26.3 C
Manaus
quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Amazônia sob tensão: levante militar tentou derrubar JK no primeiro mês de governo

Revolta de Jacareacanga, em 1956, expôs polarização política, terminou com anistia aos rebeldes e abriu caminho para nova tentativa golpista três anos depois

Por

Há 70 anos, o presidente Juscelino Kubitschek enfrentou, ainda no primeiro mês de mandato, uma insurreição militar na Amazônia. Deflagrada em fevereiro de 1956, a chamada Revolta de Jacareacanga durou 19 dias e só foi encerrada após tropas federais sufocarem o movimento. Apesar da tentativa de golpe, os envolvidos escaparam de punições criminais e disciplinares graças a uma anistia concedida pelo Congresso a pedido do próprio presidente.

JK havia tomado posse em 31 de janeiro de 1956. Na noite de 10 de fevereiro, em plena sexta-feira de Carnaval, dois oficiais da Aeronáutica, o major Haroldo Veloso e o capitão José Lameirão, roubaram um avião carregado de armas de uma base no Rio de Janeiro e seguiram para o Pará. No estado, dominaram pistas de pouso estratégicas, como as de Serra do Cachimbo e Jacareacanga, além de Santarém, Itaituba e Belterra.

Em manifesto, os rebeldes defenderam a derrubada ou a renúncia do presidente, alegando, entre outros pontos, que ele mantinha comunistas em postos estratégicos das Forças Armadas. O teor do documento refletia o ambiente de instabilidade que marcou o período democrático entre o fim do Estado Novo, em 1945, e o golpe militar de 1964.

O país vivia forte polarização entre o getulismo, representado por PSD e PTB, e o antigetulismo, liderado pela UDN. À direita do espectro político, os antigetulistas viam os adversários como corruptos e inclinados ao comunismo, contando com apoio expressivo dentro das Forças Armadas.

O presidente Juscelino Kubitschek dirige um caminhão durante visita à fábrica da Mercedes, em 1956 – Folhapress

No Senado, governistas denunciaram a tentativa de impor uma ditadura. O senador Vitorino Freire (PSD-MA) acusou os aviadores de tentar “arrastar de reboque a opinião nacional” por meio de campanha demagógica em favor de um regime de exceção. Já oposicionistas minimizaram o levante. Juraci Magalhães (UDN-BA) afirmou que os envolvidos eram “moços inspirados por nobres impulsos patrióticos” e defendeu que não fossem condenados.

A expectativa dos amotinados era de adesão em massa de militares em todo o país, o que não se concretizou. O apoio restringiu-se a poucos oficiais e a alguns moradores das localidades paraenses. A adesão mais relevante foi a do major Paulo Vítor da Silva, enviado inicialmente à Amazônia para convencer Veloso a se render, mas que acabou se juntando aos rebeldes.

O governo só conseguiu retomar o controle em 29 de fevereiro, com a prisão de Veloso. Lameirão e Paulo Vítor fugiram para a Bolívia. O conflito deixou uma vítima: um civil conhecido como Cazuza, auxiliar de Veloso, morto por disparos de submetralhadora.

Montagem mostra respectivamente o major Haroldo Veloso e o capitão José Lameirão, líderes da Revolta de Jacareacanga – Revista da Semana e Diário de Notícias/Biblioteca Nacional Digital / Agência Senado

Três fatores contribuíram para a demora na repressão: a localização remota, o respeito que Veloso desfrutava na região por sua atuação no Correio Aéreo Nacional e na abertura de pistas na selva, a resistência de cerca de 60 militares simpáticos ao movimento em participar do cerco e o esforço do governo para evitar derramamento de sangue.

Segundo o historiador Sandro Gomes dos Santos, que pesquisou as revoltas de 1956 e 1959, as tentativas de insurreição na década de 1950 foram embriões do golpe de 1964. Para ele, a polarização não é fenômeno recente, mas herança de divisões consolidadas naquele período. “Existe um continuísmo, ainda que com roupagem atualizada”, afirma.

A imagem de um governo JK marcado por estabilidade também é contestada. Embora a propaganda oficial e parte da historiografia tenham consolidado a ideia de cinco anos de paz e modernização, o presidente enfrentou crises e levantes militares desde o início do mandato. Ele assumira fragilizado, visto como herdeiro político de Getúlio Vargas ao lado do vice João Goulart e eleito com apenas 35,5% dos votos, em um sistema sem segundo turno.

Após derrotar os rebeldes de Jacareacanga, JK decidiu patrocinar uma anistia no Congresso, na expectativa de arrefecer a polarização e governar com menos resistências. A medida foi aprovada em maio de 1956. Veloso foi libertado, e os demais envolvidos retornaram ao país e permaneceram na Aeronáutica.

A decisão, porém, teve consequências. Em 1959, Haroldo Veloso liderou nova tentativa de golpe contra JK, a Revolta de Aragarças, novamente sufocada pelo governo. Desta vez, o presidente não apoiou anistia. Veloso fugiu do Brasil e só foi anistiado em 1961, já fora do mandato de JK. Posteriormente, apoiou o golpe de 1964 e elegeu-se deputado pela Arena, partido de sustentação da ditadura militar.

Sete décadas depois, o episódio de Jacareacanga permanece como exemplo das tensões que marcaram a democracia brasileira no pós-guerra, e como alerta sobre a persistência histórica da intervenção militar na política nacional.

Fique ligado em nossas redes

Você também pode gostar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

spot_img

Últimos Artigos

- Publicidade -