Em meio a denúncias recorrentes de desabastecimento de medicamentos, falhas no atendimento oncológico e investigações sobre uso indevido de recursos públicos na saúde, o governo federal anunciou, nesta quinta-feira (8), a doação de 100 toneladas de medicamentos e insumos hospitalares à Venezuela. A medida, coordenada pelo Ministério da Saúde, ocorre enquanto pacientes brasileiros seguem enfrentando filas, interrupções de tratamento e escassez de remédios em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS).
A ajuda humanitária foi justificada como resposta à crise provocada pela invasão militar dos Estados Unidos à Venezuela, no último sábado (3), que culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cília Flores, além da destruição do principal centro de distribuição de medicamentos do país. Segundo o governo brasileiro, a primeira remessa, de 40 toneladas, será destinada prioritariamente a cerca de 16 mil pacientes em tratamento de hemodiálise.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que a doação não compromete o atendimento interno. “Temos estoques seguros no Brasil e podemos ser solidários com o país vizinho”, declarou, lembrando que, durante a pandemia de covid-19, a Venezuela forneceu oxigênio ao Brasil em um momento crítico.
A narrativa oficial, porém, contrasta com a realidade enfrentada por milhares de brasileiros que dependem do SUS. Casos de interrupção de tratamentos, falta de medicamentos de alto custo e denúncias de má gestão seguem vindo à tona, inclusive em instituições de referência nacional.
Um desses casos é o do engenheiro químico aposentado Marcelo Carvalho Bastos, de 63 anos, diagnosticado com um câncer raro que afeta o sistema neuroendócrino. Tratado por uma década no Instituto Nacional do Câncer (INCA), no Rio de Janeiro, Marcelo relata ter sido vítima de falhas graves no acompanhamento médico. Segundo ele, houve omissão de informações sobre a progressão do tumor, que cresceu quase 50% em oito meses sem que fosse informado, além do registro de procedimentos em seu nome que nunca teriam sido realizados.
“Os médicos diziam que estava tudo estável, quando, na verdade, o tumor só crescia”, afirmou Marcelo, que também denuncia possíveis irregularidades no uso de recursos públicos vinculados ao seu tratamento.
O INCA nega as acusações, sustenta que seguiu protocolos internacionais e atribui as denúncias a uma interpretação equivocada dos dados. Ainda assim, o caso motivou a abertura de um inquérito pela Polícia Federal, por determinação do Ministério Público Federal, para apurar possíveis irregularidades. A investigação segue em andamento.
Levantamento com base em dados do DataSUS aponta que, entre 2012 e 2022, foram registrados 97 atendimentos ambulatoriais relacionados à quimioterapia em nome de Marcelo, totalizando cerca de R$ 86 mil em recursos públicos. Parte desses procedimentos, segundo o paciente, nunca ocorreu.
O contraste entre a disposição do governo em enviar toneladas de medicamentos para o exterior e as dificuldades enfrentadas por pacientes dentro do próprio país reacende o debate sobre prioridades na política de saúde pública. Para especialistas e usuários do SUS, a solidariedade internacional não deveria se sobrepor à obrigação constitucional de garantir atendimento digno, transparente e eficiente à população brasileira.
Enquanto o Planalto reforça o discurso humanitário, brasileiros seguem questionando por que, em um sistema marcado por denúncias, investigações e escassez, há sobra para fora e falta dentro.
*Com informações da Agência Brasil e Agência Pública
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