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segunda-feira, janeiro 12, 2026

Vende-se um voto, compra-se um problema (e quem paga é todo mundo)

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Por Erica Lima Barbosa

Aqui na nossa terra, todo mundo conhece a história. Chega época de eleição, aparece gente que nunca pisou no bairro oferecendo ajuda “do nada”. É um saco de cimento aqui, uma gasolina ali, uma promessa acolá. Tudo embrulhado num sorriso largo e numa frase conhecida: “é só lembrar de mim na urna”.

O problema é que o voto lembra. E cobra.

O voto pode até caber num papel pequeno, mas quando é vendido vira um problemão tamanho Amazonas. Porque o dinheiro acaba rápido, a gasolina evapora, a promessa some, mas o eleito fica lá, firme, quatro anos.

Como diria Aristóteles, política é coisa séria: é sobre cuidar da vida em comum. Só que quando o voto vira mercadoria, a política vira feira e quem vende barato costuma sair no prejuízo.

O “BOM NEGÓCIO” QUE SEMPRE DÁ RUIM

Vamos combinar: se alguém gasta rios de dinheiro comprando voto, não é porque ama o povo. É investimento. E investimento precisa de retorno.

Depois não adianta estranhar:

– o posto sem médico,
– a escola sem merenda,
– o ônibus lotado,
– a rua cheia de buraco,
– o exame que nunca sai.

Como ensinou Jean-Jacques Rousseau, quando o povo entrega seu poder, perde a liberdade. Quem vende o voto entrega também o direito de reclamar depois, porque quem comprou não se sente eleito, se sente dono.

A CORRUPÇÃO QUE NÃO FAZ BARULHO, MAS FAZ ESTRAGO

Tem corrupção que sai no jornal. Mas tem outra que aparece no cotidiano: na fila da UBS, no remédio que falta, na violência que cresce, na comunidade esquecida.

A filósofa Hannah Arendt já avisava: o perigo começa quando a gente normaliza o errado. Quando comprar voto vira “tradição”, o sofrimento vira rotina.

E aqui no Amazonas, onde o Estado às vezes chega de barco, às vezes não chega, votar mal não é só erro político é risco real.

EDUCAÇÃO POLÍTICA: NÃO É PALESTRA, É CONVERSA

Falar sobre voto não é briga, é cuidado. É entender que trocar o futuro por um favor momentâneo enfraquece todo mundo.

Paulo Freire dizia que consciência nasce no diálogo. Então fica o convite: vamos conversar mais sobre política no jeito da gente, na calçada, na feira, no ônibus, no grupo da família, na mesa do almoço.

Porque o voto não é brinde.

Não é troco.

Não é promessa.

É decisão.

E da próxima vez que alguém oferecer “uma ajuda” em troca do voto, vale lembrar: quando o voto é vendido, a conta nunca vem só para quem vendeu. Ela chega pra todo mundo.

Quem é Érica Lima?

Érica Lima é mestre em Saúde, Sociedade e Endemias na Amazônia (Fiocruz Amazônia/UFAM), jornalista com registro profissional (DRT), apresentadora do Debate Político em parceria com a Rede Onda Digital (canal 8.2), diretora-executiva do portal O Convergente e escritora associada à AJEB/AM.

Mais do que títulos, carrega a missão de comunicar onde o silêncio impera nos rincões de uma Amazônia muitas vezes tratada como margem, mas que é centro de vida, de luta e de saber. Atua onde a estrada não chega, construindo pontes entre dados e vozes, entre o invisível e o essencial. Fomenta o protagonismo de mulheres que, mesmo sem diplomas, são catedráticas da vida e estrategistas na arte de viver.

Com expertise em pesquisa qualitativa eleitoral, desvela percepções, desvenda territórios simbólicos e transforma escutas em leitura crítica do presente político.

Leia mais: Podcast As Jornalistas: “Pesquisa qualitativa não é opinião, é método científico”, diz Érica Lima Barbosa

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