Além da composição eleitoral: como Serafim pode influenciar a chapa de Roberto Cidade

Especialista analisa papel do candidato a vice-governador na disputa eleitoral

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A escolha de um vice-governador costuma aparecer, durante a campanha eleitoral, associada à construção de alianças, equilíbrio partidário e ampliação de bases eleitorais. Mas, para além da composição da chapa, o cargo possui função constitucional e pode ganhar peso político e administrativo a depender da relação construída com o governador.

No Amazonas, a chapa formada por Roberto Cidade (União Progressista) e Serafim Corrêa (PSB) reúne dois perfis distintos. De um lado, Cidade representa uma geração mais nova da política estadual. Do outro, Serafim chega à disputa com uma trajetória que inclui passagens pela Câmara Municipal de Manaus, Prefeitura da capital, Assembleia Legislativa e secretarias de governo.

A composição, registrada pela coligação União pelo Amazonas, repete a parceria iniciada em maio deste ano, quando Cidade e Serafim foram eleitos governador e vice-governador em eleição indireta realizada pela Assembleia Legislativa, após as renúncias do então governador Wilson Lima e do vice Tadeu de Souza.

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Agora, com a dupla submetida ao voto popular, a presença de Serafim levanta uma questão que vai além do desenho eleitoral: qual papel um vice pode efetivamente exercer dentro de um governo?

O que faz um vice-governador?

Do ponto de vista constitucional, a principal atribuição do vice-governador é substituir o governador em situações previstas em lei, como ausências, viagens, impedimentos ou vacância definitiva do cargo.

O analista político Helso Ribeiro explica que as Constituições estaduais seguem, nesse ponto, uma lógica semelhante à Constituição Federal.

“O papel do vice, legalmente, é substituir o titular no caso de vacância do cargo, em ausência, viagens ou impedimentos. Esse é o papel oficial”, explicou.

Isso não significa, porém, que o vice precise permanecer restrito a funções protocolares. Segundo Helso, ele pode exercer influência política como conselheiro do governador e participar da formulação de decisões estratégicas.

Para assumir responsabilidades administrativas formais, no entanto, é necessário ocupar uma função específica na estrutura de governo.

“Ele pode ser um conselheiro do governador e de secretários. Mas, para exercer um cargo formal, precisa ser nomeado para uma pasta, uma secretaria, empresa pública ou outra função desse tipo”, acrescentou.

Por que Serafim?

A escolha de Serafim Corrêa também pode ser analisada a partir da experiência acumulada ao longo de décadas de vida pública.

Aos 79 anos, ele é economista, advogado tributarista e auditor fiscal. Foi vereador de Manaus por dois mandatos, prefeito da capital entre 2005 e 2008, deputado estadual entre 2015 e 2022 e secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Amazonas.

Durante a passagem pela Prefeitura de Manaus, sua gestão inaugurou a Maternidade Municipal Dr. Moura Tapajóz, primeira maternidade administrada diretamente pelo município. Também participou da implantação municipal do ProJovem e da estruturação da execução local do Bolsa Família e do Cadastro Único.

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Na área de mobilidade, sua administração entregou o Complexo Viário Miguel Arraes, conhecido como viaduto da Recife, além de ter iniciado o projeto do Complexo Viário do Coroado. A gestão também implantou mudanças no transporte coletivo, como o cartão PassaFácil e a integração temporal.

Posteriormente, como deputado estadual e integrante do Executivo, Serafim direcionou parte de sua atuação para temas relacionados à tributação, Zona Franca de Manaus, desenvolvimento econômico e atração de investimentos.

Para Helso Ribeiro, esse conjunto de experiências ajuda a explicar a presença do ex-prefeito na chapa.

“Ele é economista, advogado, político tradicional, já foi vereador, deputado estadual, prefeito da cidade. É inquestionável que tenha experiência. Também é um dos nomes com conhecimento quando se trata de Polo Industrial e Zona Franca”, avaliou.

Na análise do especialista, o currículo de Serafim funciona também como elemento de qualificação política e administrativa da composição eleitoral.

Experiência pode virar função de governo?

A questão central não está apenas no que Serafim representa durante a campanha, mas em como essa experiência poderia ser utilizada em um eventual novo mandato.

Helso considera pouco provável que o vice fique restrito a acompanhar formalidades institucionais ou substituir o governador em ausências.

“Eu particularmente não vejo o Serafim apenas num papel protocolar. Acho que, em um segundo mandato, além de conselheiro, ele tem expertise para ocupar pastas, principalmente ligadas à economia e à administração”, afirmou.

Áreas relacionadas a desenvolvimento econômico, finanças públicas, Zona Franca e gestão administrativa aparecem como possibilidades compatíveis com sua trajetória.

Ainda assim, eventual atribuição formal dependeria de decisão do governador e da estrutura administrativa adotada em um novo mandato.

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Juventude e experiência na mesma chapa

A diferença de gerações também aparece como um dos elementos políticos da composição. Helso avalia que a união entre Cidade e Serafim busca combinar renovação e experiência.

O especialista também destaca o fato de o vice pertencer ao PSB, legenda que mantém vínculos nacionais com a base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e tem o vice-presidente Geraldo Alckmin entre seus principais nomes.

“É uma chapa que juntou alguém mais novo, que é o Cidade, com alguém já de quase 80 anos, que é o Serafim. É juventude com maturidade”, afirmou.

Para o analista, a composição com partidos diferentes também pode ampliar o alcance eleitoral da candidatura. “Não é uma chapa puro-sangue. Você acaba alcançando outro segmento do eleitorado que talvez Roberto Cidade sozinho não alcançasse”, avaliou.

O vice pesa no voto?

O Convergente já havia levado essa pergunta às ruas antes do início da fase mais intensa da campanha. Entre os eleitores ouvidos, a experiência política de Serafim e sua capacidade de dialogar com um público que acompanha há mais tempo a política amazonense apareceram como argumentos recorrentes.

O produtor cultural João Costa avaliou que a presença do ex-prefeito pode ajudar Cidade a alcançar um eleitorado diferente. “Se ele escolheu o Serafim, é também isso que ele está buscando. Esse eleitorado que tem mais tempo de vida, aquela galera mais antiga. Ter alguém mais velho junto com ele agrega esse público”, afirmou.

O servidor público André Félix também apontou a experiência como um possível ativo eleitoral. “Acredito que a escolha do Serafim agrega muita experiência à chapa. Ele já foi prefeito de Manaus, deputado estadual, vereador e tem uma longa trajetória na política amazonense”, disse.

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Foto (Ranyere Frota)

Para o educador Eduardo Travessa, a escolha aproveita o capital eleitoral acumulado por Serafim ao longo da carreira. “Ele foi esperto em pegar um nome forte na política amazonense. Acredito que ele quer buscar os votos das pessoas que já depositaram a confiança no Serafim”, afirmou.

Ana Gomes também associou a composição à tentativa de equilibrar perfis. “Acredito que essa escolha é principalmente pela bagagem do Serafim na política amazonense. Está muito ligada à imagem de uma candidatura de renovação aliada à segurança e à experiência”, avaliou.

A função constitucional do vice é objetiva: substituir o governador quando necessário. Politicamente, porém, o cargo pode ganhar dimensões diferentes conforme o perfil escolhido e o espaço concedido dentro da administração.

No caso de Serafim Corrêa, sua experiência como prefeito, parlamentar, gestor e especialista em temas econômicos oferece à chapa de Roberto Cidade um componente que vai além da formalidade eleitoral.

Caso consigam vencer as eleições, caberá ao futuro governo definir até que ponto essa experiência será transformada em participação efetiva na administração.

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