Elas não morrem por amor: o feminicídio nasce quando o controle vira sentença

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Por Érica Lima Barbosa

O resultado mais recente da pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, não deve ser lido apenas como estatística. Deve ser lido como denúncia. O Brasil não está apenas falhando em proteger mulheres; está naturalizando, todos os dias, os sinais que antecedem a morte.

A pesquisa aponta que 37,5% das mulheres brasileiras sofreram algum tipo de violência ou agressão nos últimos 12 meses, o maior índice já registrado pela série histórica do levantamento. Em números absolutos, isso representa ao menos 21,4 milhões de mulheres de 16 anos ou mais atingidas por alguma forma de violência. O mesmo estudo mostra que 31,4% sofreram ofensas verbais, como insultos, humilhações e xingamentos. Ou seja: antes da agressão física, quase sempre há uma pedagogia cruel da destruição emocional. 

É preciso dizer com todas as letras: o feminicídio não começa com a faca, com o tiro, com a paulada ou com a asfixia. Ele começa quando a mulher perde o direito de ser quem é. Começa quando o agressor controla sua roupa, seu telefone, seu dinheiro, suas amizades, sua liberdade e até sua maneira de existir.

A filósofa Simone de Beauvoir nos ensinou que a mulher foi historicamente colocada na posição de “outro”, como se sua existência dependesse da autorização masculina. Essa lógica ainda atravessa muitas relações. O abusador não aceita a mulher como sujeito; ele a trata como posse. Já Hannah Arendt, ao refletir sobre poder e violência, ajuda-nos a compreender que a violência aparece quando o poder legítimo fracassa e tenta se impor pela força. No relacionamento abusivo, o agressor não dialoga: ele domina.

A violência contra a mulher, portanto, não é um desvio individual. É um padrão social. É uma herança cultural. É uma estrutura de controle.

O pesquisador Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, tem chamado atenção para a necessidade de tratar o feminicídio como prioridade também no âmbito do SUS, com vigilância, produção de dados e prevenção. A Fiocruz Amazônia coordena a estratégia Vigifeminicídio, que busca mapear e detalhar as circunstâncias dos assassinatos femininos em capitais da Amazônia Ocidental, incluindo Manaus, além do Rio de Janeiro. A proposta é fundamental porque feminicídio não pode ser visto apenas como caso de polícia depois que a mulher morre; precisa ser visto como um fenômeno de saúde pública, desigualdade, território, gênero e omissão institucional. 

Manaus conhece bem essa dor. O Amazonas já assistiu a crimes que ultrapassaram a esfera policial e se transformaram em feridas públicas. O caso de Kimberly Karen Mota de Oliveira, ex-Miss Manicoré, assassinada aos 22 anos, em maio de 2020, em Manaus, chocou o estado. Segundo o Tribunal de Justiça do Amazonas, o réu Rafael Rodrigues foi levado a júri popular pelo crime, e posteriormente condenado pelo Conselho de Sentença da 2ª Vara do Júri. 

Kimberly era jovem, bonita, conhecida, tinha sonhos e visibilidade. Mas nem a visibilidade protege uma mulher quando a cultura da posse masculina se sente autorizada a decidir sobre sua vida. Esse caso precisa ser lembrado não pelo espetáculo da tragédia, mas pelo alerta: nenhuma mulher está imune quando os sinais de abuso são minimizados.

Outro caso de extrema brutalidade foi o de Débora da Silva Alves, grávida de oito meses, assassinada em Manaus. O Tribunal de Justiça do Amazonas informou que os réus foram pronunciados por duplo homicídio qualificado, aborto provocado por terceiro e ocultação de cadáver. A denúncia relatou que Débora foi asfixiada, teve o corpo queimado e o bebê retirado de seu ventre. É impossível não se perguntar quantas camadas de desumanização antecedem um crime dessa dimensão. 

Também permanece na memória o assassinato de mulheres como Aline Pâmela Teixeira Machado, morta a pauladas pelo marido em Manaus. Reportagem da Amazônia Real informou que ela já havia registrado boletins de ocorrência antes de ser assassinada. Esse dado é devastador porque mostra que, muitas vezes, a mulher grita antes de morrer, mas o sistema, a família, a vizinhança ou a sociedade não escutam com a urgência necessária. 

É aqui que a crítica precisa ser mais dura: o Brasil ainda trata a violência doméstica como se fosse um conflito de casal. Não é. Violência doméstica é uma engrenagem de dominação. É projeto de apagamento. É a tentativa de transformar a mulher em alguém pequena, culpada, isolada, dependente e com medo.

A escritora e pensadora bell hooks afirmava que amor e dominação não podem coexistir. Onde há medo permanente, não há amor. Onde há ameaça, não há cuidado. Onde há controle, não há proteção. Há abuso.

Por isso, quando falamos de perfil abusivo, precisamos abandonar a romantização do ciúme e encarar os sinais. O agressor raramente se apresenta como agressor no começo. Muitas vezes, ele se apresenta como intenso, apaixonado, protetor, preocupado, carinhoso demais. Mas, aos poucos, o “cuidado” vira fiscalização. A presença vira invasão. A paixão vira sufocamento.

10 sinais de alerta que nenhuma mulher deve ignorar

1. Controle sobre sua rotina
Ele quer saber onde você está, com quem está, por que demorou a responder e exige explicações constantes.
2. Ciúme tratado como amor
Desconfiança permanente, acusações sem prova e crises de ciúme não são demonstrações de afeto. São sinais de posse.
3. Isolamento da família e dos amigos
O abusador tenta afastar a mulher da rede de apoio para que ela dependa emocionalmente apenas dele.
4. Humilhações, ironias e xingamentos
Quando ele diminui sua inteligência, sua aparência, sua fé, sua profissão ou sua história, já existe violência psicológica.
5. Controle financeiro
Impedir que a mulher trabalhe, estudar seus gastos ou usar dinheiro como chantagem é forma de aprisionamento.
6. Invasão de celular e redes sociais
Exigir senha, vigiar mensagens, monitorar localização e controlar postagens são práticas abusivas.
7. Ameaças disfarçadas
Frases como “você vai se arrepender”, “ninguém vai te querer” ou “se não for minha, não será de ninguém” devem ser levadas a sério.
8. Explosões de raiva seguidas de desculpas
O ciclo da violência costuma ter agressão, arrependimento, promessa de mudança e nova agressão.
9. Agressões consideradas “pequenas”
Empurrões, tapas, apertões, puxões de cabelo, destruição de objetos e socos na parede são sinais de escalada.
10. Estrangulamento, ameaça com arma ou perseguição após término
Esses são sinais de risco extremo. Nesses casos, a mulher precisa buscar ajuda imediata e acionar sua rede de proteção.

A filósofa Judith Butler nos ajuda a pensar sobre quais vidas são socialmente consideradas dignas de luto. No caso das mulheres vítimas de feminicídio, há uma perversidade: a comoção costuma vir depois da morte, mas a escuta deveria vir antes. A sociedade chora quando a mulher aparece no noticiário, mas muitas vezes duvida dela quando ela denuncia.

Essa inversão precisa acabar.

Não se pode exigir que a mulher prove até o último hematoma que está em risco. Não se pode esperar que ela esteja morta para reconhecer que vivia violência. Não se pode transformar denúncia em fofoca, medo em exagero, pedido de socorro em drama.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública também mostra que muitas mulheres não procuram a polícia porque acreditam que podem resolver sozinhas, por falta de provas, medo de represálias ou descrença na solução institucional. Esse dado revela uma tragédia silenciosa: além de sofrer violência, a mulher ainda precisa calcular se será acreditada, protegida ou julgada. 

É por isso que a discussão sobre feminicídio precisa sair do campo da comoção e entrar no campo da decisão pública. Precisamos de delegacias especializadas fortalecidas, medidas protetivas fiscalizadas, atendimento psicológico, casas de abrigo, assistência jurídica, independência econômica, educação de gênero nas escolas e responsabilização rápida de agressores.

Mas também precisamos de uma mudança cultural profunda dentro das famílias. Pais precisam educar filhos homens para não confundirem masculinidade com domínio. Mães precisam orientar filhas para não aceitarem humilhação como parte de relacionamento. Amigas precisam acreditar umas nas outras. Vizinhos precisam denunciar. Igrejas, escolas, empresas e instituições precisam parar de tratar a violência como assunto privado.

Porque não é privado aquilo que mata milhares de mulheres.

O feminicídio é a expressão mais extrema de uma sociedade que ainda tolera homens violentos, desculpa comportamentos abusivos e responsabiliza mulheres por não terem saído antes. Mas sair de uma relação abusiva não é simples. Muitas vezes, é justamente o momento da separação que aumenta o risco. Por isso, a saída precisa ser planejada, acompanhada e protegida.

Quando uma mulher diz “tenho medo dele”, a sociedade precisa ouvir. Quando uma mulher diz “ele me persegue”, a polícia precisa agir. Quando uma mulher diz “ele me ameaçou”, a família precisa acolher. Quando uma mulher diz “quero terminar, mas tenho medo”, todos precisam entender: ela pode estar tentando salvar a própria vida.

Kimberly, Débora, Aline e tantas outras mulheres do Amazonas não podem ser lembradas apenas como vítimas. Elas precisam ser lembradas como nomes que exigem resposta. Cada uma delas revela uma falha coletiva. Cada uma delas nos obriga a perguntar: quantas mulheres ainda estão vivendo hoje os sinais que antecedem a tragédia?

O amor não mata.
O amor não humilha.
O amor não vigia.
O amor não ameaça.
O amor não prende.

Quem mata não ama. Quem controla não protege. Quem agride não cuida.

Enquanto uma mulher precisar escolher entre permanecer em uma relação violenta ou arriscar morrer ao tentar sair dela, nós ainda estaremos fracassando como sociedade.

Em caso de violência, procure ajuda. Ligue 180 para orientação e denúncia. Em situação de emergência, ligue 190.

Mini biografia

Érica Lima Barbosa Aguiar é jornalista, escritora, empresária e pesquisadora especialista em pesquisa qualitativa. Integra a diretoria da AJEB Nacional, da Rede Sem Fronteiras e atua como vice-presidente da AJEB Amazonas. Tem textos literários publicados em diversas antologias e desenvolve análises críticas sobre política, sociedade, cultura, comunicação pública e protagonismo feminino.

Este artigo foi publicado nos portais O Convergente e Manaós 

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