Por Erica Lima
Belém do Pará, 2025. A cidade que deveria ser a porta de entrada da Amazônia para o mundo se prepara para receber a COP30. O governo federal já despejou cifras que beiram R$ 5 bilhões, dinheiro suficiente para modernizar uma capital inteira, transformar ruas em avenidas largas, acabar com palafitas, cobrir igarapés com parques e ciclovias, garantir saneamento básico e saúde de qualidade para todos. Um valor que, se bem gerido, deixaria um legado de décadas para quem mora ali.
Mas basta atravessar uma ponte para ver a verdade nua: palafitas equilibradas sobre igarapés fétidos, abarrotados de lixo; crianças brincando no esgoto; famílias vivendo à beira da fome; gente dormindo nas calçadas, mendigando sob o sol e a chuva. O cenário não é o de uma capital que recebe bilhões, é o retrato de um país subdesenvolvido, marcado não pela falta de recursos, mas pela falta de gestão, pela corrupção sistêmica e pela indiferença de quem governa.
O dinheiro existe. A cidade, não.
No lugar de um projeto de futuro, temos um evento para inglês ver, literalmente. Hotéis e imóveis com preços surreais, diárias que chegam a R$ 15 mil, enquanto delegações de países pobres se desesperam porque não conseguem pagar a hospedagem. Obras com suspeita de superfaturamento, prazos estourados, licitações obscuras e nenhuma prestação de contas transparente.
E para quê? Para que Belém seja cenário de discursos polidos sobre o clima, recheados de palavras como “sustentabilidade” e “descarbonização”, mas que não chegam nem perto das necessidades de quem vive no calor sufocante e no cheiro ácido dos igarapés poluídos.
Como diria George Orwell, “quanto mais uma sociedade se afasta da verdade, mais ela odeia aqueles que a dizem”. E a verdade é que a COP30 não é pelo Brasil, e muito menos pelo clima. É um palco global onde se vendem promessas verdes, enquanto, na prática, se alimenta o velho banquete de poder, corrupção, ganância e hipocrisia.
O Brasil carrega o maior bioma terrestre do planeta: a Amazônia Legal, onde Amazonas e Pará são guardiões das últimas grandes etnias indígenas do mundo. Povos que deveriam estar no centro das decisões sobre o futuro do clima, mas que seguem invisíveis, ameaçados por invasões, desmatamento, garimpo e abandono estatal.
Chico Mendes já dizia que “ecologia sem luta de classes é jardinagem”. E aqui, a luta não é pelo planeta, é pelo controle político e econômico da floresta. Hans Jonas, no “Princípio Responsabilidade”, alertava que a sobrevivência humana exige responsabilidade com as gerações futuras. Mas quem está no comando parece mais preocupado com a próxima eleição do que com o próximo século.
A COP30, que deveria ser a arena para acordos históricos contra a crise climática, virou um festival de vaidades e barganhas políticas. A escolha do Pará não foi obra do acaso: teve mais a ver com a costura eleitoral de Helder Barbalho em 2022, garantindo palanque e votos para Lula, do que com a lógica ambiental.
E o legado? Qual herança deixaremos para as futuras gerações? No quesito climático, nenhuma. No quesito social, pior ainda. Quando os líderes internacionais partirem, levando consigo seus discursos e flashes, Belém continuará afundada nas mesmas mazelas: lixo nos rios, miséria nas ruas, violência nas esquinas, um povo sem voz e sem vez.
Norberto Bobbio já dizia que “a distância entre o que é e o que deveria ser é o lugar onde a política se perde”. E Karl Marx lembraria que a história se repete: primeiro como tragédia, depois como farsa. Aqui, vivemos a farsa, um país que vende ao mundo a imagem de defensor do clima, enquanto deixa sua própria gente à margem da sobrevivência.
A crise climática é real, mas no Brasil ela convive com uma crise ainda mais cruel: a moral. O Armagedon é aqui, e ninguém pode negar. Todos morreremos do próprio veneno, o povo, por ser inocente e conivente; os políticos corruptos, pelo gole maior de poder e mentira. Nunca foi pelo clima.
No Norte, sabemos que a maré sobe e desce, mas o que ela leva, raramente devolve. E quando as luzes da COP30 se apagarem, Belém ficará no escuro, com as mesmas palafitas, o mesmo lixo, a mesma pobreza. O resto é discurso.
Quem é Érica Lima?
Érica Lima é mestre em Saúde, Sociedade e Endemias na Amazônia (Fiocruz Amazônia/UFAM), jornalista com registro profissional (DRT), apresentadora do Debate Político em parceria com a Rede Onda Digital (canal 8.2), diretora-executiva do portal O Convergente e escritora associada à AJEB/AM.
Mais do que títulos, carrega a missão de comunicar onde o silêncio impera nos rincões de uma Amazônia muitas vezes tratada como margem, mas que é centro de vida, de luta e de saber. Atua onde a estrada não chega, construindo pontes entre dados e vozes, entre o invisível e o essencial. Fomenta o protagonismo de mulheres que, mesmo sem diplomas, são catedráticas da vida e estrategistas na arte de viver.
Com expertise em pesquisa qualitativa eleitoral, desvela percepções, desvenda territórios simbólicos e transforma escutas em leitura crítica do presente político.
Insiste em caminhar entre rios, narrativas e resistências, acreditando que a política, quando atravessada pela escuta e pela palavra, é também poesia que transforma realidades.


