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terça-feira, janeiro 20, 2026

Especialista em Segurança Pública avalia cenário de apreensões de armas de uso restrito no RJ

Desvios de munições de forças oficiais abastecem facções criminosas e expõem falhas estruturais no controle e rastreamento de armamentos no país

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O especialista internacional em Segurança Pública Leonardo Sant’Anna analisou o cenário das apreensões de armas e munições desviadas de forças policiais e do Exército no Rio de Janeiro, apontando fragilidades institucionais, falhas tecnológicas e o desequilíbrio no poder de fogo entre criminosos e forças de segurança.

A avaliação tem como base reportagem publicada pelo O Globo, nesta segunda-feira (19), que revela que munições oficiais adquiridas por diferentes polícias do país e pelas Forças Armadas estariam abastecendo traficantes ligados ao Comando Vermelho (CV), principalmente nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

As investigações indicam que as cargas de cartuchos tinham como destino áreas consideradas o QG da facção e chegavam ao estado escondidas em porta-malas de veículos, bagagens de ônibus interestaduais e até dentro de uma churrasqueira elétrica.

Na avaliação do especialista, o Brasil ainda enfrenta falhas na modernização da distribuição, no controle do consumo das munições em operações e na responsabilização institucional.

“As falhas acabam sendo sistêmicas. A tecnologia que acaba não abraçando todo o processo, uma ausência de um rastreamento em tempo real, um controle que não foi modernizado nessa distribuição e no consumo dessas munições em operações. A gente pode até falar da ineficácia da responsabilização institucional, tem gente que foi absolvido por exemplo, enquanto quem é civil foi condenado. Então tem também alguns padrões internacionais que implementam o rastreamento digital individualizado né com auditorias regulares a ONU para prever isso, dentre outros, itens tornando esses desvios significativamente mais difíceis, e o Brasil ele pode combinar uma tecnologia mais moderna, só que hoje a gente prefere e a gente pode dizer que a tecnologia ainda está obsoleta, com falhas inclusive de governança, criando um ambiente que é propício para abastecer, em alguns momentos, mesmo que em pouca quantidade o crime organizado”, pontuou.

Armas apreendidas

Entre as apreensões realizadas em outubro do ano passado, nos complexos da Penha e do Alemão, foi localizado um fuzil desviado da Polícia Militar do Rio de Janeiro, além de cartuchos provenientes da PM e do Exército.

Um dos carregamentos com destino ao Complexo da Penha foi interceptado em 18 de junho de 2019, em Santa Maria, no Distrito Federal. Na ocasião, policiais militares de Goiás abordaram um Fiat Linea vermelho, que vinha de Cuiabá (MT). No porta-malas, foram encontrados, divididos em duas bagagens, mil projéteis calibre 7,62 e 800 de 5,56 — ambos utilizados em fuzis.

Leonardo Sant’Anna também analisou a desproporcionalidade do poder de fogo dos criminosos no Rio de Janeiro, que impacta diretamente a atuação das forças policiais.

“Agora, quando se trata por exemplo, dessa capacidade operacional do Rio de Janeiro a gente não pode deixar de lembrar cenários onde helicópteros por exemplo, foram derrubados a partir de munições calibre 50, que infelizmente desequilibram o poder de fogo das forças de segurança e acabam transformando áreas urbanas em zonas de guerra”, destacou.

Medidas eficazes de rastreamento

Segundo o especialista, o país já dispõe de mecanismos tecnológicos, mas é fundamental avançar na adoção de monitoramento contínuo, cruzamento de dados financeiros e criminais e auditorias independentes.

“Quanto a medidas eficazes para rastreamento o que não se pode dizer, é que não se tem um mecanismo hoje moderno e em alguns casos até inovador, para que se tenha uma trilha de auditoria que seja quase incorruptível, adotar por exemplo, um monitoramento contínuo de integridade que cruza dados financeiros e criminais em tempo real, isso também pode ser solicitado, uma complementação destes testes para que a gente garanta uma integridade no transporte e no uso deste tipo de munições, o estabelecimento de auditorias até independentes, que elas não apenas tragam alguns os militares para poder fazer esse tipo de fiscalização, mas também outras instituições, de maneira que você consiga ter uma avaliação correta, uma fiscalização transparente para algo que passou a ser um problema grave quando são encontradas essas munições, nesses diversos locais, na mão do crime organizado”, disse.

Questionado sobre a possibilidade de o Amazonas enfrentar cenário semelhante ao do Rio de Janeiro, Leonardo alertou que o estado já registra episódios preocupantes.

“Fazendo uma análise prática no Estado do amazonas, sabe-se que existe um problema grave, houve um militar preso em novembro de 2025, com 1,5 mil que foram retiradas do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS). A gente tem também uma questão territorial, uma rede fluvial gigantesca que reduz a capacidade de rastreamento dos materiais desviados. Diferentemente do Rio de Janeiro, o Amazonas tem garimpeiros, madeireiros, cartéis transnacionais que acabam utilizando essa região até como corredor de cocaína, isso já foi observado inúmeras vezes, temos também a tríplice fronteira e isso amplia o risco. Então, as armas, em alguns momentos, são até trocadas por drogas ou vendidas por grupos armados internacionais, e isso já causa um problema mais alto que é, uma ameaça até a soberania nacional”, concluiu.

Sobre Leonardo Sant’Anna

Coronel (RR) PMDF Leonardo Sant’Anna é especialista internacional em segurança pública, liderança e inovação, com ampla atuação nacional e internacional. Foi Chefe do Estado-Maior, Subcomandante-Geral e Subsecretário de Segurança do DF, além de atuar em unidades de elite como BOPE, ROTAM e Choque, com destaque para 6 anos à frente de equipes de negociação de reféns.

É CEO da TFI – Total Florida International (EUA e Brasil), professor, palestrante, escritor e comentarista de mídia. Empreendedor, administra mais de 10 negócios, incluindo empresas nos EUA, lojas de armas e clubes de tiro, além de apoiar a internacionalização de empresas brasileiras.

Leia mais: PF desarticula ramificação criminosa ligada ao tráfico de drogas e lavagem de dinheiro no AM

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