Por Erica Lima Barbosa Aguiar
Eu escrevo este texto olhando diretamente para você, jovem amazônida, que tem entre 16 e 25 anos e que, talvez, vá votar nas eleições de 2026 sem nunca ter lido a Constituição, sem entender o que é cidadania e, pior: sem acreditar que a política possa mudar a sua vida. Essa não é uma crítica individual. É um retrato coletivo.
A juventude amazônica em idade eleitoral ocupa hoje um lugar decisivo no debate democrático brasileiro. No entanto, embora os números indiquem crescimento no acesso ao título de eleitor, a ampliação quantitativa da participação não significa, necessariamente, uma formação política consistente. É justamente sobre essa contradição que proponho esta reflexão: estamos diante de uma geração que pode votar, mas que, em grande parte, ainda não foi plenamente preparada para compreender a política, a cidadania e a Constituição como dimensões centrais da vida coletiva.
Escrevo este artigo olhando especialmente para os jovens do Amazonas entre 16 e 25 anos, muitos dos quais participarão do processo eleitoral de 2026. Quero dialogar com esse público não para culpabilizá-lo, mas para convidá-lo à leitura crítica da realidade. Afinal, votar é importante, mas compreender o valor político do voto é ainda mais fundamental.
Dados do Tribunal Regional Eleitoral e do Tribunal Superior Eleitoral revelam o avanço do número de jovens eleitores no Amazonas. O crescimento do eleitorado juvenil demonstra que mais adolescentes e jovens têm buscado regularizar sua situação eleitoral e garantir participação no processo democrático. Esse dado, por si só, poderia ser lido como sinal de avanço cívico. Contudo, a realidade exige uma análise mais profunda: ter título de eleitor não significa, automaticamente, ter consciência política.
Ao observar discursos juvenis em espaços escolares, redes sociais e debates públicos, percebe-se que muitos jovens associam política apenas à corrupção, à disputa eleitoral ou à figura de políticos profissionais. Há grande desconhecimento sobre conceitos básicos, como cidadania, direitos fundamentais, funcionamento dos poderes e papel da Constituição Federal. Essa limitação não é apenas individual; ela resulta de um processo histórico de ausência formativa.
A escola brasileira, em grande medida, ainda falha em oferecer uma educação política estruturada. Não há uma matriz curricular contínua e efetiva voltada à formação cidadã que ensine, de modo acessível e prático, o que significa viver em uma democracia. Os conteúdos aparecem de forma fragmentada, geralmente em disciplinas como História ou Sociologia, mas raramente se traduzem em experiências concretas de participação, leitura crítica da realidade ou compreensão institucional. Dessa forma, formam-se jovens que votam sem entender plenamente o peso de sua escolha, reproduzem opiniões sem aprofundamento e têm dificuldade de se reconhecer como sujeitos políticos.
Na Amazônia, esse problema assume contornos ainda mais graves. Nossa realidade regional é marcada por isolamento territorial, desigualdades educacionais, baixa oferta de oportunidades e dificuldades concretas de acesso à informação qualificada. Em muitos municípios amazonenses, a política ainda é percebida como algo distante, concentrado em Manaus, em Brasília ou em grupos de poder aos quais a juventude não se sente pertencente. Esse distanciamento gera apatia, e a apatia fragiliza a democracia.
Além disso, há um elemento contemporâneo que não pode ser ignorado: o papel das redes sociais na formação política dos jovens. Hoje, muitos deles têm nesses ambientes sua principal fonte de informação. No entanto, as plataformas digitais operam a partir da lógica do engajamento e não da qualidade da informação. Isso favorece a circulação de conteúdos superficiais, polarizados e muitas vezes falsos. Nesse cenário, a juventude não está exatamente afastada da política; ela está, muitas vezes, exposta a uma política distorcida, acelerada e desinformativa.
A desinformação, nesse contexto, torna-se uma ameaça concreta à construção da cidadania. Um jovem que não conhece a Constituição, que não entende seus direitos e deveres e que forma sua opinião a partir de conteúdos rasos ou manipulados torna-se mais vulnerável ao descrédito institucional e ao uso político da ignorância. Isso é ainda mais preocupante em contextos como o amazônico, onde o sentimento de falta de perspectiva, a ausência de oportunidades e o abandono histórico reforçam a ideia de que a política não transforma a vida real.
Outro ponto que merece destaque é a maneira como os agentes políticos ainda tratam esse público. Mesmo com o crescimento do eleitorado jovem, muitos políticos continuam sem desenvolver campanhas verdadeiramente direcionadas à juventude. Em vez de reconhecerem o jovem amazônida como um grupo com demandas específicas, linguagem própria e forte potencial de mobilização, tratam-no como eleitor genérico. Ao fazer isso, desperdiçam não apenas uma estratégia eleitoral importante, mas também a oportunidade de construir diálogo democrático com um segmento fundamental para o presente e o futuro do país.
Essa negligência política revela algo inquietante: talvez ainda haja pouca disposição em investir na formação de um eleitor jovem crítico, consciente e questionador. Um eleitor informado faz mais perguntas, exige mais compromissos e aceita menos promessas vazias. Por isso, refletir sobre juventude e política não é apenas discutir participação eleitoral, mas enfrentar as estruturas que mantêm parte dessa população em condição de silêncio político.
Nesse sentido, as contribuições de Norberto Bobbio continuam extremamente atuais. Ao discutir os fundamentos da democracia, Bobbio alerta que sua sustentação depende não apenas da existência formal de regras, mas do conhecimento que os cidadãos têm dessas regras. A democracia enfraquece quando o povo desconhece os mecanismos que a organizam. Se a Constituição deixa de ser compreendida como pacto social e garantia de direitos, ela se esvazia na prática. E quando uma geração inteira cresce distante dessa compreensão, o prejuízo não é individual: é coletivo.
Ao correlacionar essa reflexão com a realidade amazônica, o alerta torna-se ainda mais urgente. A fragilidade da formação política da juventude no Amazonas não decorre apenas de escolhas pessoais, mas de condições sociais, educacionais e territoriais que limitam o exercício pleno da cidadania. Em um território marcado por distâncias geográficas, desigualdades históricas e poucas oportunidades, o desinteresse político não pode ser lido apenas como omissão juvenil; ele precisa ser entendido como sintoma de um processo mais amplo de exclusão.
Por isso, a pergunta que deixo ao leitor, especialmente ao jovem, é simples, mas decisiva: basta votar ou é preciso compreender o que significa votar? Participar da eleição não pode ser um gesto automático. O voto precisa ser acompanhado de consciência, informação e senso de pertencimento social. Sem isso, corremos o risco de consolidar uma democracia formalmente ativa, mas socialmente esvaziada.
Concluo esta reflexão reafirmando que a juventude amazônica tem potência, inteligência e capacidade de mobilização. O que falta, muitas vezes, não é vontade, mas acesso, formação, escuta e oportunidade. Se quisermos uma sociedade mais justa, democrática e participativa, precisamos tratar a educação política como prioridade, fortalecer a formação cidadã nas escolas e enfrentar a desinformação como um problema público. Ignorar esse cenário significa permitir que o futuro coletivo seja conduzido por gerações que votam sem compreender, opinam sem base e se afastam daquilo que deveria lhes pertencer: a própria política.
Mais do que eleitores, nossos jovens precisam ser reconhecidos e formados como cidadãos. Essa é uma tarefa da escola, do Estado, das instituições e também de todos nós. Porque quando a juventude perde a esperança e a capacidade de acreditar na política como instrumento de transformação, toda a sociedade perde junto.
A pergunta final não é sobre política.
É sobre você:
Você quer ser eleitor… ou quer ser cidadão?
Mini biografia
Erica Lima Barbosa Aguiar é pesquisadora e escritora com interesse em juventude, educação política, cidadania e desigualdades sociais na Amazônia. Dedica-se à reflexão sobre os impactos da desinformação, das fragilidades educacionais e das desigualdades territoriais na formação política de jovens brasileiros, com ênfase na realidade amazônica.
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