Amazonas: será que é tão difícil governar com humanidade ou será que simplesmente ninguém quer?

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Por Érica Lima Barbosa Aguiar (@ericapesquisas)

Depois de tantos anos ouvindo pessoas em pesquisas qualitativas, tenho me feito uma pergunta que parece simples, mas talvez diga muito sobre a crise de representação que vivemos no Amazonas:

Afinal, que político o amazonense quer?

E, antes que alguém imagine uma resposta ideológica, partidária ou cheia de teorias, eu diria que o desejo é muito mais humano.

O amazonense parece querer alguém que olhe nos seus olhos.

Alguém que não chegue perto apenas quando precisa do voto. Que não trate o cidadão de cima para baixo. Que não carregue no rosto a impaciência de quem acha que ouvir o povo é um favor.

Pode parecer pouco. Mas talvez seja exatamente porque estamos tão acostumados a esperar pouco da política que humanidade começou a parecer uma qualidade extraordinária.

Nas pesquisas, aparecem palavras diferentes, mas sentimentos muito parecidos: presença, honestidade, transparência, compromisso, cumprimento da palavra, trabalho e resultado.

Um participante disse que o político deveria ter conexão com os trabalhadores e com a população, mas que essa ligação deveria permanecer “não só na eleição”. Outro resumiu em três palavras: “prometendo e cumprindo”. E outro respondeu que, antes de votar, queria simplesmente “ver se ele já fez”.

É uma frase pequena, mas enorme politicamente:

“Ver se ele já fez.”

Porque o eleitor está cansado de ouvir.

Ele quer ver.

E talvez esteja também cansado de determinados tipos de políticos.

Do político arrogante.

Do político mal-humorado.

Do político cuja fala é permanentemente agressiva.

Do político que confunde autoridade com superioridade.

Do político que entra em uma sala como se todos lhe devessem reverência.

Do político que fala muito e escuta pouco.

Nas transcrições, a agressividade chega a aparecer como razão direta para rejeitar um nome. Uma participante diz que considera determinado político “bem agressivo” e que isso a incomoda tanto que ela nem chega a querer conhecer suas propostas.

Isso é importante.

Porque política não é feita apenas do que se fala.

É feita também de como se olha, como se ouve, como se responde e como se trata quem não pode oferecer nada em troca.

A arrogância política talvez seja justamente esse conjunto de sinais: o semblante fechado, a impaciência, a fala hostil, o ar de superioridade, a sensação de que o cargo tornou aquela pessoa maior do que as demais.

E o eleitor percebe.

Talvez nem sempre consiga transformar isso em teoria política, mas sente.

Sente quando é tratado como número.

Sente quando alguém só aperta sua mão porque existe uma câmera por perto.

Sente quando aquele abraço é campanha e não afeto.

Sente quando o político atravessa a comunidade sem enxergá-la.

Em outro grupo, os entrevistados pediram literalmente que os governantes tivessem um “olhar cuidadoso”, que pensassem mais na população e que fossem capazes de “olhar para o povo mesmo”.

E talvez “olhar para o povo” seja muito mais profundo do que parece.

Porque há dores que não cabem em uma planilha.

Experimente dizer para uma mãe que espera meses por um exame do filho que o orçamento está equilibrado.

Experimente falar de indicadores para quem está em uma emergência segurando a mão de alguém que ama, sem saber se haverá médico, leito ou atendimento.

Experimente explicar burocracia ao filho que vê a mãe piorar e sente o desespero de imaginar que poderia perdê-la enquanto espera por um serviço público.

Quando a doença entra dentro de casa, saúde deixa de ser estatística.

Tem nome. Tem rosto. Tem medo. Tem família.

Em um dos grupos, uma mãe contou que a filha perdeu progressivamente as forças até precisar de cadeira de rodas. Disse que, mesmo depois de muitos exames, ainda não havia diagnóstico e que alguns procedimentos necessários nem eram oferecidos pelo SUS, obrigando a família a buscar ajuda como podia.

Em outro relato, uma mulher dizia esperar havia seis meses por uma tomografia ocular.

É disso que estamos falando quando pronunciamos a palavra política.

Não é apenas Brasília.

Não é apenas Assembleia.

Não é apenas Câmara.

Não é apenas plenário, discurso, solenidade ou postagem.

Política é a distância entre uma pessoa e o exame de que ela precisa.

É o ônibus que não passa.

É a criança que não consegue vaga na escola.

É a rua que alaga.

É a mulher que não consegue emprego.

É o jovem que estuda, se qualifica e descobre que talvez precise sair do Amazonas porque aqui não encontra oportunidade na própria área.

É o trabalhador que passa horas no trânsito para percorrer uma distância relativamente pequena.

É quem vive no interior e sabe que, no Amazonas, alguns quilômetros podem significar horas de rio.

Os grupos repetem saúde, segurança, educação, emprego, renda, transporte, saneamento, infraestrutura e serviços públicos. E a síntese qualitativa aponta algo muito claro: o cotidiano virou a principal régua com que o eleitor mede a política.

Isso deveria produzir uma profunda reflexão sobre a nossa classe política.

O Amazonas não é pobre em potencial.

Temos uma Zona Franca que movimenta bilhões, um dos maiores polos industriais da América Latina, biodiversidade, riquezas naturais, conhecimento científico, universidades, institutos de pesquisa e um povo que aprendeu historicamente a sobreviver às dificuldades.

Somos um povo aguerrido.

Mas ainda convivemos com desigualdade, pobreza, deficiência de saneamento, problemas de saúde, limitações educacionais, baixa qualificação em diversas áreas estratégicas e um enorme desafio tecnológico e logístico.

Existe algo profundamente contraditório nisso.

Como podemos produzir tecnologia avançada dentro das fábricas e ainda não fazer a modernidade chegar plenamente à vida das pessoas?

Como podemos possuir uma economia tão relevante e continuar vendo famílias desesperadas por um exame?

Como podemos falar tanto em futuro quando tantos jovens ainda procuram oportunidades que outros estados já oferecem?

Como podemos aceitar que a geografia do Amazonas continue funcionando quase como uma sentença para quem nasceu longe de Manaus?

Porque aqui distância não é apenas distância.

No Amazonas, distância pode significar ausência de médico.

Pode significar internet precária.

Pode significar uma criança estudando com limitações que seriam inadmissíveis em outros centros.

Pode significar alguém precisar deixar sua comunidade para buscar tratamento.

Pode significar abandono.

Por isso me chama atenção quando nossos parlamentos gastam energia política com projetos que, embora possam possuir valor simbólico para determinados grupos, provocam uma pergunta inevitável sobre prioridade.

Não estou dizendo que cultura, religião, homenagens ou datas comemorativas não tenham importância.

Estou perguntando outra coisa:

diante da dimensão dos nossos problemas, estamos usando a política para enfrentar aquilo que realmente transforma a vida da população?

Quantos grandes projetos discutimos para a formação tecnológica dos nossos jovens?

Quantos enfrentam estruturalmente o isolamento dos municípios?

Quantos colocam metas para reduzir filas na saúde?

Quantos discutem qualificação profissional conectada ao Polo Industrial de Manaus?

Quantos pensam o Amazonas daqui a vinte anos?

Quantos deputados e vereadores conseguem mostrar, de forma simples, qual transformação concreta seu mandato produziu na vida do cidadão?

Porque essa é outra mensagem forte das pesquisas: o eleitor pode até gostar de alguém, mas está cobrando entrega. A dimensão “resultado” aparece com enorme peso, e mesmo quem demonstra simpatia por determinado político pergunta o que ele efetivamente fez.

E talvez aqui esteja o político que o amazonense procura.

Não é necessariamente o homem ou a mulher mais eloquente.

Não é o que grita mais.

Não é o que parece mais poderoso.

Não é o que anda cercado de pessoas abrindo caminho.

Talvez seja exatamente o contrário.

É aquele que consegue chegar perto sem fazer o povo se sentir pequeno.

É competente, mas não arrogante.

Tem autoridade, mas não precisa humilhar.

Tem firmeza, mas não transforma agressividade em personalidade.

Sabe falar, mas sobretudo sabe ouvir.

Conhece orçamento, gestão, tecnologia e planejamento, mas não perdeu a capacidade de se emocionar diante da dor humana.

É alguém que entra num hospital e não enxerga apenas equipamentos: enxerga famílias.

Que visita uma escola e não vê apenas paredes pintadas: vê crianças tentando construir um futuro.

Que chega ao interior e entende que aquelas pessoas não estão pedindo favor.

Estão exigindo o direito de pertencer ao Amazonas com a mesma dignidade de quem vive na capital.

Os próprios grupos ajudam a desenhar esse perfil: experiência, capacidade de entrega, propostas, honestidade, proximidade, renovação e conhecimento dos problemas reais aparecem combinados.

Ou seja: o eleitor não está pedindo um santo.

Nem um salvador.

Está pedindo um bom político.

Alguém tecnicamente preparado e humanamente acessível.

Alguém que esteja no bairro antes da campanha e continue depois dela.

Que consiga sentar ao lado de uma senhora simples e ouvi-la até o fim.

Que olhe para uma mãe desesperada e não responda com arrogância institucional.

Que entenda que, para quem está sofrendo, a dor nunca é pequena.

Talvez pareça utopia.

Especialmente porque parte da população já fala da política com desalento. Nos grupos aparecem frases duras: “eles prometem e depois não cumprem”; “eu quase não vejo os políticos no bairro”; “toda vez que a gente vota eles não fazem nada”.

Esse talvez seja o dado mais preocupante de todos.

Não é apenas a rejeição a um candidato. É o risco da rejeição à própria política.

Quando o cidadão deixa de acreditar que alguém possa representá-lo, a democracia perde muito mais do que um voto.

Perde confiança.

Por isso, talvez a pergunta deste artigo não seja “qual político o Amazonas quer?”.

Talvez seja:

ainda existe espaço para um político que seja gente da gente?

Eu quero acreditar que sim.

Um político que olhe nos olhos.

Que conheça as dores.

Que não tenha vergonha de demonstrar humanidade.

Que não confunda poder com arrogância.

Que consiga ser firme sem ser agressivo. 

Que tenha preparo sem se sentir superior. 

Que entenda que mandato não é pedestal.

E, principalmente, que saiba que cada número apresentado em um relatório público representa uma vida.

Atrás de uma fila existe alguém esperando.

Atrás de uma estatística de desemprego existe uma família.

Atrás de um exame atrasado existe medo.

Atrás de uma estrada, de um rio, de uma comunidade distante, existe um amazonense que também precisa ser visto.

Será mesmo utopia querer isso?

Não deveria ser.

Talvez tenhamos apenas nos acostumado tanto com políticos distantes que passamos a considerar extraordinário aquilo que deveria ser o princípio básico da vida pública: servir.

O Amazonas não precisa de políticos maiores que o povo.

Precisa de políticos à altura do seu povo.

Quem é Érica Lima?

Érica Lima Barbosa Aguiar é pesquisadora especializada em pesquisa qualitativa há mais de 15 anos, com atuação em comportamento eleitoral, análise de discursos, opinião pública, percepções sociais e diagnóstico de imagem política.

Mestra em Saúde, Sociedade e Endemias na Amazônia pela Fiocruz Amazônia/UFAM, é jornalista, escritora, empresária, bacharel em Serviço Social e especialista em História.

É CEO do portal  O Convergente, palestrante e professora convidada de pós-graduação.

Atualmente, ocupa o cargo de primeira vice-presidente da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Seção Amazonas (AJEB-AM) e integra a diretoria de Comunicação da Rede Sem Fronteiras – Núcleo Amazonas.

Sua trajetória é marcada pela escuta, interpretação dos discursos e compreensão do comportamento humano, utilizando a pesquisa como instrumento de análise da realidade social e política.

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