De um tabuleiro com quatro forças ao duelo final: como o Amazonas chegou ao segundo turno entre Omar Aziz e Maria do Carmo

Renúncias, eleição indireta inédita, disputa acirrada nas pesquisas, força do interior e uma virada na reta final marcaram o caminho até a decisão de 25 de outubro

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O Amazonas chega às vésperas do segundo turno das Eleições 2026 depois de atravessar um dos processos eleitorais mais movimentados de sua história política recente. O cenário que agora coloca frente a frente Omar Aziz (PSD) e Professora Maria do Carmo (PL) esteve longe de ser previsível durante boa parte do ano.

Antes de a disputa se transformar no confronto entre os dois candidatos, o Estado assistiu a mudanças no comando do Governo e da Prefeitura de Manaus, renúncias, uma eleição indireta inédita na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), reorganização de alianças, ascensão de novas candidaturas e uma campanha em que quatro nomes chegaram a aparecer competitivos nas pesquisas.

A retrospectiva das reportagens publicadas pelo O Convergente ao longo de 2026 ajuda a mostrar como o tabuleiro foi sendo redesenhado até chegar à votação deste domingo, 25 de outubro.

O cenário começou a ser construído antes da campanha

O início de 2026 já apresentava dois nomes com forte presença nas articulações pelo Governo: o senador e ex-governador Omar Aziz e a empresária e professora Maria do Carmo Seffair.

Omar trabalhava para retornar ao comando do Executivo estadual, cargo que já havia ocupado, construindo uma aliança que posteriormente reuniria PSD, MDB, Republicanos e partidos da Federação Brasil da Esperança.

Maria do Carmo, após disputar a Prefeitura de Manaus em 2024, passou a ocupar o espaço político do PL na corrida estadual e aprofundou sua ligação com o campo bolsonarista. Mas o desenho ainda estava longe de estar fechado.

Em fevereiro, Tadeu de Souza deixou o Avante e se aproximou do grupo político de Wilson Lima. Naquele momento, seu nome chegou a ser trabalhado como possível candidato à sucessão estadual.

Paralelamente, David Almeida, então prefeito de Manaus, avançava na construção de sua própria candidatura ao Governo. Assim, Omar Aziz, Maria do Carmo, David Almeida e Tadeu de Souza passaram a formar o núcleo central da pré-campanha.

Renúncias mudam completamente o jogo

Um dos episódios mais importantes da eleição ocorreu antes mesmo do início oficial da campanha.

Nos momentos finais do prazo de desincompatibilização, Wilson Lima renunciou ao Governo do Amazonas para disputar uma vaga ao Senado. Tadeu de Souza também deixou a Vice-Governadoria e mudou seu projeto eleitoral para uma candidatura à Câmara dos Deputados.

Com a saída simultânea de governador e vice, o então presidente da Assembleia Legislativa, Roberto Cidade, assumiu interinamente o Executivo.

(Divulgação/Secom)

A dupla vacância criou uma situação inédita no Estado. Como os cargos ficaram vagos nos últimos dois anos do mandato, a Constituição Estadual determinava a realização de uma eleição indireta pela Aleam.

Em 4 de maio, os 24 deputados estaduais participaram da escolha. Roberto Cidade foi eleito governador, tendo Serafim Corrêa como vice, com os 24 votos dos parlamentares.

A partir daí, Cidade deixou de ser apenas um nome do Legislativo e passou a disputar a eleição de outubro na condição de governador.

O tabuleiro mudou novamente: a candidatura antes projetada em torno de Tadeu passou a ter Roberto Cidade como representante do grupo político.

Quatro candidaturas passam a concentrar a disputa

Com o avanço das articulações, quatro nomes passaram a ocupar as principais posições das pesquisas: Omar Aziz, Roberto Cidade, Maria do Carmo e David Almeida. Um levantamento da Pontual divulgado em maio já mostrava a fragmentação.

(Ilustração: Ranyere Frota)

Roberto Cidade aparecia com 22,1%, Maria do Carmo com 20,1% e David Almeida com 20%, enquanto Omar ocupava a primeira posição. O próprio levantamento apontava uma corrida aberta, com diferenças pequenas entre os principais concorrentes.

Em agosto, outro dado chamou atenção. Pesquisa do Instituto Direto ao Ponto mostrou que, na modalidade espontânea, 65% dos entrevistados ainda não sabiam ou não respondiam em quem pretendiam votar para governador. Naquele momento, Omar tinha 10%, Cidade 9%, Maria 7% e David 5% na espontânea.

Para o cientista político Helso Ribeiro, ouvido pelo O Convergente, os indecisos poderiam ser determinantes diante da proximidade entre as candidaturas.

Segundo ele, trabalhar esse eleitorado poderia ajudar a definir quem chegaria ao segundo turno, embora os indecisos não constituíssem um grupo homogêneo e não necessariamente migrassem para um único candidato. À época, Ribeiro antecipou também que a indecisão tenderia a cair com a proximidade da votação.

Interior já aparecia como peça estratégica

Muito antes da votação, outra análise publicada pelo O Convergente chamou atenção para um fator que se tornaria decisivo ao longo da eleição: o peso conjunto dos municípios do interior.

Em abril, Helso Ribeiro avaliou que nenhum município fora de Manaus possuía força eleitoral suficiente para determinar isoladamente uma eleição majoritária, mas que a soma dessas cidades poderia alterar o resultado.

“O impacto vem da articulação conjunta entre municípios.” A avaliação destacava o papel de prefeitos e lideranças regionais na formação de bases eleitorais, principalmente em disputas equilibradas.

Esse fator voltaria a ganhar importância tanto no resultado do primeiro turno quanto na reorganização das alianças para a etapa final.

Campanha começa e comunicação passa a disputar o eleitor

A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto. Ruas, redes sociais, carreatas, caminhadas, agendas no interior e programas eleitorais passaram a fazer parte da rotina dos candidatos.

Com o início da propaganda gratuita em rádio e televisão, em 28 de agosto, as campanhas adotaram estratégias diferentes.

Roberto Cidade buscou associar sua imagem à continuidade administrativa e à proximidade com a população. David Almeida apresentou propostas e experiência na Prefeitura de Manaus. Omar Aziz explorou sua trajetória política e experiência administrativa. Maria do Carmo apostou em uma comunicação de oposição, associando-se à ideia de mudança e utilizando inclusive recursos de humor.

Capa gerada com auxílio de IA

O jornalista, cientista político e marqueteiro eleitoral Francisco Araújo, ouvido pelo O Convergente, avaliou naquele momento que tempo de televisão, estrutura e capacidade de utilizar rádio e TV continuavam relevantes, principalmente nas regiões com menor acesso às novas tecnologias.

Para o especialista, porém, exposição por si só não garantiria votos: clareza da mensagem, identidade e capacidade de conexão seriam fundamentais.

Setembro consolida Omar e Cidade na frente — mas Maria permanece no jogo

As pesquisas de setembro começaram a mostrar uma configuração aparentemente mais definida. Em 14 de setembro, a Pontual registrou Omar Aziz com 26,6% e Roberto Cidade com 25,3%. Maria do Carmo aparecia com 18,4%, e David Almeida, com 14,9%.

Uma semana depois, pesquisa Projeta divulgada em 21 de setembro mostrou novamente Omar e Cidade tecnicamente empatados: 25,80% contra 24,36%. Maria do Carmo tinha 15,82%, praticamente empatada com David Almeida, que registrava 15,41%.

Em 25 de setembro, a Pontual testou inclusive cenários de segundo turno e registrou empate técnico entre Roberto Cidade e Omar Aziz. Na simulação, Cidade aparecia com 43,9% contra 42,2% de Omar. Naquele momento, grande parte do debate eleitoral parecia concentrada na possibilidade de os dois avançarem juntos.

Na última semana, pesquisas ainda apontavam Cidade à frente de Maria A quatro dias da eleição, nova pesquisa Pontual colocou Omar com 29,5%, Cidade com 26,9%, Maria com 18% e David com 14,5%.

Os intervalos de Omar e Cidade se sobrepunham considerando a margem de erro, mantendo a percepção de uma disputa apertada pela liderança.  Em 2 de outubro, levantamento Big Data chegou a testar um segundo turno entre Omar e Cidade e apontou 45% para cada um.

Já na véspera da votação, pesquisa Projeta registrou, nos votos válidos, Omar com 35,29%, Cidade com 27,63%, Maria com 17,79% e David com 16,10%. O cenário indicava Omar na primeira posição e Cidade como favorito à segunda vaga. Mas as urnas mudariam essa fotografia.

A eleição de 4 de outubro e a virada de Maria do Carmo

No primeiro turno, Omar confirmou a liderança, mas a segunda vaga ficou com Maria do Carmo. Segundo o resultado consolidado divulgado pelo TRE-AM, Omar Aziz recebeu 841.846 votos, equivalentes a 40,63% dos votos válidos.

Maria do Carmo conquistou 507.335 votos, ou 24,49%, garantindo presença no segundo turno. A vantagem de Omar sobre Maria foi de 334.511 votos.

Capa: Rany Frota

Roberto Cidade, que aparecia na segunda posição em diversos levantamentos da reta final, terminou fora da disputa. David Almeida ficou em quarto lugar.

A entrada de Maria no segundo turno consolidou também o avanço eleitoral do PL no Amazonas e mostrou que o comportamento do eleitor amazonense não foi linear entre os diferentes cargos.

O mesmo eleitorado que colocou uma candidata do PL na etapa final para governador reelegeu Eduardo Braga, do MDB, e Plínio Valério, do PSDB, para o Senado, distribuindo votos entre campos políticos distintos.

O comportamento do eleitor e a polarização

Durante a cobertura especial “Amazonas Decide”, no primeiro turno, o psicólogo Sebastião Nascimento analisou no O Convergente a dimensão emocional da disputa eleitoral.

O especialista destacou que divergências políticas fazem parte do processo democrático, mas não deveriam transformar a defesa de ideias em conflito pessoal.

Também defendeu que eleitores avaliem propostas, ideias e valores, sem a necessidade de concordar integralmente com determinado campo político.

A análise ganha ainda mais relevância no segundo turno, quando duas candidaturas de campos políticos distintos passaram a disputar diretamente o mesmo eleitor.

Segundo turno reorganiza as forças políticas

Depois de 4 de outubro, começou uma nova eleição. Omar saiu do primeiro turno não apenas com vantagem de votos, mas iniciou uma rápida ampliação de sua base de apoios.

O Avante, partido de David Almeida, anunciou oficialmente apoio ao candidato do PSD. A decisão foi tomada pelas direções estadual e municipal da legenda, com participação de David e do prefeito de Manaus, Renato Junior.

Dias depois, Omar também passou a reunir apoio declarado de 37 dos 41 vereadores de Manaus.

Segundo informações da própria campanha registradas pelo O Convergente, prefeitos dos 62 municípios amazonenses declararam apoio ao candidato no segundo turno.

A movimentação reforçou exatamente um dos fatores apontados por especialistas meses antes: a importância da articulação municipal e do interior na disputa estadual.

Maria busca transformar mobilização nacional da direita em votos

Do outro lado, Maria do Carmo construiu sua estratégia apresentando-se como alternativa aos grupos políticos tradicionais e reforçando a ligação com lideranças nacionais do PL.

Michelle Bolsonaro e Bia Kicis participaram de manifestações de apoio à candidata. A campanha também trouxe para Manaus lideranças nacionais da direita.

Na reta final, o chamado “Bloquinho 22”, na Ponta Negra, reuniu a mobilização em torno de Maria do Carmo e da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, com participação anunciada de nomes como Nikolas Ferreira.

Imagem gerada com auxilio de inteligência artificial (IA)

A estratégia buscou aproximar a disputa estadual da mobilização nacional do eleitorado de direita e ampliar a votação conquistada pela candidata no primeiro turno.

Maria também procurou responder à concentração de apoios institucionais em torno de Omar com um discurso de ligação direta com o eleitor.

Em uma das manifestações registradas pelo O Convergente, declarou: “Eu tenho Deus e o povo ao meu lado.” A candidata argumentou que alianças políticas e apoios de prefeitos não substituem a decisão do eleitor nas urnas.

Pesquisas do segundo turno mostram novo cenário

Se antes do primeiro turno a disputa esteve fragmentada, os levantamentos da segunda etapa passaram a medir diretamente Omar e Maria. Pesquisa Pontual divulgada em 19 de outubro apresentou Omar Aziz com 61% dos votos válidos e Maria do Carmo com 39%.

Em Manaus, o cenário era mais próximo: 53% para Omar e 47% para Maria. No interior, segundo o levantamento, a diferença era maior: 69,7% para Omar e 30,3% para Maria.

A Pontual ouviu 2 mil eleitores entre 9 e 15 de outubro. A margem de erro informada foi de 2,19 pontos percentuais e o levantamento está registrado sob o número AM-02304/2026.

No mesmo dia, pesquisa Projeta também mostrou Omar à frente, com 57,68% dos votos válidos, contra 42,32% de Maria do Carmo.  Pesquisas representam fotografias do momento em que os eleitores são entrevistados e não constituem previsão do resultado das urnas.

Último debate encerra confronto direto

Nesta quinta-feira (22), Omar Aziz e Maria do Carmo participaram do último debate televisivo antes da eleição, promovido pela Rede Amazônica.

Saúde, educação, segurança pública, infraestrutura, meio ambiente e capacidade administrativa estiveram entre os principais temas.

Omar buscou reforçar sua experiência no Executivo e questionar a viabilidade de propostas da adversária. Maria defendeu mudanças na administração estadual e apresentou sua trajetória fora da política tradicional como contraponto ao adversário.

O encontro encerrou a principal fase de confronto direto entre os dois candidatos antes da votação.

Mais de 2,8 milhões podem participar da decisão

Mais de 2,8 milhões de eleitores amazonenses estavam aptos a votar no primeiro turno.

Segundo o TRE-AM, 20,16% não compareceram às urnas em 4 de outubro. A ausência no primeiro turno, porém, não impede o eleitor de votar no segundo, já que cada etapa é considerada uma eleição independente pela Justiça Eleitoral.

No domingo, os amazonenses voltam às urnas para escolher quem comandará o Estado a partir de janeiro de 2027. De uma disputa pulverizada a dois projetos

A eleição de 2026 começou com uma sucessão aparentemente desenhada entre diferentes grupos políticos.

Passou por quatro candidaturas competitivas, uma mudança inédita no comando do Governo, pesquisas com empates técnicos, forte número de indecisos, disputas entre capital e interior e uma reta final que produziu um resultado diferente daquele projetado por parte dos levantamentos divulgados na véspera do primeiro turno.

Omar Aziz chega à etapa final depois de liderar o primeiro turno e ampliar sua rede de alianças políticas.

Maria do Carmo chega após superar Roberto Cidade na disputa pela segunda vaga e aposta na mobilização do eleitorado de direita e na identificação com o PL para reduzir a diferença registrada na primeira votação.

Meses atrás, quando ainda havia quatro candidaturas muito próximas, especialistas ouvidos pelo O Convergente destacavam o peso dos indecisos, a força da comunicação e, principalmente, a capacidade de mobilização do interior.

Agora, não há mais quatro nomes. No dia 25 de outubro, o eleitor amazonense terá apenas duas opções para o Governo.

Depois de um ano de reviravoltas, pesquisas, alianças e mudanças no tabuleiro, será novamente a urna — e não as projeções — que escreverá o último capítulo da eleição de 2026 no Amazonas.

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