A propaganda eleitoral gratuita começou no dia 28 de agosto e colocou a disputa pelo Governo do Amazonas diretamente na rotina dos eleitores. Em poucos minutos na televisão e no rádio, os candidatos tentam apresentar propostas, reforçar trajetórias, reduzir rejeições, conquistar indecisos e construir uma identidade capaz de permanecer na memória do público.
Cinco candidatos ao Governo do Amazonas têm direito ao horário eleitoral gratuito: Roberto Cidade (União Progressista), David Almeida (Avante), Omar Aziz (PSD), Isael Munduruku (Rede) e Professora Maria do Carmo (PL). Cabo Daciolo (Mobiliza) e Gilberto Vasconcelos (PSTU) não participam dos blocos por não atenderem aos critérios de representação partidária no Congresso Nacional.
Os primeiros programas já mostraram estratégias diferentes. Enquanto alguns candidatos aproveitaram o espaço para apresentar compromissos concretos, outros priorizaram biografia, continuidade administrativa, críticas aos adversários ou recursos de humor.
Cinco candidatos, cinco estratégias
Roberto Cidade — Candidato à reeleição, Roberto Cidade apostou principalmente na imagem de proximidade com a população e na continuidade do governo. O programa apresentou registros do candidato em diferentes regiões do Amazonas e reforçou uma mensagem de trabalho e presença junto aos eleitores. Na estreia, porém, não foram apresentadas propostas específicas.
David Almeida — O candidato do Avante utilizou imagens do lançamento da candidatura e afirmou que pretende “ser a voz do Amazonas”. Entre os compromissos apresentados estavam zerar a fila do SisReg e dobrar o valor do Auxílio Estadual. A vice Shádia Fraxe também participou do programa, reforçando a trajetória administrativa do candidato.
Omar Aziz — O ex-governador combinou imagens da fauna, da floresta e do cotidiano amazonense com críticas à atual administração estadual. Também relembrou obras e programas realizados durante sua gestão, como o Hospital Delphina Aziz e o Ronda nos Bairros, além de destacar o apoio do presidente Lula e dar espaço à vice Alessandra Campêlo.
Isael Munduruku — Com o menor tempo entre os candidatos que participam do horário eleitoral, Isael utilizou a estreia para se apresentar como “pai de família e cristão” e anunciar compromissos nas áreas de saúde, segurança e infraestrutura. Entre eles, citou zerar a fila do SisReg, combater a criminalidade e buscar soluções para a BR-319.
Professora Maria do Carmo — A candidata do PL apostou no humor e na crítica política ao apresentar a personagem “Velha Política”, utilizada para ironizar problemas como ruas esburacadas, contratos e obras públicas. Maria se apresentou como alternativa de mudança e destacou sua trajetória na iniciativa privada, sem detalhar propostas específicas no primeiro programa.
Mais tempo, mais vantagem?
Para o jornalista, cientista político e marqueteiro eleitoral Francisco Araújo, estrutura de campanha e tempo disponível na televisão e no rádio continuam representando uma vantagem importante na corrida eleitoral do Amazonas. Segundo ele, os candidatos que contam com mais recursos e exposição tendem a alcançar públicos maiores e podem abrir vantagem sobre adversários que dispõem de pouco tempo ou sequer participam dos blocos gratuitos.
Araújo destaca ainda que as campanhas de 2026 estão investindo cada vez mais em storytelling, produções cinematográficas e linguagens semelhantes às utilizadas em séries. A estratégia também se estende às candidaturas proporcionais, com maior investimento em conteúdos produzidos para circulação nas redes sociais.
Mesmo com a expansão da internet no estado, o especialista considera que TV e rádio continuam relevantes, especialmente em áreas onde esses meios permanecem fortemente integrados à rotina da população.
“Quem tem mais tempo de TV e Rádio e sabe utilizar esses meios de forma eficaz pode ganhar muitos votos e se destacar dos candidatos que têm pouco tempo de TV e Rádio. Isso ocorre porque, apesar do avanço da internet, a TV e a Rádio ainda são meios de comunicação muito acessíveis e populares em muitas regiões do Amazonas, especialmente em áreas mais remotas ou com menor acesso à tecnologia moderna”, avaliou.
Para Francisco, porém, os primeiros programas não devem ser encarados como uma corrida para apresentar tudo de uma só vez. A tendência, segundo ele, é que a definição do voto se intensifique nas últimas semanas da campanha.
“Ao longo da campanha, os candidatos fortalecem suas bases, melhoram sua comunicação e marketing e colocam em prática suas estratégias de conquista de votos. É um período de intensificação da campanha, em que os candidatos buscam consolidar sua imagem e convencer os eleitores a votar neles”, disse.

Por isso, ele alerta para o risco de “queimar a largada”. Na avaliação do especialista, campanhas que concentram seus principais recursos e estratégias logo no início podem perder força justamente na reta final, quando a disputa pelo voto tende a ficar mais intensa.
“Portanto, é crucial encontrar um equilíbrio entre apresentar uma boa imagem e propostas atraentes no início da campanha, sem comprometer a sustentabilidade da estratégia ao longo do processo eleitoral”, destacou.
Outro indicador importante será a construção de marcas facilmente reconhecidas. Francisco aponta que jingles, símbolos, gestos, iniciais e outros elementos de identificação ajudam a medir se determinada campanha conseguiu se conectar com o público.
“Nesta campanha, muitos candidatos estão utilizando as iniciais de seus nomes como referência e lembrança, além de jingles com diversos estilos e para todos os públicos. Essa é uma tendência que, se bem utilizada, pode ser um fator de diferenciação em relação aos demais candidatos”, comentou.
O voto dos indecisos está em jogo
Para Érica Lima Aguiar, especialista em pesquisa qualitativa e comportamento eleitoral, o horário eleitoral ainda exerce influência, principalmente sobre quem permanece indeciso ou possui uma preferência pouco consolidada.
“O horário eleitoral ainda influencia, principalmente os indecisos e os eleitores com preferência frágil. Para quem já está decidido, funciona mais como reforço do voto”, destacou.
A especialista chama atenção para o uso excessivo de ataques: “O excesso de ataques pode aumentar a rejeição e transmitir insegurança. O eleitor deseja conhecer propostas, capacidade de gestão e soluções concretas”, avaliou.
Para candidatos já conhecidos, como ocorre com boa parte dos principais nomes na disputa amazonense, Érica avalia que a televisão funciona principalmente como uma ferramenta para reposicionar imagens, corrigir fragilidades e construir uma nova narrativa.
“Nesse cenário, o horário eleitoral serve principalmente para reposicionar imagens, reduzir fragilidades e apresentar uma nova narrativa sobre candidatos já conhecidos”, afirmou.

A quantidade de tempo também não é determinante isoladamente. Um candidato com poucos segundos ou minutos disponíveis pode reduzir a desvantagem caso consiga apresentar uma mensagem “objetiva, emocional, memorável e direcionada ao público certo”.
O impacto dos programas, segundo Érica, deverá aparecer em diferentes indicadores. Entre eles estão a redução da rejeição, aumento da confiança, lembrança das mensagens e mudança na percepção da imagem dos candidatos.
“Devemos observar crescimento entre os indecisos, redução da rejeição, aumento da confiança, lembrança das mensagens e mudança positiva na percepção da imagem”, apontou.
Ela ressalta ainda que uma campanha pode apresentar resultados positivos mesmo antes de crescer diretamente nas intenções de voto. A redução da rejeição, por exemplo, pode representar uma primeira abertura do eleitor para considerar determinada candidatura.
“Na pesquisa qualitativa, um programa eficiente é aquele que gera identificação, transmite autenticidade, apresenta propostas claras, fortalece a confiança e permanece na memória do eleitor”, disse.
Da TV para as redes: a disputa pela atenção
Para a mercadóloga Sabrina Tenório, que atua há oito anos em campanhas eleitorais nas mídias sociais, a conexão com o eleitor será um dos pontos centrais da eleição de 2026.
Segundo ela, o candidato precisa aparecer na televisão de maneira mais humana, natural e próxima da realidade da população. Discursos excessivamente ensaiados ou distantes podem dificultar essa identificação.
Sabrina avalia que a eleição deste ano tende a ser menos concentrada na polarização e mais voltada para propostas. Nesse cenário, o eleitor estaria mais interessado em conhecer soluções e avaliar se o candidato demonstra preparo para enfrentar os problemas do estado.
“Estamos diante de uma eleição menos centrada na polarização e mais propositiva. A população está cansada de ataques e do chamado “pão e circo”. [..] Na televisão, portanto, ele precisa falar com naturalidade, demonstrar conhecimento e apresentar propostas de maneira simples, olhando para a realidade de quem está em casa”, analisou.

Sabrina também destaca que televisão e redes sociais precisam trabalhar de maneira complementar. A mensagem central deve permanecer a mesma, mas o conteúdo precisa ser adaptado ao formato de cada plataforma: “As redes sociais são como o café na casa do eleitor: fazem parte da rotina e permitem uma comunicação mais frequente e próxima. Por isso, levar o conteúdo do horário eleitoral para o ambiente digital é importante […]. A essência da mensagem deve ser a mesma para manter a coerência da campanha, mas as estratégias e os formatos precisam ser diferentes”.
Para Sabrina, memes, ironia e linguagem informal podem humanizar uma candidatura e facilitar a aproximação com diferentes públicos. Entretanto, o recurso precisa ser usado com equilíbrio: “Quando utilizado com propósito e no momento adequado, o humor aproxima. Quando se torna excessivo ou desconectado da identidade do candidato, pode diminuir a percepção de preparo e transformar a campanha em entretenimento”.
Antes mesmo das próximas pesquisas eleitorais, as campanhas já conseguem acompanhar indicadores de repercussão. Segundo Sabrina, comentários, compartilhamentos, alcance, engajamento nas redes, conversas nas ruas e a repercussão espontânea de determinados trechos dos programas ajudam a identificar quais mensagens despertaram maior atenção.
“É no ambiente digital que conseguimos observar os primeiros sinais de aceitação: comentários, compartilhamentos, alcance, engajamento e, principalmente, a maneira como a população recebeu e interpretou o conteúdo”, disse.
Esses dados, entretanto, não substituem pesquisas quantitativas. Para ela, somente os levantamentos realizados após os primeiros dias ou semanas de propaganda poderão dimensionar com maior precisão o impacto da televisão na intenção de voto.
Horário eleitoral segue até outubro
Com o horário eleitoral ainda no início, não é possível apontar qual estratégia conseguiu produzir maior retorno. Os primeiros programas, contudo, já indicam os caminhos escolhidos pelas campanhas: continuidade e proximidade, propostas, experiência administrativa, apresentação pessoal ou confronto político.
A disputa agora será para descobrir quais dessas mensagens conseguirão deixar de ser apenas propaganda e passar a influenciar efetivamente a decisão do eleitor.
A avaliação dos especialistas converge em um ponto: a propaganda gratuita continua relevante, mas o impacto não depende apenas da quantidade de minutos disponíveis.
Mensagem, clareza, repetição, identidade, capacidade de dialogar com as redes sociais e, sobretudo, conexão com as preocupações concretas do eleitor serão determinantes para saber quem conseguirá aproveitar melhor a exposição até 1º de outubro.
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