O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de uma investigação para apurar suspeitas de uso de informação privilegiada no mercado cambial brasileiro. A decisão, publicada nesta segunda-feira (21), atende a um pedido da Advocacia-Geral da União (AGU), feito no sábado (19), com base em reportagens que identificaram movimentações atípicas de compra e venda de dólares antes do anúncio de tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.
O caso gira em torno de uma possível prática de insider trading, quando informações sigilosas são utilizadas de forma indevida para obter vantagens financeiras. Segundo a AGU, transações de alto volume foram realizadas horas antes da divulgação oficial da medida pelo ex-presidente Donald Trump, no dia 9 de julho, às 16h30 (horário de Brasília). A suspeita é que indivíduos ou empresas tenham se beneficiado da valorização repentina do dólar frente ao real.
Um gráfico publicado por Spencer T. Hakimian, fundador da Tolou Capital Management, em Nova York, reforçou as suspeitas. O documento mostra que o real começou a se desvalorizar por volta das 14h30 daquele dia, logo após Trump sinalizar a intenção de adotar as tarifas.
Somebody front ran the Brazil tariff news.
Somebody bought a HUGE amount of USD and shorted BRL (Brazil’s currency) at 1:32 PM.
The 50% tariff announcement came at 4:19 PM, at which point, it looks like the big trader exited his trade instantly.
Making 2.5% on a currency… pic.twitter.com/4ORNcappLQ
— Spencer Hakimian (@SpencerHakimian) July 9, 2025
A queda da moeda brasileira se intensificou após o envio de uma carta oficial ao presidente Lula, em que Trump justificava a medida por uma suposta “perseguição” contra Jair Bolsonaro e por “ataques” a empresas americanas no Brasil.
As transações sob suspeita geraram lucros milionários em questão de horas. A investigação vai focar nesses movimentos e apurar se houve acesso prévio indevido às informações.
Eduardo Bolsonaro e Trump
A apuração tem conexão com o inquérito que investiga o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), suspeito de articular, com apoio do governo Trump, pressões contra o STF. No entanto, Moraes decidiu que o caso do mercado cambial tramitará separadamente, em sigilo, para não interferir no inquérito principal.
As medidas contra Jair Bolsonaro seguem vigentes. Em 18 de julho, Moraes determinou que o ex-presidente usasse tornozeleira eletrônica, cumprisse recolhimento domiciliar noturno, das 19h às 6h, e fosse proibido de utilizar redes sociais. No domingo, o ministro reforçou que entrevistas de Bolsonaro não podem ser retransmitidas nas redes, sob pena de prisão.
A investigação reacende o embate entre o STF e aliados do ex-presidente. Enquanto parlamentares bolsonaristas acusam Moraes de abuso de autoridade, a base governista defende o papel da Corte no combate a práticas ilegais e na preservação do Estado Democrático de Direito.