Das articulações às urnas: relembre o caminho político do Amazonas até o primeiro turno

O ano eleitoral amazonense foi marcado por reviravoltas que moldaram o tabuleiro político ate o primeiro turno das eleições 2026

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O Amazonas chega ao primeiro turno das eleições de 2026, neste domingo (4), depois de atravessar um dos anos mais movimentados de sua história política recente. O cenário que começou a ser desenhado ainda na pré-campanha sofreu sucessivas mudanças, passou por renúncias na Prefeitura de Manaus e no Governo do Estado, uma eleição indireta inédita na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), rearranjos partidários, novas candidaturas e uma campanha marcada por pesquisas, debates e embates entre os principais grupos políticos.

O ano de 2026 iniciou com dois nomes já ocupando posição de destaque nas articulações para o Governo do Amazonas: o senador e ex-governador Omar Aziz (PSD) e a empresária e professora Maria do Carmo Seffair (PL).

Omar iniciou a construção de uma nova candidatura ao Executivo estadual buscando reunir forças de centro e da base política ligada ao presidente Lula. Do outro lado, Maria do Carmo, que havia disputado a Prefeitura de Manaus em 2024, passou a ocupar o espaço do PL, com apoio da família Bolsonaro.

Fevereiro muda o tabuleiro

Um dos primeiros movimentos de impacto ocorreu em fevereiro. Tadeu de Souza deixou o Avante e se filiou ao Progressistas, partido integrante da federação com o União Brasil. A movimentação o afastou politicamente do grupo do então prefeito David Almeida e aproximou o vice-governador do grupo de Wilson Lima.

Segundo bastidores políticos, naquele momento, a federação União Progressista chegou a trabalhar com Tadeu como nome para a sucessão estadual. A configuração indicava que Wilson poderia deixar o Governo para disputar o Senado, enquanto o vice assumiria o Executivo e entraria na eleição na condição de governador.

Paralelamente, David Almeida avançava nas próprias articulações. Em fevereiro, o então prefeito confirmou publicamente o projeto de disputar o Governo do Amazonas, acrescentando mais um nome competitivo à pré-campanha. A partir daquele momento, a corrida estadual passou a reunir quatro forças centrais: Omar Aziz, Maria do Carmo, David Almeida e Tadeu de Souza.

David deixa a Prefeitura de Manaus

A movimentação seguinte aconteceu em Manaus. No dia 31 de março, David Almeida renunciou à Prefeitura para ficar livre das restrições de desincompatibilização e disputar o Governo do Amazonas. Com a saída, o vice-prefeito Renato Junior assumiu definitivamente o comando do Executivo municipal.

A renúncia marcou uma mudança importante tanto para a administração da capital quanto para a eleição estadual. Sem o cargo de prefeito, David passou a se dedicar à construção de sua candidatura, reuniões com lideranças e articulações com partidos da capital e do interior.

O movimento, porém, seria rapidamente ofuscado por uma reviravolta ainda maior no Governo do Estado.

Wilson Lima muda de decisão e deixa o Governo

O início de abril provocou uma das maiores mudanças do processo eleitoral amazonense. Wilson Lima havia anunciado publicamente que permaneceria no Governo até o fim do segundo mandato. A decisão, naquele momento, praticamente retirava seu nome da disputa pelo Senado e indicava que Tadeu de Souza assumiria papel central na sucessão estadual.

Nos últimos momentos do prazo eleitoral, porém, o cenário mudou. Wilson Lima renunciou ao Governo do Amazonas e voltou ao tabuleiro como opção para disputar uma das duas vagas ao Senado. Tadeu de Souza também deixou a Vice-Governadoria, abandonando o caminho que vinha sendo construído para uma candidatura ao Governo e passando a mirar uma vaga na Câmara dos Deputados.

Leia mais; Wilson Lima e Tadeu renunciam; Roberto Cidade assume como novo governador do Amazonas

As duas renúncias simultâneas deixaram vagos os cargos de governador e vice-governador. Pela linha sucessória, o então presidente da Aleam, Roberto Cidade, assumiu interinamente o Governo do Amazonas.

O deputado, que até então não figurava entre os principais nomes da corrida pelo Executivo em boa parte das pesquisas do início do ano, passava a ocupar o centro do tabuleiro eleitoral.

Amazonas tem eleição indireta inédita

A dupla vacância abriu uma situação inédita na política amazonense. Como as renúncias ocorreram nos últimos dois anos do mandato, a Constituição Estadual determinava que a escolha dos novos ocupantes do Governo e da Vice-Governadoria fosse realizada indiretamente pela Assembleia Legislativa.

Em 4 de maio, os 24 deputados estaduais participaram da eleição indireta. Roberto Cidade foi eleito governador, tendo o ex-deputado Serafim Corrêa (PSB) como vice. A chapa recebeu os 24 votos dos parlamentares e passou a comandar o Estado até o encerramento do mandato, em janeiro de 2027.

A eleição modificou novamente a corrida eleitoral. Cidade deixou de ser apenas o presidente da Assembleia que havia assumido interinamente o Executivo e passou a ocupar definitivamente o Governo. Pouco depois, seu nome se consolidou também como pré-candidato à eleição de outubro.

Com isso, o grupo político que havia começado o ano discutindo uma eventual candidatura de Tadeu de Souza passou a ter Roberto Cidade como representante na disputa pelo Palácio Rio Negro.

Quatro grupos ganham protagonismo

A partir daí, o cenário passou a ter quatro candidaturas com maior presença nas pesquisas e articulações: Omar Aziz, Roberto Cidade, Maria do Carmo e David Almeida.

Cada grupo chegou à disputa a partir de uma construção diferente:

Omar retornou à corrida pelo Governo após já ter comandado o Amazonas e buscou reunir uma ampla aliança partidária.

Maria do Carmo manteve a candidatura construída pelo PL e a aproximação com o campo político bolsonarista.

David entrou na disputa depois de deixar a Prefeitura de Manaus.

Roberto, por sua vez, passou da presidência da Aleam ao Governo do Estado em pouco mais de um mês e decidiu disputar a permanência no cargo.

(Ilustração: Ranyere Frota)

Outros nomes também entraram na corrida e ampliaram o quadro de candidaturas, entre eles Isael Munduruku (Rede), Cabo Daciolo (Mobiliza) e Gilberto Vasconcelos (PSTU).

Convenções oficializam candidaturas

Entre julho e agosto, as articulações de bastidores deram lugar às convenções partidárias.

Os partidos passaram a confirmar oficialmente os nomes que estariam nas urnas e a definir alianças, candidatos a vice e chapas proporcionais.

Omar Aziz foi oficializado pelo PSD; Maria do Carmo, pelo PL; Roberto Cidade, pelo União Brasil; e David Almeida, pelo Avante. Com o encerramento das convenções e dos registros, o desenho eleitoral que sofreu sucessivas alterações no primeiro semestre finalmente ganhou forma.

A campanha começou oficialmente em 16 de agosto. A partir daquele momento, carreatas, caminhadas, reuniões comunitárias, viagens ao interior, inserções nas redes sociais e atos políticos passaram a ocupar diariamente a agenda dos candidatos.

TRE-AM entra no centro do processo eleitoral

Enquanto candidatos intensificavam as atividades, o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) ampliava a preparação para o pleito.

Ainda na pré-campanha, uma das principais preocupações da Justiça Eleitoral foi estabelecer os limites entre a divulgação permitida das pré-candidaturas e a propaganda eleitoral antecipada. Antes de 16 de agosto, pré-candidatos podiam divulgar pretensões, propostas e participar de entrevistas, mas não realizar pedido explícito de voto.

Leia mais: TRE-AM sorteia urnas que passarão por auditoria durante as Eleições 2026

Com o início oficial da campanha, o TRE-AM regulamentou o poder de polícia para fiscalização da propaganda eleitoral. Entre os temas que ganharam atenção estavam propaganda na internet, impulsionamento de conteúdo, utilização de Inteligência Artificial, publicidade em espaços públicos e particulares, além das regras para carreatas, bandeiraços e distribuição de material.

O ambiente digital também passou a concentrar parte significativa das ocorrências. Nos primeiros 15 dias de funcionamento durante a campanha, o aplicativo Pardal recebeu 99 denúncias de possíveis irregularidades na propaganda eleitoral no Amazonas, com predominância de ocorrências relacionadas à internet.

Debates elevam temperatura da campanha

Na reta final, os debates passaram a ocupar papel central na estratégia dos candidatos. As transmissões colocaram frente a frente adversários que passaram meses trocando críticas por entrevistas, redes sociais e eventos de campanha.

Saúde, segurança pública, geração de emprego, infraestrutura, Zona Franca de Manaus, relação entre capital e interior e políticas para os povos indígenas estiveram entre os assuntos discutidos.

Os confrontos também trouxeram para o centro da campanha as administrações passadas e atuais.

David Almeida foi questionado sobre sua gestão em Manaus; Roberto Cidade respondeu sobre as ações do Governo do Estado; Omar Aziz foi confrontado sobre períodos anteriores em que esteve no Executivo; e Maria do Carmo apresentou críticas aos grupos que já comandaram o poder público. Isael Munduruku buscou inserir no debate temas ligados aos povos indígenas e às questões ambientais.

A última semana

A campanha chegou aos últimos dias ainda marcada por intensa movimentação. Candidatos percorreram bairros de Manaus e municípios do interior, participaram de caminhadas, carreatas, reuniões e entrevistas e intensificaram a presença nas redes sociais.

As pesquisas da reta final mantiveram a atenção sobre a disputa pelas vagas em um eventual segundo turno, enquanto as campanhas concentraram esforços na mobilização dos eleitores.

Paralelamente, a Justiça Eleitoral entrou na fase final da operação para receber os votos de milhões de amazonenses espalhados por Manaus e pelos 61 municípios do interior.

Na véspera da eleição, o TRE-AM realizou o sorteio das urnas que passarão pelos procedimentos de auditoria. Para o primeiro turno, 23 equipamentos foram destinados aos diferentes mecanismos de verificação.

Os procedimentos serão realizados simultaneamente à votação e poderão ser acompanhados por entidades fiscalizadoras.

O Amazonas chega, assim, ao primeiro turno depois de uma pré-campanha que começou com um desenho completamente diferente daquele que estará diante do eleitor.

Entre renúncias, mudanças partidárias, alianças, pesquisas, decisões judiciais, debates e meses de campanha, o tabuleiro finalmente chega ao momento em que deixa os bastidores e passa para as mãos do eleitor. Neste domingo (4), será o voto dos amazonenses que definirá o próximo capítulo das eleições.

Leia mais: O primeiro voto na urna: entenda o papel dos deputados federais que representarão o Amazonas

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