Com presença constante em bairros de Manaus e comunidades do interior, igrejas fazem parte de redes de convivência que ultrapassam os momentos de culto. Durante o período eleitoral, essa proximidade também coloca lideranças religiosas no centro de uma discussão recorrente: qual é a capacidade real de influenciar o voto dos fiéis?
No Amazonas, a pergunta ganha relevância pelo próprio perfil religioso da população.
Dados do Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 39,4% dos moradores de 10 anos ou mais se declararam evangélicos. O percentual é o terceiro maior entre as unidades da Federação. Já os católicos correspondem a 47,4% da população nessa faixa etária.

Com a propaganda eleitoral permitida desde 16 de agosto, conforme o calendário das Eleições 2026 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), candidatos intensificaram a busca por apoios em diferentes segmentos da sociedade.
Nesse cenário, a proximidade com igrejas pode oferecer acesso a comunidades numerosas e organizadas. Isso, porém, não permite concluir que a orientação de uma liderança seja automaticamente transformada em voto.
Liderança amplia alcance, mas eleitor tem decisão própria
Para o analista político Helso Ribeiro, lideranças religiosas possuem maior possibilidade de exercer influência porque já mantêm uma relação direta com grupos de seguidores.
“A transferência de votos nunca é total”, afirma.

Segundo Helso, um pastor, padre ou outra liderança parte de uma condição diferente daquela de um apoiador comum justamente porque possui pessoas que acompanham suas orientações. Ainda assim, os fiéis também têm opiniões e preferências políticas próprias.
O analista também considera inadequado enxergar o chamado “voto evangélico” como uma escolha uniforme.
Para ele, existem diferenças entre as diversas correntes religiosas. Helso identifica maior proximidade entre orientação religiosa e comportamento eleitoral em determinados grupos neopentecostais, mas ressalta que mesmo nesses espaços não existe unanimidade.
Apoio religioso interessa a diferentes candidaturas
A capacidade de reunir e dialogar com grandes grupos ajuda a explicar por que lideranças religiosas são procuradas por candidatos.
Para Helso, esse interesse aparece tanto nas disputas majoritárias quanto nas proporcionais.
Um candidato ao Governo ou ao Senado pode buscar o apoio de uma liderança com forte presença pública. Já nas eleições para deputado estadual ou federal, a mobilização de determinados grupos pode contribuir para concentrar votos e aumentar a competitividade de uma candidatura dentro do próprio partido.
Assim, o peso político de uma liderança não depende necessariamente da capacidade de convencer todos os membros de uma igreja. O acesso direto a uma comunidade já representa um ativo relevante em uma disputa eleitoral.
O que diz uma liderança evangélica
Presidente da Ordem dos Ministros Evangélicos do Amazonas (OMEAM), o pastor Sadi Caldas afirma que a participação das igrejas no processo eleitoral deve ser entendida como parte do exercício da cidadania.

“As igrejas têm como objetivo usar suas prerrogativas como cidadã brasileira, amazonense, e exercer seu direito de cidadania”, diz.
Para Sadi, pastores também exercem função de orientação sobre diferentes assuntos da sociedade.
“A igreja escuta a voz do seu pastor”, afirma.
Segundo ele, essa relação não existe apenas no período eleitoral. Sadi defende que a liderança oriente os fiéis a avaliar a trajetória das autoridades e daqueles que disputam cargos públicos antes da decisão eleitoral.
O presidente da OMEAM também afirma que os líderes precisam observar os limites definidos pela legislação.
Segundo Sadi, pastores e demais autoridades religiosas sabem que templos não podem ser utilizados livremente para atos relacionados à campanha eleitoral e devem agir com cautela para evitar irregularidades.
Propaganda é proibida dentro de templos
A legislação eleitoral estabelece regras específicas para igrejas.
A Lei nº 9.504/1997, a Lei das Eleições, enquadra templos entre os bens considerados de uso comum para fins eleitorais. Dessa forma, esses espaços estão submetidos às restrições aplicáveis à propaganda eleitoral.
A mesma regra está prevista na Resolução nº 23.610/2019 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que disciplina a propaganda durante as eleições.
Em resposta à reportagem, o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) informou que é proibida a veiculação de propaganda eleitoral de qualquer natureza em templos religiosos.

A regra, entretanto, não impede candidatos de participar de celebrações religiosas.
Segundo o Tribunal, a simples presença de um candidato em um culto, missa ou outro evento religioso não caracteriza, isoladamente, propaganda eleitoral irregular, uma vez que também deve ser respeitada a liberdade constitucional de crença.
A análise muda quando o espaço religioso passa a ser usado para promover uma candidatura.
A jurisprudência do TSE sobre propaganda eleitoral em igrejas reúne casos envolvendo apresentação de candidatos, discursos de natureza eleitoral e manifestações de apoio realizadas dentro de templos. As circunstâncias de cada ocorrência são consideradas para determinar se houve propaganda irregular.
Apoio individual não é o mesmo que uso da igreja
A especialista em Direito Eleitoral Denise Coêlho explica que líderes religiosos possuem, como qualquer cidadão, liberdade de expressão e de crença.
Por isso, podem declarar apoio político individualmente.
“O limite está em não usar a estrutura, os meios de comunicação ou os recursos da entidade religiosa para fins eleitorais”, afirma.

Segundo Denise, pedido de voto durante celebrações, apresentação especial de candidato acompanhada de discurso político, distribuição de material eleitoral e transformação do evento religioso em ato de campanha estão entre situações que podem provocar questionamentos perante a Justiça Eleitoral.
A especialista também aponta que condutas mais graves podem ter consequências além da retirada de propaganda ou aplicação de multa, a depender do enquadramento jurídico e das provas existentes.
Abuso religioso não é categoria autônoma
Outro ponto importante está na expressão “abuso de poder religioso”.
Apesar de ser utilizada com frequência no debate público, o entendimento do TSE sobre abuso de poder religioso é de que não existe uma modalidade autônoma de abuso de poder religioso na legislação eleitoral.
Situações envolvendo o uso de estruturas religiosas podem ser analisadas a partir de ilícitos já previstos no ordenamento, dependendo das características do caso.
Por isso, a mera manifestação política de um pastor ou padre não significa, por si só, a existência de abuso eleitoral. A Justiça deve considerar elementos como forma, alcance, recursos utilizados e gravidade da conduta.
MP Eleitoral não recebeu denúncias sobre templos
Consultado pela reportagem, o Ministério Público Eleitoral no Amazonas informou que, até o momento da resposta, não havia recebido denúncias envolvendo propaganda eleitoral em igrejas, templos ou eventos religiosos no estado.

O órgão afirmou que espera de partidos e candidatos o cumprimento das regras eleitorais e ressaltou que propaganda política em templos é ilegal.
O MP Eleitoral também informou que, até então, não havia previsão de fiscalização específica exclusivamente para esse tipo de ocorrência. Eventuais irregularidades podem ser comunicadas por cidadãos pelos canais oficiais do Ministério Público Federal para denúncias.
TRE-AM não separa denúncias por esse recorte
Já o TRE-AM informou não possuir atualmente dados consolidados que permitam identificar quantas denúncias ou representações de propaganda irregular nas Eleições 2026 envolvem especificamente igrejas ou templos.
O Tribunal informou que decisões relacionadas a propaganda eleitoral podem ser pesquisadas em sua base pública de jurisprudência e disponibilizou também a Cartilha da Propaganda Eleitoral 2026, com as principais orientações sobre as regras aplicáveis à campanha.
O TRE-AM também disponibiliza uma versão analítica da Cartilha da Propaganda Eleitoral 2026, com informações mais detalhadas sobre as normas.
A fiscalização desse tipo de irregularidade, segundo o TRE-AM, está inserida no trabalho mais amplo de acompanhamento da propaganda eleitoral no estado.
Capital e interior têm realidades mais próximas
Quando a discussão chega às diferenças entre Manaus e os demais municípios, Helso Ribeiro alerta para o risco de atribuir automaticamente maior suscetibilidade política aos moradores do interior.
Segundo ele, a presença das igrejas também é significativa nas áreas periféricas da capital, especialmente em comunidades onde o poder público aparece com menor intensidade.
“Essas influências externas tocam tanto interior quanto a capital”, afirma.
Sadi Caldas apresenta percepção semelhante.
Para o presidente da OMEAM, o crescimento do acesso à tecnologia e à informação aproximou as duas realidades.
“No meu entender, há quase que uma equiparação, não há diferença”, diz.
A discussão, portanto, pode estar menos relacionada à divisão geográfica e mais à presença cotidiana que uma comunidade religiosa possui na vida de seus integrantes.
Eleitores rejeitam interferência direta
Nas ruas, moradores ouvidos pela reportagem fizeram uma separação clara entre orientação religiosa e escolha eleitoral.
Gabriel afirma que escuta o pastor para assuntos relacionados à fé e à família, mas não aceita que outra pessoa determine seu voto.
“Cada um sabe onde o calo aperta no seu dia a dia, então quem decide o meu voto sou eu”, afirma.
Para Socorro, indicar candidatos dentro da igreja pode provocar divisão entre os próprios fiéis.
“Quando o padre ou o pastor começa a falar de político A ou B, já divide o povo todinho. Vira palanque e estraga o ambiente da oração”, diz.
Mayara afirma que o apoio de uma liderança a um candidato que ela rejeita não alteraria seu voto.
“Minha fé no Senhor continua a mesma, mas o meu voto é racional, não cego”, afirma.
José também defende uma separação entre os dois campos.
Para ele, quando religião e campanha eleitoral são misturadas, existe o risco de a fé ser utilizada como instrumento para obtenção de cargos políticos.
Presença onde o Estado pouco chega
Samira, por outro lado, chama atenção para um fator que ajuda a explicar a força dessas instituições no Amazonas: a presença territorial.
“Tem um peso gigante. Aqui na nossa região, a igreja chega em comunidade do interior onde o governo nem pisa”, afirma.
Para ela, o contato permanente entre liderança e comunidade dá maior força à opinião desses religiosos no momento em que o eleitor avalia em quem votar.
A percepção expõe uma característica central da relação entre religião e política: influência não ocorre apenas por meio de discursos eleitorais. Ela também pode ser construída durante anos de convivência, confiança e presença social.
O voto permanece no centro da decisão
O peso das igrejas na eleição amazonense, portanto, envolve diferentes camadas.
Há números expressivos de fiéis, lideranças com grande alcance, estruturas comunitárias espalhadas pela capital e pelo interior e candidatos interessados em dialogar com esse público.
Ao mesmo tempo, os próprios eleitores ouvidos pela reportagem demonstram resistência à ideia de entregar sua escolha política a terceiros.
A legislação eleitoral acrescenta outro limite: lideranças possuem direito de se posicionar como cidadãos, mas igrejas e templos não podem ser transformados em locais de propaganda.
A reportagem procurou também a Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Manaus para ouvir o cardeal Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo metropolitano de Manaus, sobre a participação política da Igreja Católica e a influência das lideranças religiosas sobre os fiéis.
Não houve retorno até o fechamento desta reportagem.
Em uma eleição na qual diferentes grupos disputam espaço, apoio e confiança, as igrejas fazem parte do cenário político amazonense. O alcance dessa influência, entretanto, passa por uma variável que nenhuma liderança controla integralmente: a decisão individual de cada eleitor diante da urna.


