Por Erica Lima Barbosa Aguiar
O Amazonas entrou oficialmente na era da polarização. Entre bolsonaristas, lulistas, conservadores, progressistas, religiosos e militantes digitais, a eleição de 2026 promete ser menos uma disputa de propostas e mais uma batalha emocional pelo controle da narrativa política. Mas no meio dessa guerra, surge uma pergunta incômoda: o eleitor amazonense ainda pensa por conta própria ou apenas escolheu um lado para defender até o fim?
A política amazonense mudou.
E talvez muita gente ainda não tenha percebido o tamanho dessa mudança.
O eleitor que antes escolhia candidatos por obras, carisma ou favores políticos agora vota também por identidade ideológica. Em Manaus, vestir verde e amarelo ou defender pautas sociais já não representa apenas opinião política, virou símbolo de pertencimento.
Hoje, muitos eleitores não votam apenas “a favor” de alguém.
Votam contra o outro lado.
E é exatamente isso que pode transformar a eleição de 2026 em uma das mais tensas da história recente do Amazonas.
O Amazonas virou reflexo do Brasil dividido
A eleição presidencial de 2022 já deixou sinais claros desse novo cenário.
No Amazonas, Lula (PT) venceu Jair Bolsonaro (PL) por uma margem apertada: 51,10% contra 48,90% dos votos válidos.
Mas o dado mais revelador veio de Manaus.
Na capital amazonense, Bolsonaro venceu Lula com ampla vantagem: 61,28% contra 38,72%.
Ou seja: enquanto o interior amazonense manteve forte inclinação popular e social ligada ao lulismo, Manaus revelou um eleitorado majoritariamente conservador, influenciado por:
- igrejas evangélicas;
- discurso de segurança pública;
- combate à corrupção;
- antipetismo;
- influência digital bolsonarista.
Esse mesmo comportamento reapareceu nas eleições municipais de 2024.
David Almeida (Avante) venceu Capitão Alberto Neto (PL) no segundo turno com 54,59% dos votos válidos contra 45,41%.
Mas o resultado esconde algo importante:
Manaus não rejeitou completamente a direita.
Pelo contrário.
O crescimento de Capitão Alberto Neto mostrou que existe uma base conservadora sólida, organizada e emocionalmente engajada na capital.
Ao mesmo tempo, David Almeida conseguiu sobreviver politicamente ao apresentar uma imagem mais pragmática e menos ideológica, focada em gestão, programas sociais e presença popular.
E agora? O que pode acontecer em 2026?
O novo cenário político amazonense já começa a se desenhar.
De um lado:
- setores ligados ao bolsonarismo;
- grupos conservadores;
- militares;
- parte do eleitorado evangélico;
- nomes associados ao PL e à direita nacional.
Do outro:
- grupos ligados ao presidente Lula;
- movimentos sociais;
- partidos de centro-esquerda;
- setores populares;
- lideranças tradicionais da política amazonense.
Os nomes que devem dominar os bastidores da próxima eleição já movimentam articulações:
- David Almeida (Avante);
- Omar Aziz (PSD);
- Maria do Carmo Seffair (PL);
- Roberto Cidade (União Brasil), que pode disputar reeleição em seu grupo político;
- além de possíveis alianças nacionais envolvendo Lula e Flávio Bolsonaro como influências indiretas no Amazonas.
E talvez o maior desafio para todos eles seja exatamente o mesmo:
como dialogar com um eleitor cada vez mais radicalizado?
A política virou guerra emocional
O problema da polarização não está apenas nas diferenças ideológicas.
O problema está na transformação da política em guerra moral.
Hoje, muita gente já não consegue ouvir opiniões diferentes sem sentir raiva.
A esquerda acusa a direita de autoritarismo, negacionismo e intolerância.
A direita acusa a esquerda de corrupção, relativismo moral e ameaça aos valores familiares.
Mas existe algo ainda mais perigoso: o crescimento da desinformação e da baixa educação política.
Grande parte da população brasileira ainda não compreende profundamente o que significa ser liberal, conservador, socialista ou progressista.
Muitos apenas repetem frases prontas das redes sociais.
O episódio da UFAM: quando a política vira confronto
Recentemente, o Amazonas viveu um episódio que simboliza exatamente esse novo Brasil polarizado.
A discussão envolvendo o vereador Coronel Rosses (PL -AM) e o professor Luiz Antônio Nascimento, ligado à Universidade Federal do Amazonas (UFAM), e estudantes e ultrapassou o campo político e se transformou em disputa pública nas redes sociais e no debate ideológico amazonense.
O caso ganhou repercussão após declarações e manifestações envolvendo críticas políticas e posicionamentos ideológicos que acabaram ampliando ataques mútuos entre grupos conservadores e setores universitários progressistas.
O episódio revelou algo preocupante: a universidade deixou de ser vista apenas como espaço de produção científica e passou a ser tratada como território ideológico.
Para grupos conservadores, universidades federais estariam dominadas por militância de esquerda.
Já setores progressistas denunciam perseguição política, ataques à liberdade acadêmica e avanço do discurso autoritário.
No fundo, talvez ninguém tenha parado para perceber que o debate deixou de ser intelectual.
Virou emocional.
O eleitor também faz parte dessa crise
Talvez você que esteja lendo este texto seja de direita.
Talvez acredite em:
- família tradicional;
- liberdade econômica;
- meritocracia;
- combate à criminalidade;
- religião como base moral.
E tudo bem.
Talvez você seja de esquerda.
Talvez defenda:
- justiça social;
- combate às desigualdades;
- fortalecimento do Estado;
- inclusão social;
- direitos humanos.
E tudo bem também.
O problema não está em pensar diferente.
O problema começa quando o eleitor deixa de refletir.
Quando transforma político em ídolo.
Quando trata adversário como inimigo.
Os filósofos talvez entendessem melhor o Brasil atual
O filósofo italiano Norberto Bobbio dizia que a diferença entre direita e esquerda está principalmente na forma como cada lado encara a desigualdade social.
Para a esquerda: o Estado precisa agir para reduzir desigualdades. Para a direita:
a liberdade individual e econômica deve prevalecer, mesmo que existam diferenças naturais entre as pessoas.
Edmund Burke, considerado pai do conservadorismo moderno, alertava que mudanças radicais podem destruir tradições importantes para a estabilidade da sociedade.
Já Jean-Paul Sartre defendia que a sociedade precisava mudar constantemente para garantir liberdade e justiça.
Curiosamente, os dois lados possuem argumentos legítimos.
Talvez o erro esteja justamente na crença de que apenas um lado possui todas as respostas.
A eleição de 2026 pode decidir mais do que cargos
O Amazonas não viverá apenas uma disputa eleitoral.
Viverá uma disputa cultural.
A eleição de 2026 deve aprofundar:
- o debate religioso;
- os conflitos ideológicos;
- a influência das redes sociais;
- o avanço do bolsonarismo no Norte;
- a tentativa de reconstrução da esquerda;
- e o fortalecimento de candidaturas de centro buscando escapar da radicalização.
Mas existe uma pergunta que talvez o eleitor amazonense precise fazer antes de apertar o botão da urna:
você está escolhendo um projeto político… ou apenas alimentando uma guerra emocional?
Porque talvez o maior risco da polarização não seja a vitória da direita ou da esquerda.
Talvez seja a derrota da capacidade de pensar.
Mini biografia
Erica Lima Barbosa Aguiar é jornalista, mestre pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), especialista em pesquisa qualitativa eleitoral, escritora, empresária e articulista do portal O Convergente. É diretora-executiva do O Convergente, vice-presidente da AJEB-AM (Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil no Amazonas) e integrante da diretoria da Rede Sem Fronteiras. Possui participação em diversas antologias literárias e atua na análise de comportamento político, opinião pública, polarização social e comunicação estratégica, com foco nas transformações políticas e sociais da Amazônia e do Brasil.


