Menos de 48 horas após assumir a Presidência do Peru, Keiko Fujimori iniciou a articulação de um pacote de medidas contra a criminalidade. A nova chefe de Estado também colocou entre as prioridades do governo a prevenção aos efeitos do fenômeno El Niño, a geração de empregos e a retomada de projetos de infraestrutura.
Fujimori tomou posse no dia 28 de julho, após vencer uma das eleições presidenciais mais disputadas da história recente do país. A candidata do partido Força Popular obteve 9.223.396 votos, contra 9.173.755 de Roberto Sánchez, uma diferença de 49.641 votos.
A presidente assume o comando de um país marcado pela instabilidade política e pelo avanço de crimes como extorsões, homicídios, mineração ilegal e tráfico de drogas. Ela é a nona pessoa a ocupar a Presidência peruana em uma década.
Governo prepara medidas contra a criminalidade
Na primeira reunião do Conselho de Ministros, realizada em 29 de julho, Fujimori e o primeiro-ministro Luis Galarreta avaliaram um decreto para solicitar ao Congresso a delegação de poderes legislativos ao Executivo.
O objetivo é permitir que o governo aprove normas com maior rapidez para enfrentar a criminalidade, estimular o emprego e promover mudanças administrativas. O pedido, no entanto, ainda precisa ser formalmente aprovado pelo gabinete e posteriormente analisado pelo Congresso.
O conselho também discutiu a continuidade, com reforço, da intervenção emergencial no Sistema Nacional Penitenciário. A proposta prevê reformas operacionais para recuperar o controle das penitenciárias e reduzir a atuação de organizações criminosas comandadas de dentro dos presídios.
Embora o governo apresente a iniciativa como o início de uma ofensiva contra o crime, parte das medidas ainda está em fase de elaboração. A aplicação efetiva dependerá de decretos, orçamento, regulamentação e negociação com o Legislativo.
Militares e novos presídios estão entre as propostas
Durante a posse, Keiko Fujimori prometeu ampliar a participação das Forças Armadas nas operações de segurança, especialmente em áreas submetidas a estado de emergência. A Polícia Nacional continuaria envolvida nas ações, mas os militares poderiam assumir temporariamente a liderança operacional.
A presidente também defendeu a construção de novos presídios, incluindo uma unidade de grande capacidade inspirada no modelo adotado em El Salvador. Outra proposta prevê a proteção da identidade de magistrados responsáveis por processos relacionados ao crime organizado.
O governo pretende ainda fortalecer a inteligência policial, ampliar o monitoramento por câmeras e utilizar recursos tecnológicos para identificar áreas com maior incidência de crimes.
As iniciativas fazem parte de uma política de endurecimento da segurança pública. Entretanto, entidades de defesa dos direitos humanos e integrantes da oposição devem acompanhar a ampliação da presença militar e as possíveis mudanças no sistema penal.
Primeiro gabinete é liderado por Luis Galarreta
No mesmo dia da posse, Fujimori empossou o primeiro gabinete ministerial de sua gestão, liderado por Luis Galarreta, que também ocupa a primeira vice-presidência.
César Astudillo assumiu o Ministério do Interior, responsável pela Polícia Nacional, enquanto Rafael Belaúnde ficou à frente do Ministério da Defesa. Elmer Cuba assumiu a Economia e Finanças, Carlos Espá passou a comandar as Relações Exteriores e Ernesto Álvarez assumiu a Justiça e os Direitos Humanos.
A escolha dos ministros indica que segurança, estabilidade econômica e relações internacionais estarão entre os principais eixos da fase inicial do mandato.
Primeira viagem oficial ocorre após terremoto
Além da agenda contra a criminalidade, Fujimori realizou, no dia 31 de julho, sua primeira viagem oficial como presidente. Ela visitou a região de Junín, atingida por um terremoto de magnitude 5,1 que deixou cinco mortos e provocou danos em diversas localidades.
Durante a visita, a presidente anunciou a transferência imediata de 500 módulos habitacionais armazenados no norte do país. As estruturas possuem isolamento térmico e deverão atender famílias que perderam suas casas.
Fujimori também inspecionou 20 módulos temporários já instalados em Pumpunya, no distrito de Chongos Bajo, e prometeu garantir a reconstrução das moradias destruídas.
A viagem foi a primeira ação territorial concreta da nova gestão e ocorreu três dias após a posse.
El Niño entra na lista de prioridades
Em seu primeiro pronunciamento ao país, a presidente declarou que o governo atuará inicialmente em duas frentes consideradas emergenciais: segurança pública e prevenção aos efeitos do fenômeno El Niño.
Entre as medidas anunciadas estão a desobstrução de rios, a construção de estruturas de proteção das margens e intervenções em bacias hidrográficas. O objetivo é reduzir os impactos de inundações, deslizamentos e chuvas intensas.
Fujimori afirmou que pretende substituir a reação tardia às emergências por uma política de prevenção. O governo ainda deverá detalhar o orçamento, o cronograma e as regiões que receberão as primeiras intervenções.
Salário mínimo e infraestrutura
Na área econômica, a presidente prometeu elevar o salário mínimo de 1.130 para 1.300 soles. Para reduzir o impacto sobre micro e pequenas empresas, o governo pretende criar um pagamento compensatório único destinado aos empregadores.
A data de entrada em vigor do reajuste ainda não foi apresentada.
Fujimori também anunciou a intenção de concluir a Linha 2 do Metrô de Lima e Callao, avançar nas linhas 3, 4, 5 e 6 e implantar sistemas de transporte metropolitano em Arequipa, Piura e Trujillo.
Outras promessas incluem os trens Lima–Ica e Lima–Barranca, além da conclusão da Nova Rodovia Central. Os projetos dependerão da disponibilidade de recursos e da participação da iniciativa privada.
Governo busca aproximação com os Estados Unidos
Na política externa, o novo chanceler, Carlos Espá, anunciou que o Peru pretende ampliar a cooperação com os Estados Unidos, considerado um parceiro estratégico pelo novo governo.
Entre os objetivos estão a negociação de tarifas aplicadas às exportações peruanas e a adesão ao Escudo das Américas, iniciativa de cooperação internacional voltada ao enfrentamento do crime transnacional.
O governo também pretende restabelecer relações diplomáticas com México e Colômbia e iniciar uma reaproximação com a Venezuela.
Primeiros desafios do mandato
Apesar da rapidez dos anúncios, Keiko Fujimori ainda precisará transformar as propostas em medidas executáveis. A delegação de poderes legislativos dependerá do Congresso, enquanto os investimentos em presídios, infraestrutura e prevenção de desastres exigirão recursos e planejamento.
O resultado apertado da eleição também revela um país politicamente dividido. Embora o Força Popular tenha uma posição relevante no novo Congresso bicameral, o partido não controla sozinho as duas casas legislativas.
Assim, o sucesso da ofensiva contra a criminalidade e das demais promessas do início do mandato dependerá da capacidade do governo de construir maioria política, apresentar resultados concretos e evitar que o Peru retorne ao ciclo de crises que marcou os últimos anos.


