O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), proibiu o deputado federal Mário Frias (PL-SP) e outros investigados na Operação Make Up de deixarem o Brasil sem autorização judicial. A decisão também determina o recolhimento dos passaportes e impede que os alvos da investigação mantenham contato entre si.
As medidas cautelares foram determinadas em decisão de 3 de setembro, que estava sob sigilo e teve o conteúdo divulgado nesta quinta-feira (10). Entre os atingidos está também a produtora Karina Ferreira da Gama, responsável pela Go Up Entertainment e ligada ao filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Ao justificar a proibição de contato, Dino apontou risco de interferência no andamento da investigação. Segundo o ministro, os elementos reunidos indicam possibilidade de alinhamento de versões, combinação de depoimentos, ocultação ou destruição de provas e interferência na coleta de informações ainda pendentes.
No caso específico de Frias, Dino também mencionou que o parlamentar demorou a prestar informações ao STF enquanto estava em viagem internacional. Na decisão, o ministro citou episódios recentes de saída do país de parlamentares diante de investigações criminais para justificar a restrição.
Operação investiga destino de emendas
A Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up nesta quinta-feira e cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em endereços localizados em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal.
A investigação apura suspeitas de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares repassadas a organizações da sociedade civil. Entre as entidades investigadas estão o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC), ambas presididas por Karina Gama.
Segundo a PF, há indícios de uma estrutura formada por agentes públicos e privados que teria direcionado recursos para empresas subcontratadas de maneira irregular, inclusive sem comprovação da efetiva prestação dos serviços.
Os investigadores apuram possíveis crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e irregularidades em contratações públicas. As suspeitas ainda estão em investigação e não representam condenação dos envolvidos.
PF aponta transferências de Frias para produtora
Relatórios financeiros analisados pela Polícia Federal também identificaram transferências de aproximadamente R$ 645,4 mil feitas por Mário Frias diretamente à Go Up Entertainment em menos de dois meses.
Segundo a investigação, os valores foram movimentados entre novembro e dezembro de 2025. A PF afirmou que pretende esclarecer a origem dos recursos, por considerar as transferências incompatíveis com os rendimentos identificados do parlamentar.
Frias também destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil para projetos que passaram a ser analisados pelos órgãos de controle. Karina afirma que os recursos destinados a atividades ainda não executadas permanecem disponíveis e que os projetos começaram a avançar em 2026.
Karina diz ter sofrido pressão por delação
Paralelamente ao avanço da investigação, Karina Gama afirmou ter sofrido ameaças, chantagens e pressão para fazer uma delação premiada.
Em entrevista concedida à coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, um dia antes da operação, Karina relatou que pessoas que se apresentaram como oficiais de Justiça teriam ido até sua residência à noite sem apresentar documentos. Ela disse ainda que familiares e fornecedores ligados às empresas teriam sido abordados.
Karina também afirmou ter sido procurada por um pastor evangélico de Brasília que, segundo ela, teria sugerido que firmasse um acordo de colaboração premiada para evitar consequências judiciais mais graves. A produtora sustenta que vem entregando os documentos solicitados pelas autoridades e nega conhecer irregularidades relacionadas à captação de recursos para o filme.
A empresária teria registrado ainda em cartório uma declaração na qual afirma ter sofrido pressão para fornecer informações contra Flávio Bolsonaro, sob a alegação de que poderia ser alvo de operações caso não colaborasse. Até o fechamento desta matéria, porém, não foi localizada uma cópia pública desse documento nem uma confirmação independente do conteúdo específico atribuído a ele.
O relato público de Karina sobre ameaças e pressão para uma colaboração premiada, por outro lado, foi confirmado em entrevista publicada nesta quinta-feira.
Flávio Bolsonaro não é alvo da Make Up
Embora o nome de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apareça no contexto das investigações envolvendo o financiamento de “Dark Horse”, o senador e candidato à Presidência não é alvo da Operação Make Up.
O financiamento privado do filme é objeto de outra frente de investigação no STF, sob relatoria do ministro André Mendonça. Essa apuração envolve transferências atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para custear a produção.
Flávio Bolsonaro reconheceu anteriormente ter buscado recursos para o longa, mas nega que dinheiro público tenha sido usado na produção. Nesta quinta-feira, ele classificou a operação autorizada por Dino como uma tentativa de interferência política na disputa eleitoral e voltou a afirmar que a produção não recebeu recursos públicos.
As duas linhas de investigação seguem em andamento e analisam fluxos financeiros distintos ligados às entidades, empresas e pessoas envolvidas na produção de “Dark Horse”.


