O Amazonas precisa de uma nevasca para reconhecer a crise climática?

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Por Érica Lima Barbosa Aguiar

Você conseguiu respirar bem hoje?

Olhe ao redor antes de responder. Há uma árvore na rua por onde você caminha? Se trabalha sob o sol e leva uma marmita, existe sombra para se sentar e comer? Quando a fumaça chega à sua casa, para onde você vai?

Talvez você conheça a garganta seca, o nariz irritado, os olhos ardendo e aquela tosse que parece acompanhar o dia inteiro. A fumaça das queimadas pode provocar irritação e agravar doenças respiratórias. Se a tosse vier com sangue, é preciso procurar atendimento para investigar a causa.

Começo pelo corpo porque é nele que muita gente percebe a crise antes de ouvir falar dela em uma conferência ou num debate eleitoral. A fumaça não pede título de eleitor para entrar em casa. O calor não espera o fim da campanha para atingir quem trabalha na rua.

Os dados também exigem atenção. Em 2024, o Amazonas registrou 25.499 focos de calor, o maior número da série analisada pelo governo estadual desde 2003. No mesmo ano, o Rio Negro chegou a 12,66 metros em Manaus, superando o recorde de baixa de 2023. Até agosto de 2024, a Defesa Civil já havia contabilizado 77.499 famílias afetadas pela estiagem.

Há avanços que precisamos reconhecer. O desmatamento no Amazonas caiu depois de atingir 2.594 km² em 2022; o dado consolidado do Inpe aponta 979 km² em 2025. Os focos de calor também diminuíram naquele ano. Mas uma melhora nos indicadores não devolve imediatamente a floresta perdida nem protege, por si só, uma comunidade da próxima seca. A prevenção faz mais falta quando esquecemos o que aconteceu na estiagem anterior.

A COP30, realizada em Belém, reforçou a necessidade de adaptação aos impactos climáticos. No Amazonas, essa palavra precisa ter endereço: a comunidade que pode ficar isolada pela vazante, o bairro que precisa de sombra, a unidade de saúde que deve estar preparada para atender quem sofre com calor e fumaça.

É com essa realidade em mente que avalio as posições dos candidatos. Na entrevista à Rede Amazônica, Maria do Carmo afirmou que seca e cheia não seriam, por si, uma crise climática e citou tufões, furacões e nevasca como exemplos do que consideraria uma crise no Amazonas. Ela também defendeu planejamento para apoiar os ribeirinhos. Roberto Cidade, por sua vez, editou um decreto preventivo de emergência climática e ambiental, voltado à preparação para estiagem, incêndios e ondas de calor. Reconheço o valor de agir antes que a situação se agrave, mas o decreto precisa produzir resultados verificáveis, com despesas transparentes e apoio efetivo às comunidades. Maria do Carmo questionou a medida e pediu sua suspensão na Justiça. Fiscalizar gastos é legítimo e necessário; minha crítica é ao alcance desse pedido diante da urgência de preparar o estado. Não precisamos escolher entre controle do dinheiro público e proteção da população. Precisamos exigir os dois.

Secas e cheias são conhecidas por quem vive aqui. Isso não significa que possamos ignorar a intensidade dos eventos recentes ou tratar todo sofrimento como parte inevitável da paisagem. A estiagem pode voltar a cada ano. O abandono não deveria voltar com ela.

Por isso defendo que a questão climática deixe de ser uma resposta improvisada e se torne um programa contínuo do estado e das prefeituras, em Manaus e nos outros 61 municípios. No curto prazo, é preciso monitorar os riscos, combater o fogo e antecipar água, medicamentos, transporte e equipes de saúde. No médio prazo, recuperar áreas degradadas e arborizar ruas, escolas e pontos de ônibus. No longo prazo, proteger a floresta, cuidar das árvores plantadas e manter metas, orçamento e prestação de contas que atravessem governos.

Árvore não é enfeite de cidade. É sombra para quem trabalha, proteção para quem caminha e parte do cuidado com a saúde. Plantar uma muda para a fotografia e abandoná-la depois não é política pública. O resultado aparece quando ela cresce e permanece viva.

Norberto Bobbio nos lembra que o desafio dos direitos está em protegê-los. É nisso que penso ao falar de saúde e meio ambiente no Amazonas. Não basta afirmar que as pessoas têm esses direitos. É preciso fazer com que a água, o atendimento e a proteção cheguem antes do desespero.

Agora volto a perguntar: onde está a sombra na sua rua? Seu município está se preparando para a próxima estiagem? Você sabe o que o estado planejou para a sua região?

Olhe ao redor, converse sobre o que está acontecendo e cobre respostas de quem governa e de quem quer governar. Compartilhe este artigo e me conte: como o calor, a fumaça ou a seca já afetaram a sua vida?

Mini biografia

Erica Lima Barbosa Aguiar é escritora, jornalista com registro profissional (DRT) e bacharel em Serviço Social. Mestre pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e pela Fiocruz Amazônia, atua há mais de 15 anos com pesquisa, com especialização e ampla experiência em pesquisa qualitativa. É articulista, empresária e diretora-executiva do O Convergente, além de vice-presidente da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Seção Amazonas (AJEB-AM) e integrante da diretoria da Rede Sem Fronteiras. Sua trajetória reúne comunicação, pesquisa e literatura, com atuação voltada à análise social, à produção de conhecimento e à compreensão das transformações da sociedade.

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