Entre milhares de livros, escritores e leitores que vão ocupar o Distrito Anhembi, em São Paulo, a literatura produzida por mulheres no Amazonas também terá espaço. Integrantes da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Coordenadoria Amazonas (AJEB-AM) participam da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, levando ao cenário literário nacional diferentes formas de narrar experiências, memórias e perspectivas construídas a partir da Amazônia.
A Bienal ocorre de 4 a 13 de setembro de 2026, no Distrito Anhembi, na capital paulista. A organização prevê 269 expositores e mais de 700 mil visitantes ao longo dos dez dias de programação.
A participação amazonense reúne nomes como Érica Lima Aguiar, Kátia Colares Ribeiro, Marilândia Gama e Eleonora Edithe Monteiro de Oliveira. Já a presidente da AJEB-AM, Arthemisa Gadelha, não estará presencialmente nesta edição, mas acompanhará as atividades das associadas e a divulgação da participação do grupo no Amazonas.
Arthemisa informou ainda que outras ajebianas, entre elas Dagmar Lira, também estarão presentes em atividades e publicações durante o evento.
A presença ocorre de diferentes maneiras. A AJEB-AM não fará o lançamento de uma antologia ou livro institucional próprio nesta edição. No entanto, associadas chegam a São Paulo com obras individuais, participação em publicações e atividades vinculadas ao universo literário, enquanto outras representam institucionalmente a coordenadoria.
O movimento coloca escritoras que produzem a milhares de quilômetros dos principais centros editoriais brasileiros diante de leitores, autores, editoras e instituições de diferentes estados.
Leia mais: Arthemisa Gadelha toma posse como presidente da AJEB-AM e Érica Lima assume a vice-presidência
Poesia amazonense chega a São Paulo
Entre as obras confirmadas está “Mar, Vento, Café e Poesia”, de Marilândia Gama. O livro reúne poesias e será levado pela escritora à Bienal.
Para Marilândia, a viagem também representa a oportunidade de observar como a produção amazonense circula e é recebida fora do estado. Esta não será sua primeira experiência no evento. Em 2024, ela participou da Bienal e realizou o lançamento de outra obra.
Agora, retorna com a expectativa de estabelecer novos contatos, conhecer autores e editoras e trocar experiências sobre os caminhos da publicação literária.

“Nós, escritores amazonenses, saímos do nosso estado para apresentar nossa obra, nossa literatura e nossos livros a outros autores”, afirmou.
Marilândia acredita que estar entre escritores de diferentes regiões também permite avaliar o espaço que a literatura amazonense vem conquistando fora do estado. Para ela, essas conexões podem abrir portas e apresentar novas possibilidades de publicação e circulação das obras.
A experiência, segundo a escritora, também desperta um novo olhar sobre aquilo que é produzido localmente.
Participar novamente da Bienal, afirmou, será uma oportunidade de ampliar conhecimentos e voltar a atenção ainda mais para “a nossa cultura amazonense”.
Para Eleonora, um sonho realizado
A Bienal também terá um significado particular para Eleonora Edithe Monteiro de Oliveira.
A escritora apresentará “Ondas Pequenas”, publicado pela Editora Sarin Sublime. A participação está prevista para 9 de setembro, às 19h30, no Anhembi, em São Paulo.

A obra é uma biografia construída em narrativa poética e celebra os 90 anos de Ondina Monteiro de Oliveira e José Batista de Oliveira.
Para Eleonora, chegar com o trabalho à Bienal representa a concretização de algo que ultrapassa a simples exposição de um livro.
“Significa um grande sonho realizado”, resumiu a escritora.
Ela também avalia que a produção literária amazonense vive um momento de maior visibilidade e espera que esse espaço continue crescendo.
“Entendo que está em grande evidência e a expectativa é que se expanda muito mais”, afirmou.
A expectativa é justamente transformar essa exposição em novas possibilidades para autores que constroem suas trajetórias a partir do Amazonas.
Eleonora passou a integrar oficialmente a AJEB-AM em 2025, quando tomou posse ao lado de outras jornalistas e escritoras.
Leia mais: Referências na escrita e na comunicação, AJEB-AM empossa novas integrantes
Representação vai além dos lançamentos
Apesar da presença de associadas com obras próprias, a AJEB-AM não realizará um lançamento institucional de livro ou antologia na edição de 2026.
A informação foi confirmada pela 1ª vice-presidente da associação, Érica Lima Aguiar, que estará em São Paulo representando a coordenadoria amazonense e a presidente Arthemisa Gadelha.
Érica também acompanhará a programação preparada pela AJEB Nacional e pelas demais coordenadorias presentes.
Segundo a vice-presidente, representantes de 15 estados integram a programação nacional da associação, que reúne lançamentos, sessões de autógrafos, rodas de conversa, sarau, revista literária e premiação do primeiro concurso nacional promovido pela entidade.
Para Érica, portanto, a presença do Amazonas também tem caráter institucional e estratégico.

“Estar presente é reafirmar o compromisso da AJEB-AM com o protagonismo feminino e com o incentivo à escrita, à criação e à circulação da literatura produzida por mulheres”, afirmou.
Além de prestigiar as escritoras que já chegam ao evento com publicações, Érica vê a experiência como uma forma de preparar novos espaços para a produção amazonense.
Segundo ela, a união entre as coordenadorias pode “abrir caminhos para que, nas próximas edições, as escritoras amazonenses ocupem esse grande palco com suas próprias obras”.
Uma Amazônia contada por mulheres
Para a presidente da AJEB-AM, Arthemisa Gadelha, participar de um evento com a dimensão da Bienal significa muito mais do que colocar livros diante de novos leitores.
São Paulo também se transforma em ponto de encontro entre escritoras, associações, instituições culturais, editoras e nomes da literatura nacional e internacional.
A oportunidade, segundo Arthemisa, permite divulgar as obras, trocar experiências e, principalmente, apresentar uma produção literária carregada de referências próprias da região.

“Quando nossas escritoras participam da Bienal, elas levam o nome do Amazonas e, sobretudo, levam a Amazônia”, destacou.
Para a presidente, há uma identidade amazônica presente nas narrativas, vivências e produções das escritoras do estado.
“Temos uma identidade própria, nossas narrativas, nossas vivências e um DNA amazônico presente naquilo que escrevemos e produzimos”, acrescentou.
Essa diversidade aparece também nos gêneros produzidos pelas associadas. Há mulheres atuando na poesia, romance, conto, crônica, biografia, pesquisa e outras vertentes.
Arthemisa considera que colocar essas autoras em um espaço nacional também significa afirmar que mulheres do Amazonas participam ativamente da produção intelectual e cultural brasileira.
Leia mais: AJEB Amazonas lança Clube da Leitura em homenagem à escritora e religiosa Irmã Marília Menezes
Kátia Colares: trabalho para chegar além do Amazonas
A participação na Bienal é apenas uma das etapas de um processo que começa muito antes da chegada das escritoras a São Paulo.
Para Kátia Colares Ribeiro, presidente emérita e diretora de Editoração da AJEB-AM, ampliar a visibilidade das escritoras exige incentivo contínuo à publicação, participação em projetos coletivos e entrada em outros espaços literários.

“A AJEB-AM tem desempenhado um papel fundamental e ativo para que as nossas associadas tenham seus escritos cada vez mais valorizados e difundidos”, afirmou.
Kátia destaca que esse trabalho inclui tanto o estímulo às antologias quanto o apoio às obras individuais produzidas pelas integrantes.
Até agora, segundo ela, a coordenadoria já idealizou três antologias de grande expressão. Duas reuniram escritoras de diferentes partes do Brasil, enquanto uma foi produzida exclusivamente com trabalhos das associadas locais.
A atuação não fica restrita às publicações.
Segundo Kátia, a diretoria também estimula a participação das escritoras em concursos literários no Brasil e no exterior. Para ela, os resultados começam a aparecer justamente quando essas autoras conseguem alcançar reconhecimento além das fronteiras amazonenses.
“Como fruto direto desse apoio contínuo, já celebramos resultados extraordinários, vendo diversas escritoras do nosso estado alcançarem notoriedade e reconhecimento em várias partes do mundo”, destacou.
A presidente emérita conhece de perto a história da associação no estado. A AJEB chegou ao Amazonas em 2018 sob sua liderança. Na atual gestão, Kátia permanece ligada aos projetos editoriais da entidade.
Um exemplo recente desse trabalho foi a antologia “Uma Carta para Você”, organizada por Kátia Colares Ribeiro, Núbia Litaiff Moriz Schwamborn, Raimunda Gil Shaeken e Tania Maria da Costa Luz e lançada em Manaus em 2025.
Leia mais: AJEB-AM realiza lançamento da antologia “Uma Carta para Você” no Palacete Provincial
Entre livros, contatos e novos caminhos
A participação na Bienal também coloca as amazonenses diante de uma cadeia que envolve muito mais do que escritores.
Editoras, agentes, leitores, instituições culturais e outros profissionais circulam pelo mesmo espaço. Para autoras que constroem suas carreiras longe dos grandes mercados editoriais, esse contato pode significar novas parcerias, referências e oportunidades.
É justamente essa possibilidade que aparece nas expectativas das entrevistadas.
Marilândia busca novas experiências e contatos. Eleonora chega com a realização de apresentar seu trabalho em um dos maiores encontros literários do país. Érica vê a participação como preparação para uma presença amazonense ainda maior nas próximas edições. Kátia destaca o trabalho de base necessário para ampliar a circulação das autoras. E Arthemisa enxerga na Bienal uma vitrine para uma literatura marcada por identidade própria.
São trajetórias distintas que se encontram em um mesmo ponto: a tentativa de fazer com que a produção literária feminina do Amazonas atravesse distâncias que ainda separam a região dos principais centros de circulação do livro no Brasil.
Do Amazonas para o Brasil
Quando escritoras amazonenses ocupam uma Bienal de alcance nacional, a Amazônia deixa de aparecer apenas como cenário ou objeto de observação.
Passa também a ser narrada por quem vive suas cidades, relações, memórias, afetos, desafios e transformações.
É nesse movimento que a presença das integrantes da AJEB-AM ganha significado para além dos lançamentos individuais. Cada livro levado a São Paulo também amplia a possibilidade de um leitor de outra região conhecer uma Amazônia narrada por suas próprias escritoras.
Como sintetiza Arthemisa Gadelha, é essa Amazônia, apresentada pelas vozes das mulheres amazonenses, que a associação pretende fazer chegar cada vez mais ao Brasil e ao mundo.


