Não comece sua campanha aos 45 do segundo tempo

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Por Renato Bagre —  Consultor Político Estratégico

Tem candidato que vai disputar eleição em outubro e ainda não começou nada.

Não tem nome construído. Não tem equipe. Não tem projeto. Não tem identidade definida. 

Não tem profissional contratado. Não tem pré-campanha organizada.

 

Tem vontade. Tem o nome. Tem a certeza de que “dá tempo”.

 

Não dá.

 

Em 2022, o Amazonas teve 443 candidatos disputando 24 vagas de deputado estadual. 

E outros 173 nomes brigando por apenas 8 cadeiras federais.

 

Pense nisso por um instante.

 

Foram mais de 600 candidaturas. E ainda havia a disputa pelo Senado, pelo governo do estado, com mais de 2,6 milhões de eleitores aptos a votar, espalhados por 62 municípios, rios, ramais, comunidades e calhas.

Em 2026, a tendência é que esse número cresça. Mais partidos. Mais federações. Mais gente acreditando que dá tempo de entrar em setembro e ganhar em outubro.

 

Esse é o campo. Esse é o tamanho real da batalha.

 

A legislação eleitoral mudou a lógica do processo. A campanha oficial ficou mais curta. 

A pré-campanha, por outro lado, ganhou espaço e legitimidade. Quem entendeu isso saiu na frente.

A partir de abril, teremos seis meses até a eleição.

Seis meses parecem muito. Não são.

Porque campanha não se mede em dias corridos. Mede-se em janelas. Momentos de construção que, se perdidos, não voltam.

Identidade não se instala em 45 dias. Projeto não se apresenta em sprint. Eleitor não adota candidato que acabou de conhecer.

Tudo isso tem prazo. E o prazo está correndo agora.

 

Tem mais uma conta que precisa ser feita.

Os bons profissionais de campanha não esperam julho. Não esperam junho. Eles já estão sendo procurados, avaliados e contratados agora. Marqueteiros, estrategistas, gestores de comunicação, produtores de conteúdo com experiência real em campanha.

Não é mercado grande. É mercado disputado.

E não é só a concorrência eleitoral que disputa esses profissionais. Projetos de comunicação, assessorias de mandato, demandas corporativas. Tudo isso compete pelo mesmo time limitado de gente que sabe trabalhar sob pressão política.

Quem chega tarde não encontra o melhor. Encontra o que sobrou.

 

Há ainda um fator que pouca gente coloca na conta: tudo que está acontecendo no mundo em 2026 vai competir atenção pelo ativo mais precioso de toda campanha eleitoral: o eleitor.

 

A Copa do Mundo vai parar o Brasil em junho e julho. O Festival de Parintins vai dominar a atenção do Amazonas no final de junho. Os escândalos financeiros e políticos, já em curso, continuam ocupando espaço nas conversas, nas redes, no noticiário. As guerras que não dão trégua. A economia segue instável.

 

O eleitor não está esperando o candidato aparecer. Ele está sendo disputado o tempo todo, por tudo, em todas as direções. Candidato que entra tarde nessa disputa começa com desvantagem de atenção. E atenção, em ano eleitoral, vale tanto quanto voto.

 

Existe um caminho que precisa ser percorrido. Ele não é opcional.

 

Construção de identidade pública: quem é o candidato, o que pensa, o que representa, onde coloca limites. Isso não se improvisa. Se consolida com repetição, com lógica, com tempo.

Formação de equipe: quem vai conduzir o processo, quem responde pelo quê, quem aguenta a pressão sem explodir no momento errado.

 

Projeto político: não é um plano de governo para o site. É a proposta que o eleitor consegue repetir. A ideia que gruda.

Estrutura de pré-campanha: presença organizada, agenda com propósito, conteúdo que aprofunda em vez de apenas aparecer.

E, por fim, mobilização que é transformar quem já entendeu em alguém que também carrega a campanha. Que defende quando o candidato não está. Que pede voto espontaneamente. Que assume o projeto como seu.

Tudo isso leva tempo. Tudo isso tem fases. Tudo isso precisa começar antes do que a maioria imagina.

 

O brasileiro tem uma relação estranha com o tempo. Deixa para a última hora. Acredita que a adrenalina resolve. Mas sempre são centenas de adversários, e num estado continental como, por exemplo, o Amazonas, raramente resolve.

 

Campanha que começa atrasada improvisa. Campanha que improvisa não constrói identidade. Sem identidade, o candidato vira mais um nome numa urna já lotada.

E aí não é derrota por falta de votos.

É derrota por falta de tempo.

Urgência não é alarmismo. É método.

Quem começa agora ainda constrói. Quem espera o segundo tempo já está jogando com o placar contra.

Por Renato Bagre | CEO UNC — Unidade Criativa
Consultor Político Estratégico e Criativo. Atua há mais de 20 anos em campanhas eleitorais em todo o Norte do Brasil.

Leia mais: Debate Político: Renato Bagre comenta cenário político e desafios para comunicação eleitoral em 2026

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