MANAUS – Há uma Manaus que aprendemos nos livros escolares: nasceu em 1669, em torno do Forte de São José da Barra do Rio Negro; cresceu, enriqueceu com a borracha, tornou-se a “Paris dos Trópicos” e depois se reinventou com a Zona Franca.
Essa história está errada?
Não exatamente.
Mas ela é incompleta.
Quando as obras de historiadores, pesquisadores e escritores que dedicaram suas vidas a estudar o Amazonas são colocadas lado a lado, surge uma cidade muito mais complexa.
Uma Manaus em que até a data considerada como seu nascimento provoca discussão entre pesquisadores.
Uma cidade cuja história não começa com os portugueses, porque aqui já havia povos, territórios, conflitos, culturas e sistemas de vida muito antes da construção de qualquer fortificação europeia.
E uma cidade na qual personagens como Ajuricaba transitam entre o documento histórico, a construção historiográfica, a literatura e o mito.
Neste 24 de outubro, quando Manaus completa oficialmente 357 anos, o Portal Manaós percorre algumas das principais obras dedicadas à história amazonense para fazer uma pergunta simples:
o que, afinal, é mito e o que é verdade na história de Manaus?
Antes do forte, já existia uma história
Uma das primeiras correções necessárias na narrativa tradicional é abandonar a ideia de que Manaus surgiu em um território vazio.
Não surgiu.
A área do rio Negro era habitada por diferentes povos indígenas muito antes da ocupação portuguesa.
O historiador amazonense Arthur Cezar Ferreira Reis, em sua clássica História do Amazonas, publicada originalmente em 1931, construiu uma das primeiras grandes sínteses da história regional. A obra tornou-se referência para gerações posteriores e é considerada um marco da historiografia amazonense. (Museu Nacional dos Povos Indígenas)
Mas a historiografia também muda.
Pesquisadores contemporâneos passaram a reler parte das interpretações de Arthur Reis, sobretudo sua maneira de explicar a colonização portuguesa e de construir personagens históricos.
Isso não diminui sua importância.
Ao contrário: mostra como a História é feita.
Cada geração revisita documentos, faz novas perguntas e confronta interpretações anteriores.
Hoje, a narrativa sobre Manaus reconhece com muito mais força que a presença indígena não constitui um simples “capítulo anterior” à cidade.
Ela faz parte da própria formação da cidade.
MITO OU VERDADE: Manaus foi fundada em 1669?
Nem tão simples.
1669 é o ano oficialmente convencionado como o nascimento de Manaus porque teria ocorrido naquele período a construção do Forte de São José da Barra do Rio Negro, estrutura portuguesa destinada a consolidar o domínio colonial na região.
A própria Prefeitura de Manaus reconhece o termo: 1669 foi “convencionado” como ano de nascimento da cidade. (Prefeitura de Manaus)
E esse detalhe é importante.
Porque historiadores não são unânimes sobre a data exata da construção do forte.
Levantamentos historiográficos registram versões que vão de 1667 a 1669, enquanto outros documentos e autores apontam datas posteriores. O próprio Arthur Cezar Ferreira Reis teria adotado 1669 como solução para uma controvérsia documental que já atravessava a historiografia. (Associação Comercial do Amazonas)
Portanto:
VERDADE: 1669 é oficialmente utilizado como marco de nascimento de Manaus.
MITO: acreditar que existe unanimidade documental de que o forte foi construído exatamente naquele ano ou que a história humana da cidade começou ali.
Não existe.
Uma cidade que ainda não se chamava Manaus
Outro equívoco comum é imaginar que a cidade chamada Manaus já existia com esse nome desde o século XVII.
Também não.
A historiadora e escritora Etelvina Garcia, em Manaus: referências da história, percorre justamente as diferentes fases administrativas e políticas da cidade.
Sua narrativa passa pelo Lugar da Barra, pela Vila da Barra, pela Cidade da Barra do Rio Negro e, finalmente, pela Cidade de Manaus.
O nome e a condição administrativa foram mudando conforme a própria região se transformava.
Em 24 de outubro de 1848, a então Vila da Barra foi elevada à categoria de cidade, chamada Cidade da Barra do Rio Negro.
É essa data que explica o 24 de outubro.
Mas ela ainda não se chamava oficialmente Manaus.
O nome seria adotado posteriormente, em 1856.
Por isso, outra distinção precisa ser feita:
MITO: 24 de outubro de 1669 foi o dia da fundação de Manaus.
VERDADE: 1669 é o ano convencionalmente associado ao surgimento do núcleo colonial; 24 de outubro remete à elevação da antiga Vila da Barra à categoria de cidade, em 1848.
A cidade comemorada hoje resulta da junção simbólica desses diferentes marcos históricos.
Manaus vem dos Manaó?
Em linhas gerais, sim.
O nome da cidade preserva a memória do povo indígena Manaó, que habitava a região do rio Negro.
Mas até aqui é preciso cuidado com as simplificações.
Durante décadas difundiu-se que “Manaus” significaria literalmente “Mãe dos Deuses”.
A interpretação aparece repetidamente em narrativas institucionais e culturais.
Porém, traduções de palavras indígenas realizadas fora de seu contexto linguístico original precisam ser tratadas com cautela.
O que é historicamente mais seguro afirmar é que o nome da cidade está associado aos Manaó.
A tradução poética de seu significado deve ser apresentada como tradição interpretativa, e não necessariamente como uma equivalência linguística incontestável.
Ajuricaba: homem, herói ou mito?
Poucos personagens mostram tão bem as disputas da memória amazonense quanto Ajuricaba.
Ele existiu.
Foi uma liderança indígena Manaó e esteve envolvido na resistência contra o avanço português no rio Negro durante o século XVIII.
Isso pertence à História.
Mas o Ajuricaba que atravessou os séculos também foi sendo reconstruído pelos autores que escreveram sobre ele.
Arthur Cezar Ferreira Reis, em História do Amazonas, ajudou a consolidar a imagem de Ajuricaba como grande guerreiro indígena e símbolo de resistência.
A historiografia recente, porém, analisa essa construção com mais distância.
Estudo publicado em 2026 sobre a historiografia amazonense mostra que Arthur Reis e outros intelectuais ligados ao Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas contribuíram para a transformação de Ajuricaba em uma espécie de herói fundador da identidade regional.
Isso significa que Ajuricaba foi inventado?
Não.
Significa que o personagem histórico recebeu, posteriormente, uma dimensão simbólica.
O próprio Reis questionou a acusação colonial de que Ajuricaba teria sido aliado dos holandeses. A historiografia registra que essa acusação poderia ter servido como justificativa para ofensivas portuguesas contra os Manaó e para guerras de escravização.
Décadas depois, o escritor amazonense Márcio Souza retomaria essa memória em A Paixão de Ajuricaba.
Na literatura e no teatro, Ajuricaba ganha voz, humanidade e protagonismo indígena.
Pesquisadores apontam justamente essa diferença: enquanto documentos coloniais foram produzidos principalmente pelo olhar do colonizador, a obra de Márcio Souza desloca a narrativa e coloca os indígenas no centro do conflito.
Portanto:
VERDADE: Ajuricaba foi personagem histórico ligado à resistência dos Manaó.
MITO/LENDA: alguns acontecimentos atribuídos a ele foram ampliados ou reinterpretados pela tradição oral e pela construção literária.
CONTRADIÇÃO HISTORIOGRÁFICA: dependendo do período e de quem escreve, Ajuricaba aparece como inimigo da Coroa, suposto aliado estrangeiro, guerreiro indígena, mártir ou símbolo da resistência amazônica.
É exatamente aí que a História fica mais interessante.
A “Paris dos Trópicos” existiu?
Sim. Mas não para todos.
Talvez nenhum apelido sobre Manaus tenha sido tão repetido quanto “Paris dos Trópicos”.
Durante o auge da economia da borracha, entre o final do século XIX e o início do XX, Manaus passou por profundas transformações.
O dinheiro do látex financiou grandes obras.
Vieram iluminação elétrica, bondes, edifícios monumentais, porto, mercados, palacetes e o Teatro Amazonas.
A elite desejava uma capital cosmopolita.
Mas a historiadora Edinea Mascarenhas Dias, em A Ilusão do Fausto: Manaus 1890-1920, desmonta uma visão excessivamente romântica desse período.
O título da obra já contém a provocação: havia fausto, mas havia também ilusão.
A Manaus enriquecida pela borracha passou por um intenso processo de modernização urbana, mas a riqueza não era compartilhada igualmente.
Por trás das fachadas elegantes estavam trabalhadores pobres, conflitos sociais, expulsões, controle urbano e desigualdade.
A obra questiona justamente a memória nostálgica segundo a qual toda a cidade teria desfrutado igualmente daquela prosperidade.
Assim:
VERDADE: Manaus viveu um período excepcional de riqueza e modernização durante a economia da borracha.
MITO: imaginar que toda a população viveu o luxo representado pelos palácios e pelo Teatro Amazonas.
A “Paris dos Trópicos” era real como projeto urbano e símbolo de uma elite.
Mas existia outra Manaus ao lado dela.
A literatura mostra a cidade que os documentos nem sempre conseguem mostrar
É justamente nessa fronteira entre História e literatura que autores amazonenses ajudam a compreender Manaus.
Márcio Souza, em obras como Galvez, Imperador do Acre, transforma o período da borracha em matéria de sátira, crítica política e revisão histórica.
A Manaus de sua ficção aparece como cidade de aventureiros, políticos, empresários, personagens ambiciosos e contradições.
A própria editora da obra descreve a Manaus daquele período como uma espécie de “meca” de caçadores de fortuna atraídos pelo boom da borracha.
O romance não deve ser lido como documento factual.
Mas ele ilumina uma verdade social.
A literatura consegue mostrar ironias, comportamentos e contradições que um decreto administrativo jamais mostraria.
É por isso que ficção e História não são a mesma coisa, embora possam conversar entre si.
“Paris dos Trópicos” ou cidade amazônica?
Há ainda outra contradição importante.
Durante muito tempo, Manaus foi valorizada justamente pela comparação com cidades europeias.
Quanto mais “francesa”, “inglesa” ou “europeia” parecesse, maior seria sua demonstração de modernidade.
Hoje essa narrativa é questionada.
Por quê?
Porque Manaus não precisava ser uma cópia de Paris para ter importância.
Sua identidade também estava e permanece nos povos indígenas, no rio Negro, nos trabalhadores, nos mercados, nos barcos, na alimentação, nos bairros populares e na enorme diversidade formada ao longo dos séculos.
Manaus era uma cidade cheia de igarapés?
Verdade.
Muito mais do que hoje.
Antes das grandes intervenções urbanísticas, cursos d’água atravessavam áreas que posteriormente seriam profundamente modificadas pela expansão urbana.
Pontes, aterros e obras alteraram a paisagem.
Isso explica por que determinadas áreas do Centro Histórico parecem hoje tão distantes da geografia que existia no século XIX.
A chamada modernização urbana significou não apenas construir.
Também significou apagar ou transformar partes da paisagem original.
E as lendas?
Aqui é preciso fazer uma distinção fundamental.
Lenda não é sinônimo de mentira.
Ela pertence a outra forma de conhecimento e transmissão cultural.
O boto que vira homem, a cobra-grande, os encantados, as visagens, seres dos rios e da floresta não devem ser apresentados jornalisticamente como acontecimentos comprovados.
Mas eles são absolutamente reais enquanto patrimônio do imaginário amazônico.
São histórias transmitidas entre gerações.
Explicam medos.
Criam códigos sociais.
Protegem lugares.
Orientam comportamentos.
E revelam a relação profundamente simbólica que povos da Amazônia desenvolveram com rios e florestas.
Por isso, quando uma avó amazonense conta uma história de boto ou de cobra-grande, não está necessariamente tentando produzir uma aula de História.
Está transmitindo cultura.
A cidade também está debaixo da cidade
Há outra imagem poderosa para compreender Manaus.
Parte da cidade antiga desapareceu visualmente.
Igarapés foram modificados.
Prédios foram demolidos.
Ruas mudaram.
Praças tiveram diferentes nomes.
Estruturas desapareceram.
Etelvina Garcia realiza justamente esse trabalho de recuperar referências e momentos que ajudam a montar o quebra-cabeça urbano de Manaus. Sua obra acompanha acontecimentos políticos, a chegada da navegação a vapor, a imprensa, o Mercado Municipal, o Teatro Amazonas, o porto, revoltas, crise econômica e, posteriormente, a implantação da Zona Franca.
É como se a Manaus atual estivesse construída sobre várias outras Manaus.
E está.
O maior mito talvez seja acreditar que existe uma única história de Manaus
Arthur Cezar Ferreira Reis escreveu a partir de um determinado momento da historiografia.
Edinea Mascarenhas Dias questionou a narrativa idealizada da modernização.
Márcio Souza transformou História em literatura e usou ironia para desmontar versões oficiais.
Etelvina Garcia costurou acontecimentos e referências da cidade.
Nenhum deles, sozinho, contém toda Manaus.
Juntos, porém, ajudam a compreender uma cidade em permanente reconstrução.
Até a imagem de Ajuricaba mudou conforme mudaram as perguntas feitas pelos historiadores.
Pesquisa recente sobre a produção do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas mostra que a própria historiografia regional participou da construção de símbolos, heróis e narrativas de identidade amazonense. (SciELO)
E isso talvez seja uma das lições mais importantes deste aniversário.
A História não é apenas uma sequência de datas.
Também é uma disputa sobre quem será lembrado, quem contará a história e a partir de qual olhar ela será contada.
Mitos e verdades de Manaus
“Manaus nasceu exatamente em 1669.”
PARCIALMENTE VERDADE. É o ano oficial convencionado, mas existem divergências documentais sobre a construção do forte e a região já era habitada muito antes.
“Manaus foi fundada em 24 de outubro de 1669.”
MITO. O 24 de outubro está relacionado à elevação da Vila da Barra à condição de cidade, em 1848.
“A cidade sempre se chamou Manaus.”
MITO. Ela teve diferentes denominações antes da oficialização do nome Manaus.
“Manaus surgiu em um território vazio.”
MITO. A região possuía ocupação indígena muito anterior à presença portuguesa.
“Ajuricaba existiu.”
VERDADE. Há registros históricos de sua resistência. O que mudou ao longo do tempo foi a maneira como sua figura foi interpretada e transformada em símbolo.
“Ajuricaba era aliado dos holandeses.”
CONTROVERSO. A acusação aparece ligada à narrativa colonial, mas Arthur Reis e historiadores posteriores questionaram sua consistência.
“Manaus foi a Paris dos Trópicos.”
VERDADE COMO REPRESENTAÇÃO HISTÓRICA, MAS NÃO COMO RETRATO DE TODA A SOCIEDADE. A cidade experimentou modernização e luxo durante a borracha, ao mesmo tempo em que convivia com enorme desigualdade.
“Todo mundo ficou rico durante o Ciclo da Borracha.”
MITO. A riqueza esteve fortemente concentrada.
“As lendas amazônicas são fatos históricos.”
NÃO. São manifestações da cultura e da tradição oral e devem ser preservadas como patrimônio do imaginário, sem serem confundidas com acontecimentos comprovados.
Manaus, 357 anos: uma história ainda sendo escrita
Talvez Manaus seja impossível de compreender olhando apenas para seus monumentos.
É preciso olhar para quem estava aqui antes deles.
Para os Manaó.
Para Ajuricaba.
Para os indígenas transformados durante séculos em personagens secundários da narrativa colonial.
Para trabalhadores que levantaram os palacetes da borracha sem morar neles.
Para migrantes que chegaram com a Zona Franca.
Para escritores que questionaram as versões oficiais.
Para historiadores que corrigiram historiadores anteriores.
Para os igarapés escondidos pelo concreto.
Para as histórias que os avós ainda contam.
Manaus completa 357 anos oficiais em 2026.
Mas a história humana deste território é muito mais antiga.
Talvez por isso a melhor homenagem à cidade não seja repetir apenas aquilo que aprendemos.
É continuar perguntando.
O que aconteceu de fato?
O que virou mito?
Quem contou essa história?
E quem ficou fora dela?
Porque Manaus não vive apenas nos livros.
Os livros ajudam a revelar as muitas Manaus que ainda vivem sob a cidade que vemos hoje.
Mini Biografia
Erica Lima Barbosa Aguiar é escritora, jornalista com registro profissional (DRT) e bacharel em Serviço Social. Mestre pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e pela Fiocruz Amazônia, atua há mais de 15 anos com pesquisa, com especialização e ampla experiência em pesquisa qualitativa. É articulista, empresária e diretora-executiva do O Convergente, além de vice-presidente da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Seção Amazonas (AJEB-AM) e integrante da diretoria da Rede Sem Fronteiras. Sua trajetória reúne comunicação, pesquisa e literatura, com atuação voltada à análise social, à produção de conhecimento e à compreensão das transformações da sociedade.



