Gilberto Mestrinho: três vezes governador, cassado e eternizado como o “Boto Navegador”

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Ele foi cassado pela ditadura, voltou pelo voto popular, governou o Amazonas três vezes e teve um jingle mais duradouro do que muitas campanhas vitoriosas. Mas o que existe por trás da memória de Gilberto Mestrinho?

Esta matéria integra o editorial especial “Fatos Políticos”, projeto de memória histórica de O Convergente e do Portal Manaós, que revisita personagens, eleições e acontecimentos que ajudaram a construir a política do Amazonas. A partir de documentos oficiais, registros eleitorais, arquivos jornalísticos e depoimentos preservados em vídeo, a reportagem percorre a trajetória de Gilberto Mestrinho — do jovem professor que chegou à Prefeitura de Manaus ao político conhecido como “Boto Navegador”, três vezes governador, senador da República, cassado pela ditadura militar e protagonista de vitórias, derrotas, obras, controvérsias e homenagens.

O homem que virou personagem da própria história

Antes de o apelido “Boto Navegador” tomar conta dos palanques, existia Gilberto Mestrinho de Medeiros Raposo, nascido em Manaus, em 23 de fevereiro de 1928. Filho de Thomé de Medeiros Raposo e Balbina Mestrinho de Medeiros Raposo, foi professor, industrial, auditor fiscal e diretor do Curso Eficiência.

Foto: Divulgação/Internet

Sua entrada na administração pública aconteceu durante o governo de Plínio Ramos Coelho, quando exerceu funções técnicas e assumiu a Secretaria de Economia e Finanças. Em 1956, ainda muito jovem, foi nomeado prefeito de Manaus.

Foto: Divulgação/Internet

Era apenas o começo de uma trajetória que atravessaria a democracia, o golpe militar, a cassação, a redemocratização e mais de cinco décadas de disputas pelo poder.

Os dados pessoais e os mandatos de Gilberto Mestrinho estão registrados no acervo oficial do Senado Federal⁠.

Aos 30 anos, a primeira vitória para o Governo do Amazonas

Em 1958, filiado ao antigo Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB, Gilberto Mestrinho deixou a Prefeitura de Manaus para disputar o Governo do Amazonas.

A eleição foi apertada. De acordo com os dados históricos atribuídos ao Tribunal Superior Eleitoral, Mestrinho recebeu 37.241 votos, equivalentes a 50,10% dos votos nominais. Paulo Nery ficou com 36.252 votos, ou 48,77%.

Foto: Divulgação

A diferença entre os dois principais candidatos foi de apenas 989 votos.

Aos 30 anos, Gilberto Mestrinho conquistava seu primeiro mandato como governador. Administrou o estado entre 25 de março de 1959 e 25 de março de 1963, associando sua imagem à ampliação da presença do poder público, à abertura de escolas, à estruturação de serviços e à execução de obras nas áreas de saúde, transporte e urbanização.

Algumas realizações atravessaram mais de uma administração, começando em determinado governo e sendo concluídas em outro. Por isso, a reconstrução histórica exige distinguir obras planejadas, iniciadas e efetivamente inauguradas em cada período.

Eleito deputado, cassado pela ditadura

Ao deixar o governo, Mestrinho assumiu uma cadeira de deputado federal pelo então Território Federal do Rio Branco, atual estado de Roraima.

Foto: Divulgação/Internet

O mandato durou pouco.

Em 10 de abril de 1964, logo após o golpe militar, Gilberto Mestrinho apareceu na primeira lista de parlamentares cassados com base no Ato Institucional nº 1. Além de perder o mandato, teve seus direitos políticos suspensos por dez anos.

A cassação não decorreu de condenação criminal, mas de uma decisão política do regime militar contra parlamentares considerados adversários ou incompatíveis com a nova ordem autoritária.

Décadas depois, a Câmara dos Deputados realizou uma cerimônia de reparação histórica e devolveu simbolicamente os mandatos aos políticos cassados em 1964. Gilberto Mestrinho estava entre os homenageados, conforme registro da Câmara dos Deputados⁠.

O político que havia chegado tão jovem ao governo desapareceu temporariamente das urnas. Mas seu nome continuou circulando nas conversas, nos municípios e na memória de parte da população.

O retorno do homem que o regime tentou afastar

Com a abertura política, Mestrinho retornou ao Amazonas e às disputas eleitorais. Em 1982, após aproximadamente duas décadas sem eleições diretas para governador, apresentou-se novamente ao eleitorado.

O resultado confirmou a força que seu nome ainda possuía: foi eleito com cerca de 53,7% dos votos válidos.

Foto: Divulgação/Internet

Seu segundo governo, exercido entre 1983 e 1987, marcou a retomada de sua liderança política. Mestrinho percorreu municípios, aproximou-se de lideranças do interior e fortaleceu uma forma de comunicação baseada na identidade regional.

Foi nesse período que ajudou a projetar novos nomes, entre eles Amazonino Mendes, indicado para administrar Manaus e posteriormente eleito sucessor de Mestrinho no Governo do Amazonas.

Nascia uma corrente política que, durante anos, seria conhecida como “mestrinhismo”.

Obras, expansão do Estado e a força da cultura popular

Ao longo de suas administrações, Gilberto Mestrinho associou seu nome à construção e ampliação de escolas, hospitais, equipamentos esportivos, sistemas viários e espaços culturais.

Foto: Divulgação/Internet

Entre as estruturas relacionadas às suas gestões está o Centro de Convenções Professor Gilberto Mestrinho, o Sambódromo de Manaus, inaugurado em 1994. O espaço tornou-se palco de desfiles das escolas de samba, apresentações folclóricas, shows, eventos religiosos, atividades escolares e manifestações da cultura popular.

O equipamento também passou a abrigar atividades do Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro. Informações institucionais sobre o local estão disponíveis no portal da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa⁠.

O Estádio Olímpico Municipal Gilberto Mestrinho, conhecido como Gilbertão, em Manacapuru, também foi construído durante uma de suas administrações e inaugurado em 1986.

Estádio Olímpico Municipal Gilberto Mestrinho | Foto: Divulgação/Internet

Para os admiradores, Mestrinho foi um governador que conhecia as dificuldades do interior e transformava demandas populares em decisões administrativas. Para os críticos, seus governos consolidaram uma política centralizadora, personalista e sustentada por grupos que permaneceram por décadas no controle do Estado.

As duas interpretações fazem parte da história.

A terceira eleição e uma vitória com mais de 57%

Em 1990, Gilberto Mestrinho voltou a disputar o Governo do Amazonas.

O resultado foi expressivo: recebeu 332.085 votos, correspondentes a 57,6% dos votos válidos. Wilson Alecrim, segundo colocado, obteve 202.976 votos.

Mestrinho assumiu o terceiro mandato em março de 1991 e permaneceu no cargo até o fim de 1994.

Essa vitória confirmou uma característica rara de sua trajetória: ele havia conseguido governar o Amazonas antes do golpe militar, após a redemocratização e novamente no início da década de 1990.

Poucos políticos amazonenses atravessaram períodos históricos tão diferentes mantendo capacidade eleitoral e influência sobre sucessores.

Nem todas as urnas sorriram para o “Boto”

Embora tenha conquistado três mandatos de governador, Gilberto Mestrinho também conheceu a derrota.

Em 1988, tentou retornar à Prefeitura de Manaus, mas perdeu a eleição para Arthur Virgílio Neto. Em 1996, voltou a disputar o comando da capital, numa campanha marcada por um dos jingles mais lembrados da história política amazonense, mas novamente não conseguiu se eleger.

Em 1998, retornou às vitórias ao conquistar uma cadeira no Senado. Recebeu 405.131 votos, aproximadamente 49,9% dos válidos, e exerceu o mandato entre 1999 e 2007.

No Congresso Nacional, presidiu em diferentes oportunidades a Comissão Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização.

Em 2002, ainda senador, concorreu outra vez ao Governo do Amazonas. Terminou em segundo lugar, com 226.193 votos, ou 20,9% dos válidos, atrás de Eduardo Braga.

Sua última disputa ocorreu em 2006, quando tentou a reeleição para o Senado. Recebeu 158.333 votos, aproximadamente 11,9%, e ficou fora da vaga.

Aquele resultado encerrava sua participação direta nas urnas, mas não apagava a influência construída ao longo de décadas.

“Boto Navegador”: o jingle que venceu o tempo

Se algumas obras envelheceram e determinadas alianças foram desfeitas, uma música permaneceu.

O jingle “Feitiço do Boto Navegador”, popularmente chamado de “Boto Navegador”, foi utilizado na campanha de Mestrinho à Prefeitura de Manaus em 1996. A composição é atribuída ao músico Hilton Acioli.

A música combinava rio, caboclo, lenda amazônica e esperança política. O apelido fazia referência ao boto, figura profundamente ligada ao imaginário regional, e reforçava a imagem de um político que conhecia os caminhos das águas e do interior.

Mestrinho perdeu aquela eleição, mas o jingle sobreviveu ao resultado das urnas.

A canção deixou de ser somente uma peça de propaganda e tornou-se uma assinatura afetiva. Para muitos amazonenses, bastam os primeiros acordes para que surjam lembranças dos palanques, das caminhadas, dos barcos, das campanhas de rua e de um Amazonas politicamente comandado por grandes lideranças personalistas.

Anos depois, o “Boto Navegador” seria executado novamente na despedida do ex-governador.

O outro lado do legado: denúncias e controvérsias

A memória de Gilberto Mestrinho não é formada apenas por obras, eleições e manifestações de carinho popular.

Uma das controvérsias mais importantes envolveu a construção da ala cultural do Sambódromo. Em 1999, o Ministério Público Federal ajuizou uma ação de improbidade administrativa contra Mestrinho e outros envolvidos na execução dos convênios utilizados para financiar as obras.

O processo apontou suspeitas de superfaturamento, irregularidades na aplicação dos recursos e prejuízo ao patrimônio público.

Em 2001, quando Mestrinho assumiu a presidência do Conselho de Ética do Senado, a existência da ação provocou questionamentos. Na época, ele negou as acusações, afirmou que a denúncia não tinha fundamento e declarou ser vítima de perseguição política.

A discussão chegou ao Superior Tribunal de Justiça por meio de recursos relacionados ao eventual ressarcimento dos prejuízos apontados. Os documentos confirmam a existência da ação e das acusações, mas é necessário observar que ser incluído em um processo não representa automaticamente uma condenação criminal definitiva. O caso pode ser consultado no acervo do Superior Tribunal de Justiça⁠.

Outro episódio politicamente desgastante ocorreu em 1985, no ambiente da Zona Franca de Manaus. O caso ficou conhecido como “escândalo do colarinho verde” e envolveu suspeitas de manipulação cambial e comercialização clandestina de cotas fictícias de importação.

O episódio atingiu a direção da Suframa e o ambiente político daquele período. Contudo, não deve ser apresentado como uma condenação pessoal de Mestrinho sem uma decisão judicial específica que estabeleça essa responsabilidade.

A polêmica ambiental

Gilberto Mestrinho também ganhou projeção nacional por declarações relacionadas à preservação da Amazônia.

Ele criticava o que considerava interferência internacional e defendia que a proteção da floresta não poderia impedir o desenvolvimento econômico nem condenar a população regional à pobreza.

Seus aliados interpretavam o discurso como defesa da soberania e do direito dos amazônidas de utilizar os recursos naturais. Ambientalistas, pesquisadores e adversários políticos consideravam que suas declarações diminuíam a gravidade do desmatamento e dos impactos ambientais.

O debate colocava Mestrinho no centro de uma discussão que permanece atual: como conciliar desenvolvimento, redução das desigualdades, soberania e preservação ambiental?

Mestrinho e Amazonino: aliança, rompimento e reconciliação

A relação entre Gilberto Mestrinho e Amazonino Mendes foi uma das mais importantes da política amazonense.

Mestrinho ajudou a projetar Amazonino, indicou-o para administrar Manaus e trabalhou por sua eleição ao Governo do Amazonas. Com o passar dos anos, os dois viveram aproximações, rompimentos e reconciliações públicas.

Mais do que uma relação pessoal, a história dos dois revela como o poder foi organizado no Amazonas durante décadas: grandes lideranças, alianças regionais, sucessores escolhidos dentro dos próprios grupos e disputas capazes de reorganizar todo o cenário político.

Em 1998, a reconciliação entre Mestrinho e Amazonino foi apresentada como resposta ao apelo de eleitores que desejavam ver novamente os dois no mesmo campo político.

A última travessia

Gilberto Mestrinho morreu em 19 de julho de 2009, aos 81 anos, em Manaus.

Ele estava internado havia aproximadamente 15 dias no Hospital Prontocord e enfrentava insuficiência renal crônica e outros problemas de saúde. Registros publicados na época apontaram complicações cardíacas no momento da morte. Mestrinho também havia passado por tratamento relacionado a um nódulo maligno no pulmão.

A despedida reuniu familiares, aliados, adversários, autoridades e populares. Os depoimentos ressaltaram sua inteligência política, a facilidade de conversar com diferentes públicos, o humor, a memória e o conhecimento sobre os municípios do Amazonas.

Naquele momento, o jingle voltou a tocar.

Ao som do “Boto Navegador”, a despedida transformou-se em uma última campanha, não por votos, mas pela preservação da memória.

Um nome ainda presente no Amazonas

Gilberto Mestrinho continua lembrado em diferentes espaços públicos:

* Centro de Convenções Professor Gilberto Mestrinho, o Sambódromo;
* Complexo Viário Gilberto Mestrinho, no Coroado;
* Avenida Governador Gilberto Mestrinho;
* Estádio Olímpico Municipal Gilberto Mestrinho, em Manacapuru;
* escolas, ruas e equipamentos públicos;
* homenagens concedidas por instituições legislativas e governamentais.

O Complexo Viário da Bola do Coroado recebeu também um memorial dedicado ao ex-governador. A inauguração e as características da estrutura foram registradas pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Amazonas⁠.

Entre o homem, o político e o mito

Gilberto Mestrinho foi cassado pela ditadura e reconduzido ao poder pelo voto popular. Venceu três eleições para governador, perdeu disputas municipais, tornou-se senador e encerrou a carreira sem conseguir a reeleição.

Realizou obras que permanecem na paisagem do Amazonas, mas também teve sua administração questionada em processos e investigações. Criou sucessores, rompeu alianças e participou da formação de um sistema político que dominou o estado por décadas.

O homem morreu em 2009. O personagem, porém, continua navegando.

Ele sobrevive nos depoimentos de quem viveu seus governos, nas estruturas que levam seu nome, nas controvérsias ainda discutidas e, principalmente, numa música que transformou uma campanha eleitoral em lembrança coletiva.

O “Boto Navegador” já não percorre os rios em busca de votos, mas permanece navegando pela história política do Amazonas.

Você viveu algum dos governos de Gilberto Mestrinho? Qual obra, discurso, eleição ou trecho do jingle “Boto Navegador” marcou sua memória? Conte nos comentários e ajude O Convergente e o Portal Manaós a preservar os fatos políticos do Amazonas.

Chamada para as redes sociais

Três vezes governador, cassado pela ditadura, alvo de denúncias e dono de um jingle inesquecível: quem foi, de fato, Gilberto Mestrinho?

A nova reportagem do editorial “Fatos Políticos”, de O Convergente e do Portal Manaós, volta no tempo para reconstruir a trajetória do homem que virou o “Boto Navegador”.

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