Líder indígena Vanda Witoto denuncia violência política de gênero após charge considerada ofensiva; cartunista pede desculpas

Cartunista afirmou que não teve a intenção de denegrir a imagem ou desrespeitar a luta pelas minorias de Wanda Witoto e pediu desculpas

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A líder indígena Vanda Witoto (MDB) denunciou nesta terça-feira, 10, ter sido vítima de violência política de gênero após a circulação de uma charge nas redes sociais em que aparece retratada de joelhos diante do senador Eduardo Braga (MDB). A ilustração, assinada pelo cartunista Gilmal e divulgada pela editora Jara Comics, mostra Vanda ajoelhada enquanto o senador aparece em pé dizendo a frase: “Ajoelhou, tem que rezar!”. A imagem gerou forte repercussão e críticas por ter sido considerada sexista, misógina e racista.

Diante da repercussão, Vanda Witoto informou que pretende encaminhar denúncia aos órgãos competentes. Em vídeo publicado nas redes sociais, a líder indígena classificou a charge como uma forma de violência política direcionada não apenas a ela, mas também às mulheres e aos povos originários do Amazonas.

“A violência política de gênero chega ao meu corpo-território, nas mulheres e em toda a sociedade do Amazonas, de forma covarde, misógina e racista. Continuar abrindo caminhos para nós mulheres nos espaços de tomada de decisões políticas ameaça essa estrutura que quer nos ver submissas, que não reconhece a nossa potência e não aceita nossa diversidade. Violência política não é piada, não é arte, é crime. Estamos construindo essa trajetória há muito tempo e de forma coletiva, e não vão nos paralisar. Estamos neste momento encaminhando denúncia aos órgãos competentes”, declarou Vanda Witoto.

A manifestação ocorre após a ampla circulação da charge nas redes sociais, o que gerou reações de indignação de lideranças políticas, movimentos sociais e apoiadores da causa indígena. Críticos apontaram que a ilustração apresenta conteúdo ofensivo e desrespeitoso, além de reforçar estereótipos machistas e racistas, especialmente por retratar uma mulher indígena em posição considerada humilhante.

Charge ilustrada pelo cartunista

Após a repercussão do caso, o diretório do MDB no Amazonas divulgou uma nota pública de repúdio em defesa da liderança indígena. No posicionamento, o partido ressaltou que a liberdade de expressão é um princípio democrático, mas que não pode ser utilizada como justificativa para ataques pessoais ou manifestações que reproduzam preconceitos.

Veja a nota na íntegra:

Nota de Repúdio
“MDB Amazonas repudia manifestação machista contra a liderança indígena Vanda Witoto

O MDB do Amazonas manifesta repúdio à charge que circulou nas redes sociais contendo uma ilustração ofensiva e desrespeitosa contra a liderança indígena Vanda Witoto.

A liberdade de expressão é um valor fundamental da democracia. No entanto, ela não pode ser utilizada para promover ataques de cunho machista, sexista ou que desrespeitem a dignidade das mulheres, especialmente de mulheres indígenas que têm papel relevante na vida pública e na defesa de suas comunidades.

Vanda Witoto é uma liderança reconhecida, que construiu sua trajetória com coragem, trabalho e compromisso com o Amazonas. O MDB se orgulha de tê-la entre seus quadros e reafirma seu respeito e solidariedade diante desse episódio.

A política precisa ser espaço de debate de ideias, nunca de desqualificação pessoal ou de ataques que reproduzem preconceitos.

O MDB Amazonas seguirá defendendo uma política baseada no respeito, na democracia e na valorização das mulheres e dos povos originários.”

O deputado federal Saullo Vianna (MDB), recém-filiado à sigla, também saiu em defesa da líder indígena e classificou o episódio como violência política de gênero. Em manifestação pública nas redes sociais, o parlamentar afirmou que o caso não pode ficar impune e reforçou sua solidariedade a Vanda Witoto.

Veja a declaração na íntegra:

“Quero prestar minha solidariedade à @vandawitoto, minha companheira partidária do MDB, que foi vítima de violência política de gênero por meio da publicação de uma charge desrespeitosa e misógina.

Estou do seu lado. Vamos denunciar esse caso. Isso tem nome: violência política de gênero, com conteúdo misógino e racista contra uma mulher indígena, e não vamos permitir que fique impune.

Na filiação partidária havia homens presentes, mas ele escolheu atacar uma mulher amazônida.

Isso é covardia e precisa ser combatido”, afirmou.

Outro lado

Nas redes sociais, o cartunista Gilmal se posicionou sobre a ilustração e disse que a charge seria publicada em um grupo específico e fechado do partido e que, em nenhum momento, ele teve a intenção de denegrir a imagem ou desrespeitar a luta pelas minorias de Wanda Witoto.

“Ressalto que, em nenhum momento, tive a intenção de denegrir a imagem ou desrespeitar a luta pelas minorias que Wanda vem historicamente defendendo e levantando como bandeira. Não tive, e nunca terei, a intenção de ofender. Peço minhas mais sinceras e profundas desculpas a todos que, de alguma forma, se sentiram ofendidos com o conteúdo da charge”, escreveu o cartunista.

Gilmal afirmou ainda que deseja charges ácidas desde a década de 1990 e continua fazendo a atualidade, e que o gênero faz parte de um estilo marcado pela crítica, pela ironia e pela irreverência. “Que, inevitavelmente, causa, causou e sempre causará algum desconforto, especialmente em relação às atitudes dos próprios políticos, que muitas vezes se sentem incomodados diante de certas manifestações da liberdade de expressão”.

No entanto, o cartunista reconheceu que a expressão possui limites. “Reconheço que a liberdade de expressão possui limites. Reitero, de forma sincera, que em nenhum momento tive a intenção de ofender, e muito menos de ridicularizar qualquer personagem da política amazonense”, finalizou.

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