A inadimplência na Argentina ganhou força em meio ao programa de ajuste econômico conduzido pelo presidente Javier Milei. Cerca de 5,8 milhões de argentinos com acesso ao crédito formal acumulam pagamentos atrasados há mais de 90 dias.
Os dados mostram que aproximadamente 20,8 milhões de pessoas possuem empréstimos ou outras formas de financiamento no país. Portanto, quase três em cada dez consumidores desse grupo enfrentam dificuldades para manter as parcelas em dia.
Além disso, o volume de crédito destinado às famílias chega a aproximadamente 82,8 trilhões de pesos argentinos. Desse total, cerca de 13,5 trilhões de pesos, ou 16,3%, apresentam algum tipo de atraso.
O cenário expõe uma das principais pressões sobre as famílias argentinas durante o processo de reorganização econômica promovido pelo governo Milei.
Inflação desacelera
A alta da inadimplência ocorre apesar da forte redução da inflação em relação aos níveis registrados no início do atual governo.
Em julho, o Índice de Preços ao Consumidor da Argentina subiu 2,1%, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec). A inflação acumulada chegou a 33,8% em 12 meses e a 19,3% desde janeiro.
A desaceleração dos preços representa uma das principais bandeiras econômicas da gestão Milei. No entanto, a queda da inflação ainda não eliminou a pressão sobre o orçamento das famílias.
Ao mesmo tempo, consumidores enfrentam crédito caro, renda pressionada e despesas básicas que permanecem elevadas.
Peso das dívidas aumenta
A situação se tornou mais evidente nos empréstimos pessoais, cartões de crédito e financiamentos oferecidos por instituições fora do sistema bancário tradicional.
Levantamentos recentes apontam que o número de argentinos inadimplentes saltou de aproximadamente 2,4 milhões para 5,8 milhões em dois anos.
Entre os consumidores mais jovens, o cenário também preocupa. Quase 40% dos jovens que possuem acesso ao crédito registraram algum tipo de atraso nos pagamentos.
Outro ponto de atenção está nas empresas financeiras não bancárias e nas fintechs. Dados do Banco Central da República Argentina (BCRA) indicaram índice elevado de irregularidade nesse segmento.
Em fevereiro, a inadimplência entre provedores não financeiros alcançou 26,9%. Já nos empréstimos pessoais dessas instituições, o percentual chegou a 34,1%.
Menor inflação muda dinâmica
A redução da inflação também alterou o peso real das parcelas no orçamento.
Durante os períodos de inflação extremamente elevada, prestações fixadas em pesos perdiam valor real rapidamente. Assim, parte das dívidas ficava relativamente menor conforme os preços e salários avançavam.
Agora, com uma inflação mais baixa e juros reais elevados, esse efeito perdeu força. Consequentemente, as parcelas permanecem mais pesadas por mais tempo no orçamento das famílias.
Essa nova dinâmica ajuda a explicar o crescimento da inadimplência na Argentina, mesmo após a melhora de alguns indicadores macroeconômicos.
Bancos registram estabilidade
Apesar da pressão sobre os consumidores, os dados mais recentes do Banco Central argentino indicam uma interrupção no crescimento da inadimplência dentro do sistema bancário.
Em junho, a parcela de créditos irregulares de todo o setor privado caiu de 7,7% para 7,6%.
Entre as famílias, o índice permaneceu em 12,8%.
Por outro lado, os atrasos em empréstimos pessoais continuaram crescendo. O percentual passou de 15,9% em maio para 16,3% em junho.
Segundo o Banco Central, a estabilização geral ocorreu porque a carteira problemática cresceu em ritmo menor, enquanto o volume total de crédito aumentou.
A autoridade monetária também afirma que os bancos mantêm provisões e níveis de capital suficientes para absorver eventuais perdas.
Milei rejeita socorro
O governo argentino descarta, por enquanto, uma intervenção direta para ajudar consumidores endividados.
Milei classificou a inadimplência como um problema envolvendo agentes privados e afastou a possibilidade de um programa estatal para quitar ou aliviar dívidas.
Enquanto isso, o ministro da Economia, Luis Caputo, afirmou que instituições financeiras estudam alternativas para facilitar a renegociação.
Entre as possibilidades estão prazos maiores para pagamento e juros menores para consumidores que enfrentam dificuldades.
Crédito vira desafio econômico
A situação cria um obstáculo adicional para a estratégia econômica do governo.
A administração Milei aposta na expansão do crédito privado como uma das ferramentas para estimular o consumo, o investimento e a retomada da atividade econômica.
No entanto, consumidores inadimplentes encontram mais dificuldade para obter novos financiamentos. Além disso, juros elevados limitam a capacidade de recuperação das famílias mais endividadas.
Assim, a inadimplência na Argentina evidencia o contraste entre a melhora dos principais indicadores macroeconômicos e a realidade financeira de milhões de consumidores.
Enquanto o governo destaca a queda da inflação como uma das principais conquistas do ajuste, o crescimento das dívidas mostra que a recuperação do poder de compra e da capacidade de pagamento ainda representa um desafio para uma parcela expressiva da população.


