Por Erica Lima
Você já parou para pensar de onde vem a sua opinião política?
Ela nasce de informação, de leitura, de acompanhamento das instituições? Ou nasce de um vídeo curto, de um corte fora de contexto, de alguém “famoso” que fala alto e aponta culpados fáceis?
Essa pergunta é o ponto de partida. Porque hoje o maior problema da política não é a falta de opinião é a falta de base. Opina-se sem saber. Julga-se sem entender. Cobra-se sem conhecer o caminho legal das coisas. E quando isso acontece, quem perde não é só a política. É a população.
Do desconhecimento ao erro coletivo
Vamos organizar o pensamento.
A maioria das pessoas não sabe exatamente:
• o que faz uma Câmara Municipal;
• qual o papel da Assembleia Legislativa;
• o que compete ao Executivo (prefeito, governador);
• para que servem os órgãos de controle, como tribunais de contas e ministério público.
Esse vazio de informação cria um efeito em cadeia: o eleitor cobra errado, se frustra, desacredita da política e passa a aceitar qualquer discurso que prometa solução rápida. É aí que entram as redes sociais.
Redes sociais: quando o algoritmo educa mal
As redes não foram feitas para educar politicamente. Foram feitas para reter atenção.
E atenção, hoje, se conquista com exagero, medo, escândalo e conflito.
O que viraliza não é o que explica, é o que indigna.
Não é o que ensina, é o que choca.
A notícia sensacionalista tem características claras:
• exagera fatos;
• simplifica problemas complexos;
• escolhe um vilão fácil;
• apela para emoção (raiva, medo, ódio);
• não explica causas nem responsabilidades institucionais.
Quanto mais barulho, mais curtida. Quanto mais raso, mais compartilhamento.
E nesse ambiente surgem “analistas” e “influencers” sem formação, sem método, sem compromisso com a verdade, mas com grande alcance.
Isso é alienação.
Alienação não é não gostar de política. É repetir discurso sem compreender o sistema.
Aqui, Pierre Bourdieu ajuda a entender: quando as pessoas não dominam os códigos do poder, elas passam a aceitar narrativas prontas. A dominação acontece sem precisar de força, basta desinformação.
O que os filósofos já avisavam
Nada disso é novo.
Maquiavel alertava que povos sem formação política são facilmente manipulados por discursos emocionais.
Jean-Jacques Rousseau dizia que não existe soberania popular onde o povo não entende seu papel.
Aristóteles defendia que a política exige educação para formar cidadãos capazes de decidir coletivamente.
Ou seja: sem educação política, a democracia vira teatro.
Afinal, para que servem as instituições?
Falando claro, do jeito que o povo entende:
• Câmara Municipal / Assembleia Legislativa
Faz leis, fiscaliza o Executivo, aprova orçamento, convoca secretários, acompanha gastos públicos.
• Executivo (prefeito, governador)
Executa políticas públicas, administra recursos, implementa programas, presta serviços.
• Órgãos de controle
Fiscalizam gastos, investigam irregularidades, garantem que o dinheiro público seja usado corretamente.
Quando a população não acompanha essas estruturas, elas funcionam sozinhas e isso nunca é bom.
E como o povo pode participar de verdade?
Participação não é só votar de quatro em quatro anos.
A população pode:
• acompanhar sessões das casas legislativas;
• cobrar posicionamento de vereadores e deputados;
• participar de conselhos municipais (saúde, educação, assistência social);
• exigir transparência de gastos;
• fiscalizar obras e contratos.
O problema é que muitos conselhos perderam força. Viraram formais, esvaziados, sem apoio, sem divulgação. E sem participação popular, deixam de cumprir seu papel.
O ponto mais grave: o desprezo pelo conhecimento
Hoje, além de desinformado, parte do eleitorado passou a desconfiar da educação.
Estudar virou “coisa de quem quer complicar”.
Opinião rasa virou verdade.
Gritar virou argumento.
Isso é perigoso. Porque um povo que rejeita o conhecimento abre mão do próprio poder.
Um chamado necessário
Este texto não é contra o povo. É para o povo.
É um convite à reflexão:
• Quem você escuta?
• O que você compartilha?
• Você acompanha quem você elegeu?
• Você sabe onde cobrar e como cobrar?
Democracia dá trabalho. Exige informação, paciência e participação.
Sem educação política básica, a opinião vira barulho.
Ou a gente aprende como o sistema funciona ou continuará reclamando dele, eleição após eleição, problema após problema, sem nunca mudar o rumo.
Breve biografia
Erica Lima é pesquisadora, empresária da área de comunicação e escritora. Atua com pesquisa qualitativa aplicada ao comportamento político, análise de discurso e percepção do eleitor, com foco em educação política, democracia, comunicação pública e participação social no Amazonas.
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