Quem vence em 2026: o melhor projeto ou a narrativa mais convincente?

Por

Por Érica Lima Barbosa Aguiar

E se, no fim das contas, a eleição de 2026 não for decidida pelo melhor projeto… mas pela história que mais mexe com você?

Pode parecer incômodo e é mesmo. Mas vamos conversar com franqueza: quando foi a última vez que você leu um plano de governo inteiro? E quando foi a última vez que compartilhou um vídeo, comentou um corte ou acreditou numa fala que “bateu forte”?

No Amazonas, a disputa já está tomando forma. E não é só no papel, é no sentimento.

Vamos combinar uma coisa? O eleitor amazonense não é desinformado. Ele está cansado. Cansado de promessa. Cansado de político que aparece só na eleição. Cansado de ver problema antigo com solução nova que nunca chega.

Nas pesquisas qualitativas que conduzimos, uma frase se repete com pequenas variações, mas o mesmo peso: “A gente vota… mas parece que nada muda de verdade.” 

Outra fala comum, especialmente entre jovens da periferia de Manaus: “Eu vejo tudo no Instagram, mas não confio em quase nada.”

E entre mulheres: “Eu quero alguém que resolva, não alguém que só fale bonito.”

Percebe o ponto? Não é falta de informação. É falta de confiança.

E é aí que entra a narrativa.  Quando a política deixa de ser confiável, ela passa a ser sentida.

Norberto Bobbio já alertava: a democracia depende não só de regras formais, mas da confiança nas instituições e nos atores políticos. Quando essa confiança se fragiliza, o espaço da razão diminui e o da emoção cresce.

Traduzindo isso pra nossa realidade aqui no Amazonas: O eleitor não escolhe só com a cabeça. Escolhe com o que sente que é verdade.

Mas vamos olhar de perto os candidatos

Se você acompanha as redes sociais de Omar Aziz, Maria do Carmo e David Almeida, já dá para perceber que cada um joga um jogo diferente.

Omar Aziz aposta na experiência. É o discurso de quem já conhece o caminho, de quem sabe como as coisas funcionam. Fala com quem busca segurança. Mas fica a pergunta: experiência ainda emociona ou só tranquiliza?

Maria do Carmo aparece com uma narrativa de renovação. Um discurso que aponta mudança, reposicionamento, novos caminhos. Mas aqui o desafio é outro: como transformar promessa em algo que o eleitor realmente acredita?

David Almeida trabalha muito a proximidade. A cidade, o dia a dia, o contato direto. É um discurso que diz: “eu estou aqui com você”. Mas o eleitor também questiona: “Tá perto… mas resolveu?”

Percebe como não é só o que se fala, é como isso é percebido?

A disputa real não é de proposta. É de percepção.

E aqui vai uma provocação direta pra você: Você sabe diferenciar quem fala bem de quem faz bem? Ou, no fundo, você decide pelo que te convence mais rápido?

O TSE hoje está atento à desinformação e à viralização. E com razão. Mas existe um ponto que quase ninguém fala: A desinformação só funciona porque encontra um terreno pronto. Um eleitor desconfiado. Um eleitor pouco engajado. Um eleitor que não se sente representado.

Nesse cenário, quem emociona primeiro… sai na frente.

E o Amazonas tem suas particularidades. Aqui, a política não é só institucional, é vivida no cotidiano.

É o ônibus que não chega. É a saúde que demora. É o bairro que cresce sem estrutura.

E isso aparece nas falas: 

“Eu não quero promessa, eu quero ver acontecer.” 

“Todo mundo fala bonito, mas na hora… some.”

Entre jovens, há conexão digital, mas também ironia e distanciamento. Entre mulheres, há mais exigência por coerência e cuidado.

No geral, há um sentimento que atravessa tudo:

“Eu preciso votar… mas não confio totalmente em ninguém.”

E o cenário nacional entra nesse jogo

Se Lula se consolida na disputa ou se um nome como Flávio Bolsonaro ganha força, a tendência é de ainda mais polarização. E polarização não simplifica, ela intensifica. Intensifica emoções. Intensifica rejeições. Intensifica narrativas.

A literatura política já mostrou isso. Estudos sobre polarização indicam que, quanto mais dividido o ambiente político, menos o eleitor avalia propostas e mais reage a identidades e sentimentos de pertencimento. E isso já está acontecendo, inclusive no Amazonas.

Senado do Amazonas: mais que nomes, são símbolos

Quando olhamos para os pré-candidatos ao Senado, não estamos apenas analisando pessoas. Estamos analisando imagens, histórias e campos ideológicos em disputa.

Eduardo Braga (MDB) carrega tradição política e experiência. Sua imagem está associada à estrutura, articulação e permanência. E “velha política”. Para muitos, representa estabilidade. Para outros, continuidade de um modelo que já conhecem e nem sempre aprovam.

Capitão Alberto Neto (PL) se posiciona com um discurso mais alinhado à direita, fortemente conectado ao bolsonarismo. Sua narrativa é direta, muitas vezes combativa, e dialoga com valores como ordem, segurança e conservadorismo.

Plínio Valério (PSDB), embora em um partido tradicional de centro, vem construindo um discurso crítico e independente, buscando se posicionar como alguém que “fala o que pensa”. Isso gera identificação em parte do eleitorado, mas também resistência. Muitos eleitores ainda acreditam que ele seja do partido “verde”. Ou seja, associam ele de forma equivocada a pauta ambientalista.

Rodrigo de Sá (Pregressista), Marcos Rotta (Avante) e Marcelo Ramos (PT) entram nesse cenário como nomes que tentam ocupar espaços distintos.

Marcelo Ramos, por exemplo, dialoga mais com um campo de centro-esquerda, com discurso institucional e técnico, buscando credibilidade pela argumentação.

Marcos Rotta tem histórico de proximidade com a gestão municipal e trabalha uma imagem de operador político experiente, enquanto Rodrigo de Sá ainda disputa espaço de reconhecimento e construção de identidade pública.

Agora, vamos trazer o que a pesquisa qualitativa revela sobre essas imagens:

“Esse já tá há muito tempo… sabe fazer, mas será que muda alguma coisa?” (sobre Eduardo Braga)

“Esse aí fala o que o povo quer ouvir, mas é muito radical.” (sobre Alberto Neto)

“Esse eu não conheço direito ainda…” (recorrente sobre nomes menos consolidados)

Percebe?

Não é sobre currículo. É sobre percepção.

Direita, esquerda… ou emoção?

Na teoria, temos campos ideológicos bem definidos.

Na prática, o eleitor amazonense muitas vezes não se identifica por rótulos claros.

Ele se guia por sensações:

  • “Esse é mais firme”
  • “Esse é mais humano”
  • “Esse parece mais preparado”

Segundo análises recentes debatidas por pesquisadores como o professor Helso Ribeiro, no portal O Convergente, o Brasil vive uma polarização que não é apenas ideológica, mas afetiva. Ou seja: o eleitor não apenas concorda ou discorda, ele gosta ou rejeita.

E isso muda completamente o jogo.

Estratégia política hoje: confronto ou conexão?

Diante desse cenário, surge outra pergunta importante:

Vale mais atacar o adversário… ou construir vínculo com o eleitor?

As redes sociais mostram que muitos candidatos ainda apostam no confronto direto, na crítica e na polarização.

Mas a pesquisa qualitativa já aponta um movimento interessante no Amazonas! Quem errar o tom, perde conexão.

Onde entra a pesquisa qualitativa nisso tudo? Agora, deixa eu te provocar mais uma vez. Se tudo isso está acontecendo: emoção, narrativa, polarização e percepção, você acha mesmo que campanha se faz só com propaganda?

Não.

Campanha competitiva hoje se faz com leitura profunda de gente.

E é exatamente aqui que entra a pesquisa qualitativa como ferramenta estratégica de alto nível.

Não é sobre perguntar “em quem você vota?”.

É sobre entender:

  • Por que você confia em alguém que você mal conhece?
  • Por que rejeita alguém mesmo sem acompanhar de perto?
  • O que uma fala ativa em você — esperança ou desconfiança?

A ciência política contemporânea já trabalha com conceitos como framing (enquadramento), agenda setting (definição do que importa) e construção simbólica da realidade.

Em outras palavras: quem define como o problema é apresentado… já sai na frente na solução.

E é exatamente isso que a pesquisa qualitativa revela.

E aqui vai um ponto que quase ninguém fala (mas deveria)

Nem todo discurso que viraliza… convence.

E nem todo discurso técnico… conecta.

O desafio real da eleição de 2026 será esse equilíbrio fino:

Narrativa que emociona + credibilidade que sustenta.

Quem tiver só um dos dois… perde força.

Então, vamos encerrar com uma pergunta que não é confortável

Você está escolhendo um candidato…

ou está sendo escolhido por uma narrativa que te alcançou primeiro?

Porque, no fim, a eleição não começa na urna.

Ela começa na sua percepção.

E quem entende isso, não só disputa eleição. Molda o resultado. 

Aqui é importante ser muito clara. Eu não faço publicidade. Eu não faço marketing. Eu faço análise científica de narrativas.

A pesquisa qualitativa escuta o eleitor de verdade de forma cientifica. Não só o que ele diz, mas como ele sente, interpreta e reage.

Ela identifica padrões invisíveis:

  • O que gera confiança
  • O que ativa rejeição
  • O que conecta ou afasta

E isso orienta estratégia.

Não é achismo. Não é “feeling”.

É método.

E os grandes políticos sabem disso.

Nenhuma campanha competitiva hoje renuncia a pesquisa qualitativa.

Porque quem entende o eleitor… não erra o tom.

Então, vamos voltar à pergunta inicial?

Quem vence em 2026?

O melhor projeto?

Ou a narrativa mais convincente?

Talvez vença quem conseguir transformar proposta em algo que o eleitor sinta como verdade.

Mas antes de decidir isso, talvez você, eleitor precise responder outra coisa: Você está escolhendo com consciência… ou com emoção? E mais importante ainda: Você está sendo convencido… ou está sendo conduzido?

Sobre a autora

Erica Lima Barbosa Aguiar é pesquisadora há mais de 15 anos, mestre e especialista em estudos qualitativos e percepção eleitoral. Atua na análise científica de narrativas políticas, sendo referência na interpretação de como discursos impactam percepções e decisões.

Seu trabalho não está no campo da publicidade ou do marketing, mas na leitura profunda do eleitor, orientando estratégias, posicionamentos e caminhos para campanhas mais assertivas com métodos científicos. 

Porque, no fim, eleição não se vence só com discurso.

Se vence entendendo gente.

Fique ligado em nossas redes

Você também pode gostar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

spot_img

Últimos Artigos

- Publicidade -