A eleição já está definida entre Lula e Flávio? Erica Aguiar e Helso Ribeiro analisam o cenário

Pesquisas mantêm os dois candidatos na dianteira, mas crescimento de Augusto Cury, rejeição elevada e votos ainda em movimento deixam questões abertas na corrida presidencial

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A um mês das eleições, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ocupam as duas primeiras posições nas pesquisas nacionais e aparecem como os nomes mais competitivos para chegar ao segundo turno. Mas a polarização, por si só, não significa que a eleição esteja definida.

Pesquisa PoderData/Aya divulgada nesta quinta-feira (3) mostra Lula com 37% das intenções de voto e Flávio com 34%, em empate técnico pela margem de erro. Augusto Cury (Avante) aparece em terceiro, com 10%, seguido por Renan Santos (Missão), com 3%, e Ronaldo Caiado (PSD), com 2%.

No eventual segundo turno, o equilíbrio aumenta: Flávio registra 45% e Lula 44%, também em empate técnico.

Outro levantamento recente reforça a disputa apertada. Na Quaest divulgada na quarta-feira (2), Lula aparece com 42% contra 41% de Flávio em uma simulação de segundo turno. A pesquisa também registrou rejeição de 55% ao candidato do PL e de 53% ao petista.

Os institutos adotam metodologias próprias e os percentuais não devem ser tratados como se fossem parte de uma mesma pesquisa. Ainda assim, os números mostram dois favoritos, uma terceira candidatura em crescimento e um eleitorado que ainda pode se movimentar.

Arte: O Convergente, produzida com auxílio de IA, com dados do PoderData/Aya

Polarização forte, mas voto nem sempre consolidado

Para Erica Aguiar, pesquisadora e CEO do O Convergente Pesquisa, um dos principais cuidados na leitura das pesquisas é não confundir intenção de voto com fidelidade eleitoral.

Erica Aguiar, pesquisadora e CEO do O Convergente Pesquisa, avalia polarização, rejeição e espaço para uma terceira via na eleição presidencial. Foto: Arquivo pessoal

“O voto realmente consolidado não é identificado apenas pela intenção estimulada. Ele aparece com mais clareza quando o eleitor cita espontaneamente o candidato, afirma que não pretende mudar e mantém sua escolha mesmo depois de ser confrontado com críticas, notícias negativas ou propostas dos adversários”, explica.

Segundo Erica, enquanto a pesquisa quantitativa mede o tamanho do apoio, a qualitativa ajuda a entender a profundidade dessa escolha.

“Ela revela se existe identificação, memória afetiva e confiança ou se a escolha é apenas circunstancial, motivada pela falta de alternativa, pelo apoio de uma liderança ou pelo medo de outro candidato. Portanto, intenção de voto não significa necessariamente fidelidade eleitoral.”

Na avaliação da pesquisadora, a polarização existe, mas ainda apresenta brechas.

Flávio Bolsonaro conta com a estrutura política da direita, mas, segundo Erica, ainda não herdou integralmente a força emocional construída por Jair Bolsonaro. Lula, apesar da rejeição, preserva uma memória relacionada às políticas sociais dos governos petistas.

No Amazonas, ela cita como exemplo famílias do interior que associam Lula a programas federais implementados nas comunidades.

“O adulto de hoje pode ser a criança que viu a energia elétrica chegar à sua comunidade pelo Luz para Todos. Essa memória produz gratidão e pertencimento”, afirma.

O cientista político Helso Ribeiro observa a polarização por outro ângulo. Para ele, o fenômeno vem sendo construído desde 2018 e beneficia justamente os dois campos que dominam a disputa.

Helso Ribeiro, cientista político, analisa os efeitos da polarização e os caminhos da disputa presidencial. Foto: Arquivo pessoal

“Eu penso que parte da sociedade até busca uma terceira via. Para as duas candidaturas, eu costumo dizer que eles se retroalimentam. É bom para o PT e é bom para a direita bolsonarista essa polarização porque justamente inviabiliza essa terceira via”, analisa.

Helso reconhece o crescimento de Cury, mas considera que, pelo cenário atual, Lula e Flávio continuam sendo os mais prováveis para chegar ao segundo turno.

Cury cresce e coloca novos votos em disputa

O avanço de Augusto Cury se tornou uma das principais novidades da corrida presidencial. No PoderData/Aya, ele chegou a 10%, mesmo percentual registrado na Quaest.

Para Erica, esse movimento revela espaço entre eleitores que procuram uma alternativa ao confronto permanente.

“Ao mesmo tempo, o crescimento de Augusto Cury revela espaço para uma alternativa de centro, especialmente entre eleitores cansados do confronto permanente”, afirma.

A questão passa a ser o que acontecerá com esses votos caso Cury, Caiado, Renan Santos e os demais candidatos fiquem fora do segundo turno.

Erica avalia que existem tendências, mas nenhuma transferência automática. Parte do eleitorado de Caiado pode se aproximar de Flávio por afinidade ideológica; Renan Santos mobiliza uma direita mais jovem e digital; enquanto Cury atrai segmentos de centro e eleitores que buscam renovação.

“Contudo, esses votos não pertencem aos candidatos. Sua migração dependerá das alianças, dos debates, da rejeição aos finalistas e, principalmente, da percepção de viabilidade”, explica.

Helso reforça a mesma cautela.

“Muitas pessoas querem fazer uma equação simples e não é assim. Não significa que 100% do voto de quem votou no Caiado vá migrar para determinado candidato”, afirma.

Segundo ele, parte pode escolher um dos finalistas, enquanto outros eleitores podem votar branco, nulo ou simplesmente não comparecer.

“Se você olhar as eleições, no segundo turno a taxa de abstenção tende a aumentar, muito por desencanto. Votos nulos e brancos também. Às vezes, não vai para ninguém.”

Rejeição também entra na disputa

A elevada rejeição de Lula e Flávio adiciona outra variável ao cenário.

Na Quaest, 55% dos entrevistados disseram que não votariam em Flávio Bolsonaro, enquanto 53% rejeitam Lula.

Arte: O Convergente, produzida com auxílio de IA, com dados da Quaest

Para Erica, em uma eleição apertada, esse indicador pode ter peso tão grande quanto a intenção de voto.

“Em uma disputa equilibrada, a rejeição pode ser mais determinante do que a intenção de voto. Lula tenta compensar o desgaste acionando memória, experiência e proteção social. Flávio mobiliza a identidade da direita, o discurso econômico e o antipetismo”, analisa.

Para ela, “poderá vencer quem conseguir ser percebido como a escolha menos arriscada pelo eleitor moderado”.

Helso concorda que a rejeição cria uma barreira, mas pondera que ela não determina sozinha o resultado.

“Normalmente uma rejeição indica a barreira. Onde tem muita rejeição, fica mais difícil do candidato crescer naquele nicho”, afirma.

Como exemplo, ele cita a eleição municipal de Manaus em 2024, quando David Almeida venceu apesar de enfrentar forte rejeição.

“Então nada impede que alguém com uma rejeição alta ganhe uma eleição. Isso a polarização também faz.”

Amazonas tem dinâmica própria

No Amazonas, Lula aparece à frente de Flávio Bolsonaro.

Pesquisa publicada pelo O Convergente em 27 de agosto mostrou o petista com 46% das intenções de voto no estado, contra 34% de Flávio.

Leia mais: Lula aparece com 46% e Flávio Bolsonaro com 34% em pesquisa no Amazonas

Mesmo assim, Helso alerta que a escolha presidencial não necessariamente se repete nas disputas estaduais.

“Às vezes, o sujeito vota no nacional em um e, no estado, tem outros interesses, outros direcionamentos”, afirma.

Segundo ele, uma candidatura presidencial forte pode ajudar aliados locais, mas grupos políticos e interesses regionais também influenciam a escolha.

“Não é essa lógica aristotélica: votou lá, vota aqui, mantenha a coerência. Às vezes, os interesses regionais são outros e as pessoas acabam indo em outro direcionamento.”

A presença dos candidatos no estado também deve aumentar na reta final. Flávio Bolsonaro antecipou para 11 de setembro uma visita ao Amazonas, conforme informou O Convergente.

Leia mais: Flávio Bolsonaro antecipa visita ao Amazonas para 11 de setembro

Nas ruas, eleitores ainda enxergam alternativas

O O Convergente também ouviu cinco eleitores sobre a polarização. Os depoimentos não têm valor estatístico, mas ajudam a mostrar diferentes percepções sobre a disputa.

Waldemir considera que Lula e Flávio dominam o cenário por serem os nomes mais conhecidos, mas afirma procurar uma terceira opção ligada à defesa da Amazônia e à justiça social.

“Se meu candidato não for para o segundo turno, eu voto nulo. O que pesa mais para mim hoje é a proposta e o histórico do caboclo com a Amazônia”, afirma.

Célia também considera que existe espaço para uma terceira candidatura, desde que apresente consistência. Caso sua primeira opção não avance, pretende analisar os finalistas e priorizar propostas relacionadas à educação e à ciência.

Alan demonstra cansaço com os dois polos.

“Todo dia é Lula e Flávio Bolsonaro se batendo nas redes sociais, e nada muda na minha vida”, afirma. Ele cobra propostas para transporte, segurança e custo de vida em Manaus e admite votar no que considerar “menos pior” em um eventual segundo turno.

Lúcia afirma que “a eleição nunca está definida enquanto o povo não for às urnas” e diz priorizar questões sociais e a atenção às populações mais vulneráveis. Já Jéssica, empresária, considera que uma terceira candidatura pode crescer caso apresente um plano econômico coerente e capacidade de diálogo.

Afinal, está definida?

Lula e Flávio Bolsonaro possuem hoje as maiores bases e aparecem como os principais nomes para o segundo turno. Mas isso não permite antecipar o desfecho.

Cury cresceu, os favoritos enfrentam rejeição elevada e os votos das candidaturas menores não podem ser simplesmente distribuídos entre os dois líderes. Há também eleitores que já manifestam preferência, mas ainda admitem mudar de posição.

Erica e Helso partem de perspectivas diferentes, mas chegam a um ponto comum: a polarização é forte, porém a eleição ainda possui variáveis abertas.

Nas próximas semanas, a disputa não será apenas por quem ainda está indeciso. Lula e Flávio terão de preservar seus próprios votos, reduzir rejeições e conquistar quem hoje procura uma alternativa.

E os demais candidatos terão de demonstrar se conseguem transformar o espaço existente fora dos dois polos em força suficiente para alterar o desenho da eleição.

A resposta definitiva não está nas pesquisas.

Estará nas urnas.

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