Economista vê “desespero e má-fé” em alta da gasolina que levou preço a R$ 7,29 em Manaus

Especialista afirma que alta ocorreu antes mesmo de eventual impacto da guerra no petróleo e aponta possível “má-fé” no mercado local

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A recente alta da gasolina em Manaus, que levou o litro a cerca de R$ 7,29, pode não ter relação direta com a guerra no Oriente Médio, ao menos neste momento. A avaliação é da economista Denise Kassama, entrevistada pelo portal O Convergente, que afirma que os aumentos estariam acontecendo “na base do desespero” e até com indícios de “má-fé” no mercado local

Conflito tem relação com alta?

Segundo Denise Kassama, o conflito entre Estados Unidos e Irã no Golfo Pérsico acendeu um alerta global sobre o mercado de petróleo, principalmente porque o Irã é um dos maiores produtores da commodity e controla o Estreito de Ormuz — passagem estratégica por onde circula cerca de 20% da produção mundial de petróleo. “Quando começou esse conflito, já havia um alerta sobre o risco mundial de desabastecimento de petróleo”, explicou.

Apesar disso, a economista afirma que o Brasil não deveria sentir efeitos imediatos tão fortes, já que o país também é produtor de petróleo e conta com produção significativa de etanol, derivado da cana-de-açúcar, que compõe cerca de 30% da gasolina vendida no país.

Para ela, o aumento observado em Manaus ocorreu rápido demais para ser explicado apenas pela crise internacional. “Não deu nem tempo do petróleo que deveria vir do Oriente Médio chegar ao Brasil. Esse aumento que está acontecendo agora é um aumento por conta, na base do desespero”, afirmou.

No caso específico da capital amazonense, Kassama avalia que o mercado possui um agravante adicional relacionado à estrutura de fornecimento de combustíveis após a privatização da Refinaria da Amazônia, hoje controlada pela Atem Distribuidora.

Segundo ela, a refinaria teria reduzido o processamento local e passado a atuar mais como distribuidora de combustível já refinado. “Existe um fator da guerra, sim, mas também vem um pouco de má-fé porque o mercado local é dominado por uma única empresa. Quem sofre no fim é o consumidor”, afirmou.

Sindicato critica estrutura do mercado de combustíveis no Amazonas

A situação também foi criticada por Marcus Ribeiro, coordenador-geral do Sindicato dos Petroleiros do Amazonas (Sindipetro-AM), entrevistado pela reportagem. Ele afirma que, após a privatização da refinaria, a região perdeu o que chamou de “colchão social” da Petrobras, que historicamente atuava para amortecer oscilações de preços.

“Enquanto a Petrobras consegue segurar os preços nacionalmente, uma refinaria privada não tem esse compromisso. Hoje os preços chegam a ficar até 20,1% acima da paridade internacional”, disse.

Ribeiro também criticou o fato de o Amazonas produzir petróleo em Urucu, no município de Coari, mas não utilizar plenamente esse recurso para abastecer o mercado regional.

“Temos o petróleo de Urucu, um dos melhores do Brasil, mas a refinaria privatizada reduziu drasticamente o processamento local. Hoje ela funciona quase como um entreposto logístico, importando combustível pronto e repassando o custo ao consumidor”, afirmou.

Durante sessão na Câmara Municipal, o vereador Rodrigo Guedes também criticou o valor praticado nos postos da capital e pediu maior investigação sobre a formação dos preços no mercado local de combustíveis. “Manaus está sendo vilipendiada, assaltada por essa gangue que envolve postos de combustíveis, distribuidores e, acima de tudo, a refinaria”, declarou o vereador.

“Pesa demais no bolso”

Entre motoristas ouvidos pela reportagem, a avaliação é de que o aumento já impacta diretamente o orçamento e a rotina de quem depende do carro no dia a dia. Muitos relatam dificuldade para manter os gastos com combustível e dizem acompanhar com preocupação cada nova variação nos preços praticados nos postos de Manaus.

Rosângela Costa, 42 anos, motorista, afirma que o preço atual tem pesado no orçamento.  “Gasolina a mais de sete reais é difícil de aceitar”, afirmou.

Já Patrícia Nascimento, 37 anos, motorista, diz que o aumento afeta a rotina diária.
“Eu uso carro todo dia e o combustível tá pesando muito no orçamento. Quando sobe desse jeito, acaba afetando toda a rotina.”

Outro a reclamar foi Anderson Nogueira, 36 anos, motorista de aplicativo, que afirma que quem trabalha nas ruas sente o impacto imediato. “Pra quem trabalha com Uber ou 99 aqui em Manaus, esse preço complica demais. O valor da corrida às vezes não acompanha o aumento da gasolina, aí quem paga a conta é a gente mesmo.”

Raimundo Pereira, 48 anos, motorista de aplicativo, relata que boa parte da renda acaba indo para o combustível.  “Eu rodo praticamente o dia todo e agora gasto quase tudo em combustível”. 

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