Há 70 anos, o presidente Juscelino Kubitschek enfrentou, ainda no primeiro mês de mandato, uma insurreição militar na Amazônia. Deflagrada em fevereiro de 1956, a chamada Revolta de Jacareacanga durou 19 dias e só foi encerrada após tropas federais sufocarem o movimento. Apesar da tentativa de golpe, os envolvidos escaparam de punições criminais e disciplinares graças a uma anistia concedida pelo Congresso a pedido do próprio presidente.
JK havia tomado posse em 31 de janeiro de 1956. Na noite de 10 de fevereiro, em plena sexta-feira de Carnaval, dois oficiais da Aeronáutica, o major Haroldo Veloso e o capitão José Lameirão, roubaram um avião carregado de armas de uma base no Rio de Janeiro e seguiram para o Pará. No estado, dominaram pistas de pouso estratégicas, como as de Serra do Cachimbo e Jacareacanga, além de Santarém, Itaituba e Belterra.
Em manifesto, os rebeldes defenderam a derrubada ou a renúncia do presidente, alegando, entre outros pontos, que ele mantinha comunistas em postos estratégicos das Forças Armadas. O teor do documento refletia o ambiente de instabilidade que marcou o período democrático entre o fim do Estado Novo, em 1945, e o golpe militar de 1964.
O país vivia forte polarização entre o getulismo, representado por PSD e PTB, e o antigetulismo, liderado pela UDN. À direita do espectro político, os antigetulistas viam os adversários como corruptos e inclinados ao comunismo, contando com apoio expressivo dentro das Forças Armadas.

No Senado, governistas denunciaram a tentativa de impor uma ditadura. O senador Vitorino Freire (PSD-MA) acusou os aviadores de tentar “arrastar de reboque a opinião nacional” por meio de campanha demagógica em favor de um regime de exceção. Já oposicionistas minimizaram o levante. Juraci Magalhães (UDN-BA) afirmou que os envolvidos eram “moços inspirados por nobres impulsos patrióticos” e defendeu que não fossem condenados.
A expectativa dos amotinados era de adesão em massa de militares em todo o país, o que não se concretizou. O apoio restringiu-se a poucos oficiais e a alguns moradores das localidades paraenses. A adesão mais relevante foi a do major Paulo Vítor da Silva, enviado inicialmente à Amazônia para convencer Veloso a se render, mas que acabou se juntando aos rebeldes.
O governo só conseguiu retomar o controle em 29 de fevereiro, com a prisão de Veloso. Lameirão e Paulo Vítor fugiram para a Bolívia. O conflito deixou uma vítima: um civil conhecido como Cazuza, auxiliar de Veloso, morto por disparos de submetralhadora.

Três fatores contribuíram para a demora na repressão: a localização remota, o respeito que Veloso desfrutava na região por sua atuação no Correio Aéreo Nacional e na abertura de pistas na selva, a resistência de cerca de 60 militares simpáticos ao movimento em participar do cerco e o esforço do governo para evitar derramamento de sangue.
Segundo o historiador Sandro Gomes dos Santos, que pesquisou as revoltas de 1956 e 1959, as tentativas de insurreição na década de 1950 foram embriões do golpe de 1964. Para ele, a polarização não é fenômeno recente, mas herança de divisões consolidadas naquele período. “Existe um continuísmo, ainda que com roupagem atualizada”, afirma.
A imagem de um governo JK marcado por estabilidade também é contestada. Embora a propaganda oficial e parte da historiografia tenham consolidado a ideia de cinco anos de paz e modernização, o presidente enfrentou crises e levantes militares desde o início do mandato. Ele assumira fragilizado, visto como herdeiro político de Getúlio Vargas ao lado do vice João Goulart e eleito com apenas 35,5% dos votos, em um sistema sem segundo turno.
Após derrotar os rebeldes de Jacareacanga, JK decidiu patrocinar uma anistia no Congresso, na expectativa de arrefecer a polarização e governar com menos resistências. A medida foi aprovada em maio de 1956. Veloso foi libertado, e os demais envolvidos retornaram ao país e permaneceram na Aeronáutica.
A decisão, porém, teve consequências. Em 1959, Haroldo Veloso liderou nova tentativa de golpe contra JK, a Revolta de Aragarças, novamente sufocada pelo governo. Desta vez, o presidente não apoiou anistia. Veloso fugiu do Brasil e só foi anistiado em 1961, já fora do mandato de JK. Posteriormente, apoiou o golpe de 1964 e elegeu-se deputado pela Arena, partido de sustentação da ditadura militar.
Sete décadas depois, o episódio de Jacareacanga permanece como exemplo das tensões que marcaram a democracia brasileira no pós-guerra, e como alerta sobre a persistência histórica da intervenção militar na política nacional.


