O fim de semana de 17 e 18 de outubro colocou a crise das queimadas no centro da agenda do Amazonas. Manaus amanheceu no sábado coberta por uma das mais densas camadas de fumaça do atual episódio, políticos utilizaram as redes sociais para cobrar providências e anunciar articulações, o Governo do Estado convocou seu comitê de crise e, no domingo, uma comitiva de quatro ministros desembarcou na capital para ampliar a operação federal de combate aos incêndios.
A dimensão da crise ultrapassou as fronteiras brasileiras. A fumaça e o avanço dos incêndios no Amazonas foram temas de reportagens de veículos internacionais como Reuters e Associated Press (AP), que destacaram a deterioração da qualidade do ar em Manaus, os impactos na rotina da população e a investigação sobre possíveis incêndios provocados intencionalmente. (Reuters)
Sábado foi o dia mais crítico
Na manhã de sábado (17), Manaus apareceu no topo do ranking da plataforma internacional IQAir entre as cidades monitoradas com pior qualidade do ar. O índice chegou a 637 pontos, classificado como “perigoso”. No Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas, sensores também registraram concentrações extremamente elevadas de material particulado fino.
No Coroado, por exemplo, a concentração chegou a 457,7 microgramas por metro cúbico de PM2,5 pela manhã. Outros sensores ultrapassaram posteriormente 480 e 500 µg/m³. O Ministério Público de Contas do Amazonas classificou o sábado como um dia de agravamento expressivo da poluição atmosférica.
O número de focos também chamou atenção. Dados divulgados pela Defesa Civil de Manaus apontaram aumento de 226 para 705 focos de calor em 24 horas entre sexta e sábado. A própria fumaça prejudicou a visibilidade e chegou a comprometer operações aéreas de combate aos incêndios.
No domingo, as concentrações diminuíram em relação ao pico de sábado, mas a situação continuava longe da normalidade. Manaus completou o 11º dia consecutivo sob influência da fumaça, segundo boletim do Ministério Público de Contas. (MPC AM)
Prefeito usa redes sociais para dizer que “Manaus pede socorro”
A crise ganhou forte repercussão política ainda na manhã de sábado.
O prefeito de Manaus, Renato Junior (Avante), publicou um vídeo nas redes sociais afirmando que “Manaus pede socorro” e solicitando apoio das autoridades estaduais, federais e até internacionais.
O prefeito argumentou que a capital é atingida principalmente pela fumaça produzida por incêndios localizados fora de seu território. Dados citados posteriormente pela Prefeitura, com base no Inpe, indicam que Manaus concentrava menos de 1% dos focos registrados no estado.

A Prefeitura manteve suspensas atividades ao ar livre, reforçou orientações de saúde e monitoramento da qualidade do ar. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias foram orientados a reduzir a exposição à fumaça.
Roberto Cidade convoca comitê emergencial
No mesmo sábado, o governador Roberto Cidade (União Brasil) anunciou pelas redes sociais a convocação emergencial do Comitê de Enfrentamento a Eventos Climáticos e Ambientais.
Segundo o governador, a reunião teria como objetivo estabelecer novas medidas de combate, fiscalização e proteção da população.

O governo estadual já havia decretado situação de emergência em 36 municípios devido às queimadas e restringido o uso do fogo durante o período crítico. No domingo, a Polícia do Amazonas informou a prisão de 11 pessoas em Autazes suspeitas de envolvimento com incêndios. Cidade também declarou que parte significativa dos focos investigados teria origem criminosa.
Eduardo Braga articula chegada de ministros
O senador Eduardo Braga (MDB) também se movimentou durante o fim de semana. Braga informou ter levado ao governo federal a gravidade da situação e participou das articulações que resultaram na ida de uma comitiva ministerial a Manaus.
No domingo, o senador e o prefeito Renato Junior recepcionaram autoridades federais na Base Aérea de Ponta Pelada.
A comitiva reuniu os ministros José Múcio Monteiro, da Defesa; Wellington César Lima e Silva, da Justiça e Segurança Pública; João Paulo Capobianco, do Meio Ambiente e Mudança do Clima; e Waldez Góes, da Integração e do Desenvolvimento Regional. Também participaram representantes do Governo do Amazonas e de órgãos federais.
Segundo Braga, além dos R$ 14 milhões já liberados ao Estado, planos de trabalho que podem superar R$ 100 milhões para Amazonas e municípios estavam em análise pelo governo federal.
Forças Armadas ganham operação coordenada no Amazonas
Uma das principais decisões anunciadas no domingo foi a instalação em Manaus de um Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, destinado a coordenar operações de Exército, Marinha e Aeronáutica.
O número de aeronaves à disposição do combate aos incêndios foi ampliado para 16. O reforço inclui aviões e helicópteros para lançamento de água, transporte de brigadistas, reconhecimento e apoio logístico.
Até domingo, as operações aéreas acumulavam mais de 300 horas de voo e aproximadamente 800 mil litros de água lançados sobre áreas atingidas pelo fogo, segundo o Governo Federal.
A Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal também passarão a reforçar operações e investigações sobre eventuais crimes ambientais.
Saúde entra na força-tarefa
A fumaça também levou a saúde pública para o centro da operação.
O Governo Federal anunciou a instalação de uma base descentralizada da Força Nacional do SUS em Manaus, prevista para terça-feira (20), para preparar a rede diante dos efeitos da exposição prolongada à fumaça.
O Ministério da Saúde também passou a acompanhar a disponibilidade de oxigênio e a capacidade da rede hospitalar. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças cardiovasculares ou respiratórias estão entre os grupos considerados de maior risco.
Crise também vira campo de cobrança política
As redes sociais dos políticos amazonenses se transformaram em extensão da crise ambiental.
A candidata ao Governo do Amazonas Professora Maria do Carmo (PL) publicou vídeo no sábado, em meio à fumaça, classificando aquele como o pior dia do episódio e criticando a política ambiental do governo Lula.
O deputado federal Amom Mandel (Republicanos) cobrou uma intervenção federal mais ampla, pediu emprego das Forças Armadas, reforço aéreo e punição aos responsáveis por incêndios criminosos. As manifestações foram publicadas nas redes ainda no sábado.

Já o deputado Capitão Alberto Neto (PL) responsabilizou o governo federal pelo que considera demora na reação à crise e defendeu aeronaves de grande porte, fortalecimento das brigadas municipais e apoio a produtores e comunidades.
Do outro lado, Marcelo Ramos, coordenador da campanha de Lula no Amazonas, publicou vídeo afirmando que procuraria Eduardo Braga e o presidente para articular novas medidas federais.
As manifestações ocorreram em plena campanha eleitoral, fazendo com que a fumaça passasse também a integrar a disputa política do segundo turno no Amazonas e na eleição presidencial.
Amazonas vira notícia fora do Brasil
A dimensão da crise foi registrada pela imprensa internacional.
A Reuters informou que o Amazonas enfrentava uma forte escalada dos incêndios em outubro, agravada por condições meteorológicas associadas ao El Niño e às mudanças climáticas, e relatou os efeitos da fumaça sobre a população de Manaus. (Reuters)
A Associated Press também destacou os incêndios, a fumaça sobre a capital, a interrupção de atividades e as investigações brasileiras sobre a possibilidade de incêndios provocados deliberadamente.
O episódio também chegou à divulgação científica internacional. A NASA publicou análise sobre o avanço do fogo na Amazônia neste período, relacionando o cenário regional a uma combinação de seca intensa, condições climáticas e ação humana. (NASA Science)
Depois do pior sábado, pressão agora é por resultado
O fim de semana terminou com uma estrutura de combate maior do que começou: 16 aeronaves disponíveis, Forças Armadas mobilizadas, recursos emergenciais liberados, PF e PRF incorporadas à operação, base da Força Nacional do SUS anunciada e novas investigações sobre a origem dos incêndios.
Mas os números do sábado mostraram a dimensão da emergência. A fumaça levou Manaus a níveis extremos de poluição, atingiu a rotina de milhões de pessoas e colocou novamente o Amazonas diante de um problema que atravessa meio ambiente, saúde, segurança pública e política.
Depois de um fim de semana em que Manaus literalmente perdeu o horizonte para a fumaça, o desafio das autoridades passa a ser fazer a mobilização anunciada chegar aos focos de incêndio e impedir que a capital volte a acordar sem conseguir enxergar o céu.
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