado com a mesma intensidade observada nas eleições de 2022.

“Naquele momento, o desmatamento e os crimes ambientais estavam em forte crescimento, o que transformou a pauta ambiental em um tema de grande repercussão política”, lembrou Waldmann.

Agora, segundo ele, a redução recente nos índices de desmatamento diminuiu parte da urgência do debate.

“Embora a temática ambiental continue sendo muito relevante, o assunto já não é percebido como tão urgente, o que reduz seu potencial de atração de votos”, afirmou.

Ele também aponta que, regionalmente, a pauta ambiental costuma enfrentar resistência quando não vem acompanhada de propostas econômicas.

“Há uma percepção disseminada de que a pauta ambiental prejudica o crescimento econômico”, disse.

Michele Aracaty reforça que as políticas ambientais continuam influenciando diretamente os investimentos na região amazônica.

“A política ambiental direcionada à Amazônia exerce um impacto substancial nos investimentos e na economia da região, funcionando como um agente de transformação capaz de atrair ou repelir capitais”, afirmou.

Bastidores já revelam alinhamentos políticos no estado

Mesmo antes do início oficial da campanha presidencial, os bastidores políticos do Amazonas já demonstram movimentos de alinhamento entre lideranças estaduais e grupos nacionais.

Segundo Waldmann, setores da direita no Amazonas já buscam aproximação com o senador Flávio Bolsonaro, diante da força eleitoral do bolsonarismo em Manaus.

Por outro lado, ele aponta a manutenção da articulação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o senador Omar Aziz e o senador Eduardo Braga.

“Há algumas movimentações, mas nada ainda tão fora do que já se esperava dentro do cenário político local”, avaliou.

Com o avanço das articulações eleitorais e a consolidação dos palanques regionais, a tendência é que o Amazonas ganhe espaço cada vez maior no debate presidencial, especialmente em temas ligados à Amazônia, economia regional e segurança nas fronteiras.

Quem são os especialistas ouvidos na reportagem

Ludolf Waldmann Junior é professor adjunto de Ciência Política do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Mestre em Ciência Política e Bacharel em Ciências Sociais com ênfase em Ciência Política pela mesma instituição. 

Michele Aracaty é economista, pós-doutora em Desenvolvimento Regional e docente do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

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